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“O Varela Gomes nem sabia onde ficava o Quartel de Beja” (vídeo)

Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo fotografia e vídeo

Memórias de Maximino Serra, 87 anos, um dos protagonistas do assalto ao Quartel de Beja. Este trabalho é a continuação do artigo publicado pela Sudoeste a 27 de maio passado.

Não é preciso muito. Bastam cinco minutos de conversa para se perceber que, aos 87 anos, Maximino Serra continua animado pelo sentido de missão revolucionário que o acompanha há 70 anos. Ou seja, desde o início da década de 50 do século passado. Para o caso de haver qualquer distração, é o próprio que marca o território: “Tenho a cultura da revolta, de modo que quando me pisam… só se não puder”.

Poucos meses depois da fraude eleitoral que afastou Humberto Delgado da Presidência da República (1958), em março de 1959, Maximino Serra é um dos envolvidos no denominado “Golpe da Sé”, assim conhecido por ser na Sé de Lisboa que se reuniam os conspiradores, apostado em promover uma revolta militar que derrubasse o regime e entregasse o poder a Delgado. “Estive nos preparativos e fiquei encarregado de uma parte da logística, onde se cruzavam os telefonemas”. Alertada por diversas fugas de informação, a PIDE abortou, à nascença, qualquer tentativa de levantamento militar. Como aquele em que voltaria a ter um papel ativo, na noite de 31 de dezembro de 1961: o assalto ao Quartel de Beja.

Nessa noite, um grupo de cerca de duas dezenas de civis e militares tentou tomar o controlo do quartel. “Depois do caso da Sé, o meu irmão conseguiu fugir para o Brasil, ficámos em contacto para fazer outro golpe, embora não soubéssemos bem qual. O plano inicial seria arranjar 75 homens para fazermos um assalto a três unidades no Norte do país”. Não o conseguiram. “Não havia revolucionários naquele tempo, eles apareceram só depois do 25 de Abril”. E a PIDE estava vigilante – em janeiro desse ano, Henrique Galvão e um grupo de 24 exilados políticos portugueses e espanhóis tinha sequestrado o paquete Santa Maria e Palma Inácio, pouco antes, tinha conseguido desviar um avião da TAP,  lançar sobre Lisboa 100 mil panfletos antifascistas e fugir para Marrocos.

“Fizemos uma primeira investida, mas não tínhamos homens suficientes, nem armas. Fomos a Beja uma segunda vez, nessa já entrou o Edmundo Pedro, que nos disse ter conhecimentos no Barreiro e que iria arranjar alguns homens”. No total, eram pouco mais de 20. “No dia em que se efetivou o assalto, fui eu e o David [que morreu em Beja] que, perto do pelourinho, nos cruzámos com o Varela Gomes… ele nem sabia onde era a unidade. Fomos nós que o conduzimos até lá”.

Prossegue Maximino Serra: “Em vez de perguntar onde estava o meu irmão, que era quem comandava a revolta, o Varela Gomes entrou no quartel e a primeira coisa que fez foi tentar prender o comandante, quando nós já estávamos a substituir sentinelas”. 

O resto da história é conhecido: o golpe fracassou. Dois dos revoltosos – David Abreu e António Vilar – perderam a vida. Maximino Serra conseguiu escapar para o Algarve, onde ficou três semanas. A que se seguiram mais três meses escondido em Monsanto, antes de se conseguir esconder no porta bagagens do carro do embaixador do Brasil em Lisboa e, já no interior da embaixada, pedir asilo político. “Estive três meses e meio na clandestinidade, sem dinheiro e sem me poder aproximar da família, vi-me numa situação dificílima. Alguns foram apanhados pela PIDE, eu consegui escapar… uns amigos levaram-me para Lisboa, fui para Monsanto e como tinha um amigo, que era amigo do motorista do embaixador, consegui esconder-me na mala do carro e entrar na embaixada”.

Primeiro viu ser-lhe recusado o pedido – “dizem que não tinham espaço, pois já lá estavam 17 exilados” – mas acabou por ficar. Durante uns longos 18 meses. “Houve uma negociação entre o governo brasileiro e a PIDE e ficou decidido que a polícia iria deixar sair 16 desses exilados. Só eu e o Pedroso Marques é que tínhamos de ficar”. É nessa altura que começa a planear a fuga. Para a qual seria bastante útil o ‘brevet’ que o habilitava a pilotar pequenas aeronaves.

“Preparei tudo com a conivência de um outro amigo. Saí da embaixada a uma hora em que sabia que não havia vigilância, dirigimo-nos a Torres Vedras e tratamos do avião, com a desculpa de ir tratar da compra de uns terrenos ao Algarve”. Em Albufeira voltam a contar a mesma história, para conseguir reabastecer o aparelho. E quando descolaram, em vez de seguirem em direção a Lagos, mudaram de rumo para Marrocos. Ainda se apercebem da presença de dois aviões da Força Aérea mas conseguem aterrar em segurança, em Tanger.

“Estive preso ainda um par de semanas, até esclarecer o caso, mas lá pedi asilo político e libertaram-me”. Sem trabalho, nem dinheiro, viveu uns bons seis meses em Tanger, a dormir na praia e a comer “o que desenrascava” no mercado. Antes de rumar ao Canadá, ainda teve de enfrentar problemas, pois na Associação dos Portugueses Livres de Marrocos chegaram a suspeitar que se tratava de um infiltrado. “Um indivíduo que dava pelo nome de Lopes Cardoso foi fazer o meu reconhecimento a Tanger e disse que conhecia muito bem o Manuel Serra e sabia que ele não tinha irmãos. Passei por infiltrado, a oposição fazia oposição à oposição. Eles não tinham vontade de fazer coisa nenhuma, apenas andar de um lado para o outro. Nós éramos um grupo de revolucionários que o que queria era armas para acabar com o regime. Para derrotar aquela força teria de ser pelas armas, não pelos jornais”.

O regresso a Portugal dá-se depois das comemorações do 1.º de Maio de 1974, quando abriu o espaço aéreo. Em finais desse mês, por “pressão” do irmão, Manuel Serra, deixam o Movimento Socialista Popular e integra-se no Partido Socialista, onde desempenha diversos cargos, até à expulsão, após 47 anos de militância.

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