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Vinhos alentejanos continuam a dominar mercado nacional 

Luís Godinho e Ana Luísa Delgado texto | Andrea Piacquadio foto

Passada a “euforia” do início do século, os vinhos alentejanos continuam a liderar o mercado nacional, com uma quota de quase 25%, e a consolidar o crescimento a nível das exportações, onde se registou uma subida de 12,4% nos primeiros seis meses do ano. Articular a produção com a possibilidade de comercialização, criar sustentabilidade e “preservar a identidade dos nossos vinhos” são prioridades para Joaquim Madeira, o “pai” da delimitação geográfica dos vinhos alentejanos.

Enólogo, produtor de vinho e o grande impulsionador da demarcação geográfica dos vinhos do Alentejo, Joaquim Madeira não tem dúvidas ao afirmar que o período de “euforia” dos vinhos alentejanos pertence ao passado. “Não querendo ser derrotista, aquela euforia dos primeiros anos do século passou”. Por “euforia” entenda-se o período em que a produção de vinho passou dos 30 para os 100 milhões de litros, colocando em poucos anos os vinhos alentejanos como os mais comprados pelos consumidores portugueses.

Num ano em que a seca e o calor extremo marcaram a vindima, fazendo com que a produção de vinho registe uma quebra significativa, Joaquim Madeira defende que a aposta terá de ser em “produzir cada vez melhor, não em produzir cada vez mais”. Ou seja, “temos que articular o crescimento com a possibilidade de comercialização e temos de criar sustentabilidade nos diversos setores da área da produção”. 

Elogiando o trabalho que, a este nível, está a ser liderado por Francisco Mateus, presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) – “está a trabalhar muito bem” – Joaquim Madeira sublinha que o desafio da sustentabilidade tem de ser aplicado em toda a cadeia de produção. “Temos de ser sustentáveis, na utilização de pesticidas, no aproveitamento da água. E não podemos introduzir castas que venham daqui ou dali, mesmo que sejam vinho excecionais”. Segundo acrescenta, a aposta tem de ser “preservar a identidade dos nossos vinhos, com as modernizações que é preciso fazer”.

Técnico da Direção Regional de Agricultura do Alentejo, Joaquim Madeira integrou na década de 80 a comissão instaladora da Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo (ATEVA). “Estava a ver o setor sem organização nenhuma, as regiões demarcadas do país a irem para a frente e o Alentejo a ficar para trás”.  É por essa altura que se envolve no trabalho de demarcação geográfica dos vinhos do Alentejo, trabalho que só ficaria concluído em 1987. Levá-lo a bom porto, confessa, “foi o cabo dos trabalhos”. Dois anos depois surgia a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), cuja primeira direção integrou. E rapidamente os vinhos alentejanos conquistaram a liderança do mercado nacional.

Fizemos um esboço da região vitícola, com a comissão instaladora da ATEVA. Fi-lo eu, mais uns colegas. E fizemos uma proposta, onde já estavam todos os interessados, desde os produtores de vinho aos de uva… foi o cabo dos diabos! Começámos este trabalho antes de 1980, com reuniões em cima de reunião, criámos um esboço da região demarcada e apresentámo-lo ao Instituto da Vinha e do Vinho (IVV). Isto é histórico: fui 68 vezes a reuniões a Lisboa”, recorda.

As resistências à delimitação geográfica dos vinhos do Alentejo eram muitas. “O Alentejo representa um terço da área país. Tinha, à época, duas culturas que estavam em processo de degradação: a produção de cereais e a pecuária. A gente não sabia quando entraria para a União Europeia e quais os benefícios que isso traria ao setor. Agora imagine esta imensidão, com este tipo de terras planas, sem ter de andar em encostas a fazer socalcos, a plantar vinhas. Era preciso travar o processo. Diziam que o Alentejo não podia ser demarcado, pois isso seria o reconhecimento oficial de uma determinada atividade que produz uma atividade de qualidade”.

A delimitação é conseguida em 1987. Dois anos depois surge a CVRA. A quota de mercado dos vinhos alentejanos cresce de forma exponencial, acompanhando o aumento da produção. A explosão foi tão grande, em termos de comercialização era imparável. Ninguém esperava isto. Em dois ou três anos saímos de uma produção de 30 milhões de litros para mais 100 milhões de litros de vinho”. Os últimos dados estatísticos divulgados pelo IVV confirmam a consolidação desta posição dominante do mercado nacional. Em 2020, o volume de vendas no mercado nacional ascendeu a cerca de 200 milhões de euros, o que representa 24,5% do total (menos 1,3 pontos percentuais do que em 2019), num ano marcado pela contração económica em resultado da pandemia de covid-19.

Por outro lado, os vinhos do Alentejo têm igualmente vindo a consolidar o crescimento das exportações. De acordo com a CVRA, nos primeiros seis meses deste ano as exportações registaram um subida de 12,4% em valor, comparativamente com idêntico período do ano passado, representando um volume de negócios na ordem dos 37,1 milhões de euros.

“A qualidade dos vinhos alentejanos está a ser valorizada lá fora, com os consumidores a estarem dispostos a pagar um valor mais elevado pelos nossos vinhos”, explica Francisco Mateus, presidente da CVRA, assinalando que o preço médio por litro subiu 2,5%, impulsionado pelo aumento do preço do vinho de Denominação de Origem Controlada, exportado a uma média de 5,35 euros (um aumento de 6,1% em relação a 2021).

“Voltámos a registar um crescimento muito positivo que ilustra o esforço e trabalho que os produtores alentejanos têm empregado na divulgação dos nossos vinhos além fronteiras, a par com o investimento na sua qualidade, e sustentabilidade da sua produção”, acrescenta Francisco Mateus, chamando no entanto a atenção para “um abrandamento” a partir de abril. Brasil, EUA, Canadá, Polónia e Suíça foram os destinos que mais contribuíram para os resultados alcançados.

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