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Vale do Pereiro com falhas frequentes de Internet

Margarida Maneta texto | Gonçalo Figueiredo foto

O problema? Uma caixa com capacidade para 50 terminais, mas com 150 ligados. A solução? Não está à vista. As outras operadoras não oferecem os mesmos serviços na aldeia, os abaixo-assinado ainda não são suficientes para corrigir a situação. Depois de 12 dias sem serviços, a junta de freguesia preparou uma reclamação conjunta com a DECO. 

O caminho desde Arraiolos, a sede de concelho, até Vale do Pereiro faz-se por uma estrada que, apesar de alcatroada, é estreita. Pelas 11h00, os termómetros já registam altas temperaturas e o sinal de rede móvel é fraco. Podia ser obra do acaso, mas é precisamente o motivo que nos trouxe até aqui. 

Nesta freguesia, as pessoas são poucas e maioritariamente idosas. Trata-se de uma zona deprimida e despovoada no interior alentejano em que o único serviço disponível, com oferta de rede móvel e fixa, televisão e internet é o da MEO. Pelo menos, é assim na teoria porque, na prática, o serviço falha várias vezes por mês.

“Aproxime-se”, pede-nos Maria Joaquina Silva, convidando-nos a entrar em sua casa. Dentro das quatro paredes está mais fresco. Na mesa, ao centro da divisão, está o telemóvel, junto a uma toalha bordada. Em frente, a televisão está desligada, se calhar por se ter tornado hábito, nos últimos tempos, serem mais os dias em que não funciona do que aqueles em que lhe faz companhia.

“Vou tentar telefonar para a minha vizinha Augusta para verem que não estou a mentir”, afirma. Augusta Lourenço também está por ali, sentada numa cadeira, à porta de casa, como quem espera que o vento sopre enquanto nos prova que a ligação não funciona.

A chamada cai. E volta a cair sempre que Maria Joaquina tenta de novo. “Não tenho rede e ninguém que me venha visitar tem”, explica. Resta-lhe o telefone fixo, que indica sempre que lhe pedem o contacto, mas também não é melhor. “Umas vezes temos, outras não. A televisão a mesma coisa e a Internet é para esquecer”, conta.

Nos dias em que o serviço falha a aldeia fica “completamente isolada”. E nesses momentos, em que estão incontactáveis e sem entretenimento, restam-lhe “os livros e os bordados”, diz, apontando para cima da mesa.

A caixa da MEO tem capacidade para 50 terminais, mas tem ligados 150. Quando parte da aldeia liga a televisão ou usa a internet, o sinal enfraquece e desliga-se. “Se as outras operadoras tivessem todos os serviços, já há muito tempo que eu tinha mudado”, declara Maria Joaquina Silva.

A prima de Maria Joaquina vive em Lisboa e já sabe que a rede por aqui é fraca. Normalmente, liga para a vizinha Augusta, que arranjou um cartão Vodafone para o telemóvel: “Sou doente oncológica e o meu filho disse-me logo que precisávamos de uma alternativa porque vivo sozinha e se o sistema avaria ou a luz vai abaixo não tenho telefone fixo, nem televisão. Não tenho nada”. 

Quando esteve infetada com covid-19, revela, passou o tempo deitada. “Foram três semanas, porque estive mesmo doente, e, a maior parte do tempo, a televisão não dava nada”. A rede móvel é da Vodafone, mas o telefone fixo e a televisão continuam a ser da MEO. Augusta Lourenço é cliente desde que o serviço chegou à aldeia. “Tenho sido sempre da MEO, mas também tenho apanhado grandes barretes”, afirma, rindo-se. “Vivemos numa aldeia sossegada, as pessoas compraram casas, que é o que nos interessa para a aldeia ficar habitada, mas têm dificuldade em ligar-se à internet, bem como os miúdos da escola em fazer e enviar trabalhos ou assistir às aulas online”.

Se a baixa densidade populacional podia ser vista como uma vantagem para quem procura um espaço pacato para estar em teletrabalho, a fraca qualidade do serviço MEO, o único disponível na zona, causa grandes constrangimentos. É o que testemunha André Viegas. Este jovem adulto procurou deixar o Barreiro rumo ao Alentejo para trabalhar remotamente. Foi ao site da MEO e inseriu o código postal da localidade: 7040-303. O resultado? “Parabéns. A fibra do MEO já chegou à tua zona”.  Hoje a resposta continua a ser a mesma. Mas quem passa por Vale do Pereiro sabe que não é assim. 

“Foi um balde de água fria”, afirma André Viegas. “Vim para aqui, mas quando pedi para me instalarem o serviço, só tinha cobertura ADSL, e isso é insuficiente porque trabalho na área de design e com ficheiros enormes. Isto traz custos acrescidos”, completa. Além do serviço da MEO, teve de adquirir um cartão com dados móveis, de outra operadora, para conseguir trabalhar. E, mesmo assim, é insuficiente. “Já tive de me deslocar a Lisboa porque tinha um trabalho grande para fazer e não tinha maneira de o descarregar a tempo”. 

Perante este cenário, a secretária da Junta de Freguesia, Patrícia Correia, por vezes, se gera uma situação de impotência. “Já fizemos uma reclamação conjunta com a DECO para tentar corrigir a situação, mas também abaixo-assinados. Também já procurámos perceber com outras operadoras a instalação dos serviços mas ou não nos respondem ou dizem que, pelo número reduzido de pessoas, não é viável investirem”, retrata, com algum desânimo. 

“Um dos principais objetivos é garantir que as pessoas ficam em Vale do Pereiro, que os jovens têm condições para ali ficarem e sem internet, hoje em dia, é muito difícil trabalhar ou estudar”, reconhece Patrícia Correia. E sem telefone, quando ocorre uma avaria, as pessoas não têm como o comunicar. “Sem telefone não conseguem fazer a reclamação. Dirigiam-se à Junta de Freguesia, com o número de cliente, e nós ajudávamos”, relembra. 

O mesmo se passou quando, em plena pandemia, o serviço falhou e aqueles que se encontravam infetados não tinham como o comunicar. “Muitas pessoas precisavam de ligar para a Saúde 24 e não tinham como o fazer. A partir da Junta de Freguesia, sabíamos as pessoas que estavam infetadas e fazíamos o contacto”. 

Aos isolados, restava-lhe “olhar para as paredes”, responde por experiência própria, Maria Luísa, enquanto nos encostamos à sombra a falar com duas octogenárias. Nenhuma das três traz telemóvel à vista. O ruído de fundo, apesar de terem as portas de casa entreabertas, não é nenhum. As televisões estão desligadas, como a de Maria Joaquina. “Eles não fazem nada, recebem o dinheiro pelo serviço ao final do mês e a gente que se lixe. Como isto é aqui perdido, no final do mundo… Os alentejanos não têm o direito à vida como têm os outros. Se fosse numa cidade, resolviam a avaria num dia”. 

Mas em Vale do Pereiro, quando, por mais um dia, se avaria o serviço dizem que “não sabem de onde vem o problema. Que à tarde fica resolvido. Depois passa para a manhã seguinte”. E assim se passam, às vezes, 12 dias. No final, a população nunca chega a saber o que sucedeu. Só sabe que o problema sempre volta.

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