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Um livro porque isto do vinho é universo de arte e ciência

Luís Godinho texto

Que isto do vinho também é um problema de ciência há de contar Rui Dias, professor da Universidade de Évora e responsável pelo Centro de Ciência Viva de Estremoz. Sendo que vinho também é arte, “uma das substâncias mais civilizadas do mundo”, para citar Hemingway, citado por Vanessa Schnitzer. E neste artigo falar-se-á ainda de “Os Malefícios do Vinho Tinto”, segundo José Mora Ramos. 

Comecemos, claro, pela taberna, ou melhor, pelo Tabernas do Alentejo – Arte e Ciência, cofinanciado pelo Orçamento Participativo de Portugal, “um projeto apaixonante, envolvente e amigo, como o vinho”, nas palavras de Carlos Cupeto, também ele professor da Universidade de Évora, coordenador da iniciativa e, não por acaso, geólogo. Escreve-se “não por acaso” pois que o homem, ao provar um tinto de Borba ou de Estremoz, não consegue deixar de lado os anticlinicais e os complexos vulcano-sedimentares.

O projeto desenrolou-se por três anos, incluiu iniciativas do alto do Alto Alentejo ao Baixo Alentejo e dele resultou a publicação de um livro que dá pelo nome de “Vinho, Arte & Ciência – A História Que Não Acaba”. Trata-se de uma obra surpreendente e fascinante, que aporta novas perspetivas para a compreensão do mundo do vinho e que nos conduz, em resumo, por vinha ainda pouco vindimada.

“Pessoas, lugares e vinho são a constante de tudo o que foi acontecendo. Surpreendentemente, ou não, sempre com muita gente, salas e adegas sempre bem compostas. Vinho, arte e ciência, partilhados, discutidos e conversados”, lembra Carlos Cupeto, igualmente autor de um dos capítulos do livro. Imaginam o título? “A Terra bebe-se no vinho”, claro. E tem razão: “Para um bom vinho, diz quem sabe, o mais importante é a vinha, [e] para a vinha, o mais importante é o lugar”. 

Eis a “conexão perfeita” entre geologia e uma boa pinga. E o pretexto para avançarmos para a ciência, não a de fazer vinho, o que já não seria pouco, mas a de olhar para o vinho, segundo a lupa de Rui Dias, que começa a escrever sobre átomos e Demócrito. 

Vamos por partes. Primeiro, refere o diretor do Centro de Ciência Viva de Estremoz, temos de perceber que há 2500 anos o vinho era feito “diluindo uma pasta de uva esmagada em água”. Depois, “ao olhar para a forma como a pasta se dissolvia”, Demócrito chegou a diversas conclusões, a mais importante das quais é resumida da seguinte maneira: “O vinho sólido tinha que conseguir dividir-se em pedaços muito pequenos que pudessem entrar nos buraquinhos da água”, mantendo as suas características. A esses pedaços chamou átomos. E, talvez, tenha bebido um copo para celebrar a descoberta.

Claro de Rui Dias ainda fala do ‘terroir’, indo mais além das afirmações de Carlos Cupeto, quando garante que “as rochas são a mãe de todos os ‘terroir’… [uma vez que] as rochas são o elemento fundamental na formação dos solos”. Em boa verdade, diga-se que o clima, mais ou menos seco, mais ou menos quente, e que a seleção das castas também contribuem para a definição do ‘terroir’, e por isso se lamenta a ausência no livro de, pelo menos, um ou uma climatologista e um ou uma ampleologista.

Vale-nos Francisco Mateus, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo, para lembrar que os vinhos aqui produzidos representam cerca de 40% do mercado nacional e 20% das exportações. “Com o olhar no futuro e ciente das potencialidades turísticas da região e de Portugal, o Alentejo desde há muito que encara o enoturismo como veículo de promoção, mas também como facilitador do comércio de vinhos, pelas experiências singulares que pode proporcionar aos milhares de turistas que nos visitam”, sublinha.

Doutoranda – agora diz-se “estudante PhD” – da Universidade de Évora, Vanessa Schnitzer é autora de crónicas sobre vinhos, e neste livro deixa-nos um interessante texto sobre vinho e arte, embora com uma conclusão – digamos – ousada: “Os efeitos do vinho conduzem à embriaguez que potencia a criação artística, que veio dar origem à célebre frase ‘in vino vertitas’. É o vinho, o único elixir capaz de provocar o tal delírio lúcido, que nos conduz à verdade”. 

Trata-se, assegura, de uma “alucinação inspirada”, por vezes até apontada como a “origem” da criação artística e da própria civilização ocidental. De tal forma que Vanessa Schnitzer lembra Tucídides, historiador da Grécia antiga, segundo o qual “os povos do Mediterrâneo começaram a emergir da cultura barbárica quando aprenderam a cultivar a oliveira e a vinha”. Salto citações de autores como Fellini ou Hemingway (referida no início deste texto), mas antes de chegar ao teatro não consigo deixar de me embalar por uma frase de Anton Tchekov, médico e dramaturgo: “O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas”.

Ora foi precisamente uma obra de Tchekov, além de poesias de Beaudelaire e de Omar Khayyam, que levaram José Mora Ramos a escrever “Os Malefícios do Vinho Tinto”, monólogo representado na Adega do Piteira, na Amareleja, e na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. Em palco, Niúkhin, consumidor, apreciador e crítico. É ele quem o diz: “Que linda cor tem este vinho, parece… em tempos, já não sei porquê, disse à minha mulher que o vinho tinto que eu estava a beber naquele momento possuía uma textura aveludada, suave, com os taninos amaciados, e uma linda cor rubi”. Vinho é arte.

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