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Teatro popular. A irreverência das Brincas do Carnaval de Évora

Luís Godinho | Texto

“No dizer do povo”, comenta Rui Arimateia, responsável pelo Centro de Recursos do Património Cultural Imaterial do Município de Évora, “as Brincas são constituídas por grupos de foliões, hoje rapazes e raparigas, para brincarem ao Carnaval”. O tempo verbal utilizado na frase faz toda a diferença. Expressão da cultura popular alentejana, há notícia da existência de Brincas de Carnaval em diversos locais do Alentejo Central, como Arraiolos, São Gregório, Santa Susana, Capelins ou Alandroal. Mas apenas as Brincas das Quintas de Évora “permaneceram ativas, como reminiscência dessas tradições de outrora”. Ainda que, mesmo estas, restritas a um número reduzido de grupos.

“Entre esta moldura de bairros periféricos e a zona intermediária das quintas, nas zonas de maior passagem, as Brincas encontraram o seu território mais fértil, com destaque para o eixo que liga Canaviais ao Louredo e à Nossa Senhora dos Aflitos (correspondente aos itinerários clássicos Cinco Cêpas e Caminho da Missa), para o eixo que liga a Comenda ao Dgebe e a Nossa Senhora de Machede e ainda para os eixos a sudoeste (na direção dos Bairros de Almeirim até ao Bairro das Espadas/Barraca de Pau/Peramanca)”, assinala a investigadora Isabel Bezelga, autora de diversas obras sobre o tema.

De todos estes grupos, antes da pandemia de covid-19 apenas três se mantinham ativos: os do Rancho Folclórico “Flor do Alto Alentejo”, o do Bairro dos Canaviais e o da Escolinha das Brincas, também ele no Bairro dos Canaviais. 

De que falamos quando falamos de Brincas? “É um teatro popular que já existe há muito, muito tempo”, resume Rui Arimateia em “Brincas de Carnaval de Évora – Uma Manifestação do Património Cultural Imaterial”, livro editado pela Colibri e que inclui um conjunto de fotografias do fotojornalista Augusto Brázio, datadas de 2001 e de 2019.

“Olhar as Brincas foi para o fotógrafo [em 2001] a descoberta de uma manifestação cultural popular por ele desconhecida de todo. Após fotografar toda a movimentação no terreno e observar as pessoas que entusiasticamente acorreram à Taberna do Pascoal ao Louredo para as presenciar, compreendeu melhor o fenómeno e a sua envolvência”, explica Rui Arimateia. Passados 18 anos, a sensação de Augusto Brázio é de redescoberta, como que se as Brincas “tivessem ficado encerradas numa cápsula do tempo”, apenas tendo “mudado” o olhar do fotógrafo e o seu sentir “perante uma manifestação como que cristalizada e que teimosamente se manifestava à sua frente e perante os olhares de todos os seus fiéis seguidos e espectadores”.

Não se conhece exatamente a origem das Brincas, não existindo registos anteriores ao início do século XX, o que poderá estar relacionado com o facto de os participantes “se situarem foram da notabilidade histórica”. Existem, no entanto, “algumas relações de cumplicidade entre os textos dos fundamentos e os textos teatrais em folhetos de cordel”.

Sendo história, prossegue o responsável pelo Centro de Recursos do Património Cultural Imaterial do Município de Évora, as Brincas são também “contemporaneidade e modernidade”, na medida que “a linguagem, os personagens e os espaços se adaptam às novas realidades sociais e culturais”. São, no fundo, “uma expressão cultural enraizada num território e manifestada através da fruição e oferecimento da palavra, da música e dos gestos por parte dos elementos que as reconstroem ano após ano”, num processo de “germinação e de transmissão das palavras que exemplifica paradigmática e conceptualmente a realidade do Património Cultural Imaterial”.

Na sua tese de doutoramento pela Universidade de Évora em Estudos Teatrais, disponível online, Isabel Bezelga recorda a existência de um “longo historial de proibições e de tentativas de normatização” das práticas carnavalescas, incluindo obviamente as Brincas, que tinham de ser autorizadas pelo Governo Civil e que só depois do 25 de Abril puderam alargar os seus circuitos e entrar no centro histórico da cidade.

Durante toda a ditadura salazarista, reforça Rui Arimateia, “as performances das Brincas estavam confinadas ao território das quintas e dos espaços rurais, longe das centralidades urbanas” pois as suas práticas “irreverentes” confrontavam-se com o repressivo “controlo social” imposto por Salazar através da censura.

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