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Sónia Ramos: “Para o Alentejo, a bazuca é quase nada”

Ana Luísa Delgado texto | Gonçalo Figueiredo foto

Com 21,4%, e mais quatro mil votos do que nas eleições de 2019, Sónia Ramos foi eleita deputada por Évora, deixando fora do parlamento o até agora líder da bancada parlamentar do PCP, João Oliveira. Em entrevista ao Brados do Alentejo, a deputada social-democrata aponta prioridades para o seu mandato, promete trabalhar em articulação com todas as distritais do PSD na região e dispara sobre a bazuca: “Da grande oportunidade de financiamento para o Alentejo, o que lá está é quase nada”.

Qual a sua análise ao resultado das últimas autárquicas?

No distrito de Évora foi uma vitória agridoce… o PSD no distrito de Évora cumpriu o seu objetivo, portanto, retoma a sua representatividade na Assembleia da República e isso era fundamental para o nosso partido. A nível nacional, a leitura não é tão boa, os resultados não foram os esperados e, portanto, desse ponto de vista, sem prejuízo da reflexão que haverá a fazer, não estamos satisfeitos com o resultado nacional.

Além de ter sido eleita por Évora, é a única deputada que o PSD elegeu no Alentejo. Sente-se com uma responsabilidade acrescida?

Sinto um grande peso de responsabilidade porque é natural que os responsáveis distritais do Alentejo queiram trabalhar em articulação connosco, até porque faz todo o sentido, considerando os temas de interesse comum. É natural que venha a haver uma articulação próxima entre a deputada do PSD eleita por Évora e os outros distritos do Alentejo. 

Quais os pontos em que irá centrar o seu trabalho enquanto deputada?

Nós somos deputados à Assembleia da República, ou seja, de todo o país, apesar de eleitos por um círculo eleitoral. Vou continuar a bater-me pelo Alentejo, pelo mundo rural, pelas nossas tradições, pelo direito a ficar aqui e pelas mesmas condições e direitos que todos os outros portugueses têm para permanecer no seu território. As causas vão ser exatamente as mesmas: a questão da desertificação, da diferenciação positiva, nomeadamente ao nível fiscal para as empresas e pessoas, o apoio na área social que tem de ser diferenciado face à extensão do território. Naturalmente que haverá um líder parlamentar e haverá, ao nível do conjunto de deputados, orientações. Tentaremos seguir essas orientações nacionais, mas defendendo o nosso território e aquilo que foram sempre as causas do PSD.

Neste momento, o Alentejo vive um período de seca. Esta é uma preocupação sua?

Claro que sim. É uma preocupação como cidadã, como política, como deputada eleita. O sul, incluindo também o Algarve, mas mais em particular o Alentejo, que nos diz respeito, está em risco, ou numa fase iminente de risco. Ainda hoje, na comunicação social, vi associações de agricultores a queixarem-se desta realidade e do encarecimento da alimentação dos animais face à ausência de pastagens. Isto é algo que nos preocupa a todos porque tem influência na cadeia alimentar. Naturalmente que é uma preocupação minha e do PSD. Vamos aguardar pelas medidas que o governo entender implementar.

Vem aí a dita “bazuca”. De que forma é que espera vê-la aplicada no Alentejo e em que áreas?

A “bazuca” já tem o plano estratégico, que é o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e, aquilo que disse sempre ao longo da campanha eleitoral e que mantenho, é que, do ponto de vista do PRR, ou seja, da grande oportunidade de financiamento para o Alentejo, o que lá está é quase nada. Daí ter dito que me espanta como é que os portugueses e os alentejanos continuam a votar no PS vendo que o grande instrumento financeiro da maior oportunidade que temos para o nosso território não tem lá nada contemplado, ao contrário de outras regiões. Temos, por exemplo, para a cultura 150 mil euros, uma verba absolutamente irrisória. Não temos investimentos públicos de vulto no PRR. Temos ali meia dúzia de quilómetros de estrada, mas não há nada significativo nem estruturante para o território. Veja-se que ao nível de equipamentos de saúde, existem no PRR verbas afetas e, estou a lembrar-me, para o hospital da Madeira… o de Évora não tem lá qualquer tipo de financiamento. Ao nível do investimento público, não existe nada particularmente afeto ao Alentejo e isso é importante porque denota a relevância que este governo deu aos investimentos públicos: muito pouco ou nada. E, atenção, não estou a falar de candidaturas em que empresas particulares poderão depois candidatar-se e trazer investimento para o território.

Se a regionalização for debatida no parlamento, a Sónia defende-a ou não?

Essa pergunta não pode ser respondida por sim ou não por várias razões. Desde logo, são questões nacionais que exigem um consenso político também dentro do partido. Neste momento, o PS não quis sequer proceder à descentralização nem desconcentração dos serviços públicos, nomeadamente, em territórios de baixa densidade. Centralizou toda a Administração Pública impedindo que a desconcentrada faça pequenos atos como a compra de um carimbo e outras coisas mais. Está tudo centralizado em Lisboa, todas as competências, na generalidade dos ministérios e, portanto, o sinal que o PS deu foi o de não querer discutir regionalização nenhuma, nem dividir o poder no território. Vamos deixar que o próximo governo o faça, se for esse o entendimento. Ao nível do PSD, que irá iniciar um processo de reflexão e de algumas mudanças, haverá alguma posição do partido sobre essa matéria. 

Será deputada em exclusividade?

Não vou trabalhar na minha área [reinserção social] e estar na Assembleia da República… era humanamente impossível. Houve um ato eleitoral, em que fui eleita, e, portanto, não sei se será figura de interesse público ou licença sem vencimento. Vou suspender essa minha atividade profissional porque de outra forma não conseguia. 

Está a pensar mudar-se para Lisboa ou vai estar entre Lisboa e o Alentejo?

Nunca fui deputada, não sei bem como é que as coisas se vão processar, mas estou tranquila quanto a isso. Nunca quis ir para Lisboa. Gosto do Alentejo, moro aqui, as minhas causas estão aqui. A Assembleia da República tem sede em Lisboa… vou aguardar tranquilamente que me chamem e depois organizar a minha vida em função disso. Não vou morar para Lisboa até porque quero e julgo que onde faço falta é aqui no território alentejano. Não tenho no horizonte essa intenção.

“VOU MANTER O COMPROMISSO COM ESTREMOZ”

Vai manter-se como vereadora na Câmara de Estremoz? 

Sim. Assumi um compromisso com os estremocenses, pretendo mantê-lo. Julgo até que a minha eleição como deputada favorece o concelho porque, pelo menos, tem mais um interlocutor político que poderá promover o concelho naquilo que for possível. Desse ponto de vista, a votação do PSD em Estremoz para as legislativas de 2022 aumentou face a 2019, creio que isso tem muito a ver também com a proximidade e conhecimento que as pessoas vão tendo relativamente à minha pessoa e ao meu trabalho com vereadora e, portanto, não vou agora abandonar esse compromisso.

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