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Seca trouxe “ano penoso” para a produção de vinho

Ana Luísa Delgado texto

A seca e as temperaturas elevadas vão ter reflexos na produção de vinho deste ano. Com as vindimas em pleno, Francisco Mateus, presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) antecipa um ano com menor produção. 

“As vindimas começaram com as vinhas em stress por falta de água e, portanto, com cachos mais pequenos, com menos peso, alguma concentração que é bom, mas há algumas dificuldades de equilíbrio em termos das maturações”, diz Francisco Mateus. “Para a viticultura vai ser um ano penoso porque há falta de água. Vai haver menos quantidade de uvas que se vai refletir numa menor quantidade de vinho”.

O presidente da CVRA diz ainda não ser possível avançar uma estimativa da queda de produção pois as vindimas ainda vão a meio nalgumas zonas do Alentejo. “Nos contactos que tenho feito e nas visitas com produtores é transversal a quase todos eles uma redução da quantidade e, no final da vindima, esta realidade haverá de se converter numa produção negativa face a 2021”. Tanto mais que o ano passado foi de produção “muito elevada” no Alentejo: a maior dos últimos 30 anos.

“É sempre penoso para a viticultura estar a trabalhar um ano inteiro e depois o resultado do seu trabalho não ser o esperado, nomeadamente em termos de quantidade”.

Francisco Mateus recorda que até junho deste ano a precipitação no Alentejo correspondeu “a metade” da de 2021. “Tivemos um ano mau, houve muito pouca chuva. A chuva caiu em março e abril. Em junho e julho não. As plantas ressentem-se e originam um fruto menos pesado”. Ou seja, o principal impacto da seca é  redução da quantidade de uva. Mas poderá também ter consequência ao nível da qualidade. 

“No início de julho”, acrescenta, “houve muito dias sucessivos com temperaturas bastante elevadas, o que colocou a planta ainda em mais stress. O Alentejo já há muitos anos que tem seca, uns anos mais, outros anos menos. Este ano foi muito mau porque para além da pouca chuva tivemos 11 dias, consecutivos, com temperaturas durante o dia superiores a 35 grau e a chegar até aos 40 e temperaturas de noite bastante quentes. Não houve amplitude térmica, que permitisse alguma humidade que pudesse dar algum descanso à planta. Espero que não seja o exemplo de anos futuros”.

À SW Portugal, Francisco Mateus não esconde a preocupação pelas consequências das alterações climáticas no setor do vinho. “Nos últimos seis anos tivemos sempre temperaturas muito elevadas, temos recordes de temperaturas muito elevadas, de falta de chuva, há aqui alguma descalibração do clima e isso afeta as plantas, afeta a qualidade do fruto que elas dão. É preciso não baixarmos os braços e olharmos para isto como tendo um fenómeno que já estamos a sentir e que não sabemos como vai evoluir” no média prazo.

Ainda de acordo com o presidente da CVRA, “há toda uma parte da enologia que está muito mais evoluída do que estava no passado e há as decisões em termos de vindima que têm de ser tomadas com o objetivo de continuarmos a conseguir ter uma produção de uvas e um trabalho de enologia que consiga fazer chegar ao consumidor um produto com qualidade e com aquele cunho que as pessoas reconhecem ao Alentejo. Temos que nos ir adaptando a esta nova realidade”.

Recorde-se que em 2014, a CVRA lançou um programa para o setor, no sentido de “implementar soluções” que tornem o setor mais sustentável: “Estamos a falar da água, mas também da consolidação dos solos, da resiliência das plantas, do consumo de energia. São medidas que nos permitam ser mais sustentáveis, manter o setor dos vinhos do Alentejo a trabalhar, a produzir uvas, a dar emprego”.

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