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Reeditadas cartas de amor de Mariana Alcoforado

Aí está uma nova edição das célebres cartas de amor escritas por Mariana Alcoforado, freira de Beja, a um oficial do exército francês e publicadas, pela primeira vez, em 1669. Trata-se da publicação de uma nova tradução e estudo histórico com a assinatura de José António Falcão.

Luís Godinho (texto) | Bruno Lino Vassalo (fotografia – documentário “Cartas”)

“Reflete, meu amor, a que ponto chegou a tua falta de prudência. Ah, infeliz! Foste traído e traíste-me com falsas esperanças”. Logo na primeira frase, da primeira carta, Mariana Alcoforado, freira do Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, diz ao que vem. “Uma paixão de que esperavas tantos deleites não te dá, agora, mais do que um mortal enfado, só comparável à crueldade da ausência que o causa”.

As cinco cartas, endereçadas ao marquês de Chamilly, Noël Bouton de seu nome, que por essa altura (1663) e “por iniciativa própria” decidiu acompanhar os efetivos do exército francês auxiliando Portugal na restauração da independência. 

Nessa qualidade, em 1664 “interveio à frente dos seus homens em acontecimentos de peso na estratégia militar”, sublinha o historiador José António Falcão, acrescentando que as operações de “maior envergadura” em que participou foram o cerco a Valência de Alcântara e a tomada de Castelo Rodrigo ou, em junho de 1665, a Batalha de Montes Claros, “sobressaindo também no combate travado junto ao Rio Xévora, onde se deu a aniquilação das tropas do marquês de Caracena”. 

Regressado a Franca em finais de 1667, Noël Bouton deixou para trás uma freira “perdida” de amores. “Vivi muito tempo num desamparo e numa idolatria que me causam horror, e o remorso persegue-me com uma crueldade insuportável. Sinto enorme vergonha pelos crimes que me levou a cometer; já não acalento – ai de mim! – a paixão que me impedia de reconhecer a sua monstruosidade”, escreve Mariana Alcoforado, na última carta que envia ao marquês.

Nascida em Beja em 1640 no seio de uma família importante da cidade, Mariana ingressa como educanda no Convento de Nossa Senhora da Conceição, a instituição religiosa “mais importante da cidade”, a “dois passos” da casa onde nasceu, com apenas 11 anos. O pai, Francisco da Costa Alcoforado, “descendente de uma família da nobreza rural transmontana”, tinha-se estabelecido em Beja e casado, em 1637, com Leonor Mendes, “filha de abastados proprietários e comerciantes” da cidade.

Aos 16 anos, Mariana tomou votos e não mais abandonou a vida conventual, tendo exercido os cargos de porteira, escrivã e vigária. “O empenho de Francisco Alcoforado em inculcar dois filhas na Conceição, reflexo da estratégia de valorização do morgadio e de alguns precedentes familiares, explica-se não só pela aura de prestígio que envolvia o convento, mas também pela vizinhança deste relativamente ao seu solar, que ficava quase ao lado, na esquina da Rua do Touro, diante da Igreja de São João Batista”, assinala José António Falcão, no estudo histórico que acompanha esta reedição das “Cartas Portuguesas”. 

O homem, prossegue, “não olhou a despesas para instalar honradamente” as duas filhas, Mariana e Catarina, no Convento da Conceição – que o historiador Manuel Ribeiro haveria de alcunhar como “viveiro de fidalga” -, tendo mandado “construir-lhes aposentos próprios, dito «casas», dentro da vasta mole da clausura, uso frequente em gente de posses”.

Historiador, museólogo e gestor cultural, e ex-diretor do Departamento do Património Histórico e  Artístico da Diocese de Beja, José António Falcão refere que as freiras da Conceição, “só na aparência mortas para o mundo”, em um “ativo foco de vida social e cultural”, o que também acontecia noutros conventos femininos. 

“Embora esta casa andasse longe de ser uma «corte de Vénus», consoante a quiseram mostrar a partir do século XIX diversas opiniões eivadas de anacronismo, não deixaria de existir certo relaxamento da disciplina, o que oferecia espaço de manobra para um ou outro avanço galante, por vezes aceite pelas destinatárias”, acrescenta o historiador, lembrando que, também à semelhança do que ocorria em localidades onde se encontravam instalados mosteiros e conventos femininos, Beja tinha a sua “legião de freiráticos”, termo surgido no século XVIII para descrever aqueles que nutriam um amor, mais ou menos platónico, por religiosas. 

É neste contexto, em que até “circulavam oficiosamente” regulamentos para “instruir” as freiras sobre “a forma de melhor lidarem com os amantes”, que madre Mariana Alcoforado se terá cruzado com Noël Bouton, em 1666. O primeiro encontro, sublinha José António Falcão, terá sido “à distância”, uma troca de olhares num dia em que o marquês de Chamilly acompanhou Baltasar Alcoforado, irmão de Mariana e também ele militar, numa deslocação perto do convento. “Terá sido esse o despontar do ardor”.

Daí, o oficial francês passou à demonstração das suas aptidões equestres, através de “exercícios demasiado temerários” nas Ruas da Conceição e da Fábrica, à volta do convento. Depois, “graças a cumplicidades familiares, entre elas a de Baltasar, ter-se-á servido dos dotes galantes para chegar à fala com a freira e, inclusive, requestá-la em solo sagrado”. Ou talvez um pouco mais. “Mortificaste-me com as tuas insistências, abrasaste-me com os teus arrebatamentos, encantaste-me com as tuas lisonjas, fizeste-me acreditar nas tuas promessas, o meu feitio ardente acabou por deixar-se seduzir”, escreve Mariana Alcoforado na terceira carta.

José António Falcão assinala que a história das “Cartas Portuguesas”, inicialmente publicadas em França com o título “Lettres Portugaise”, é ela própria “um romance”, não se sabendo quem as fez chegar ao editor parisiense Claude Barbin. “O livrinho”, lembra o historiador, prendeu as atenções e levou a que se discutisse com entusiasmo, além dos pormenores maliciosos, quem poderia ter escrito as missivas (…) a novidade constituiu um surpreendente êxito de vendas e não demoraria a esgotar”.

CLÁSSICO DA LITERATURA

A primeira edição das “Cartas Portuguesas” data de 1669, apenas dois anos depois de Noël Bouton ter regressado a casa. Ainda hoje é “considerada um clássico da literatura francesa do tempo de Luís XIV”, tendo a sua escrita sido atribuída, inicialmente, a Gabriel Lavergne, um conhecido escritor da época.

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