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Raul Rasga (artigo de opinião): “O tempo dos professores”

Raul Rasga, professor | opinião

O título que escolhemos é reconhecido por quase todos os professores portugueses. É o título da obra fundamental de António Nóvoa que estudou a construção da profissão docente em Portugal entre o século XVIII e os anos 30 do século XX. 

Obra incontornável no campo da História da Educação e que logo no início nos diz: “A compreensão da génese e desenvolvimento da profissão docente exige o recurso a um olhar sobre a longa duração, o único capaz de apreender esta história (feita de continuidades e roturas) em toda a sua complexidade”.

E vale pena passar os olhos pelo que nos dizia António Nóvoa, já em 1987, no final deste livro: “A esperança, neste final atormentado do século XX, é uma espécie de ‘procura do impossível’: os tempos atuais não permitem mais uma visão idílica da sociedade e do papel da escola e dos professores, mas reclamam, pelo contrário, uma pesquisa quotidiana de um sentido para a ação educativa. Os professores não são, seguramente, como muitas vezes foi proclamado, ‘os sábios do mundo’, mas eles não são mais apenas ‘os simples agentes’ de um poder que os ultrapassa, do qual alguns os acusam. Ao reencontrar um equilíbrio que perderam e ao compreender os limites do seu trabalho, os ‘profissionais do ensino’ também serão capazes de definir as estratégias de ação que não podem tudo mudar, mas que podem mudar qualquer coisa. E esta qualquer coisa não é negligenciável”.

Uma leitura que teria sido proveitosa para muitos dos responsáveis pela Educação no nosso país. Talvez assim não dissessem, com total tranquilidade, que “não sabem, nem querem saber” como chegámos aqui. Tudo isto a propósito do que se passa em tantas escolas de Portugal nestes primeiros dias do ano da graça de 2023. 

Os professores cansaram-se. Cansaram-se da perda de rendimento brutal que sofreram e sofrem perante a placidez da tutela. Cansaram-se de uma carreira que mantém perto de dois terços dos professores do quadro a meio da carreira e com estrangulamentos que os impossibilitam de chegar ao topo. Topo da carreira, convém lembrar, que corresponde a pouco mais de metade dos índices da carreira de técnico superior, condenando a grande maioria a nunca lá chegar.

Cansaram-se de um sistema que mantém perto de 20 por cento a sua força de trabalho na precariedade, a ganhar o mesmo, independentemente dos anos de serviço prestado. Os professores cansaram-se de uma burocracia asfixiante que os impede de fazer aquilo que, na sua grande maioria, sabem e gostam de fazer: ensinar.

A gota de água foi a proposta de alteração dos concursos que afinal não existia. Mas já agora, é melhor desmentir o que afinal existia, mas não existia, mas que afinal nunca existiu, num jogo de palavras e de conceitos inenarrável.

A ingenuidade não é propriamente a característica principal de grande parte dos professores. Anos e anos de proletarização, de desrespeito pela profissão, de ataques públicos (a escandalosa conversa dos atestados médicos, por exemplo), deixaram a maioria vacinada contra estas manobras.

E nas escolas, os de baixo, os que estiveram sempre nas trincheiras resolveram organizar-se. E, pecado capital, sem seguirem o guião dos sindicatos habituais. 

Esta é a grande transformação em curso: uma nova forma de organização dos trabalhadores, uma organização em rede, numa lógica de ‘adhocracia’ que foge ao controlo dos aparelhos sindicais habituais. 

Creio bem que a unidade, o mito organizador de tantos protestos na área da Educação e que levou ao estado a que chegámos, será alcançado em torno de objetivos concretos. E será concretizada a partir de baixo, da organização dos professores em cada escola, em cada agrupamento.

Só compreendendo as novas formas de organização em rede, só ultrapassando a enorme desconfiança dos de baixo perante as direções que se eternizam nos cargos, só ouvindo quem está nas escolas, só ultrapassando as agendas, mais ou menos, partidárias, os sindicatos vão recuperar a confiança da maioria dos docentes.

Porque os sindicatos são essenciais e porque só a força do trabalho organizado muda as coisas, quero acreditar que estão a perceber o que está a acontecer. E talvez seja mesmo este “o tempo dos professores”.

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