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Quer ver como era Estremoz em 1927? Vá ao cinema este sábado

Luís Godinho, texto

De como um agricultor ganhou prémios na criação de porcos, um cavaleiro foi colhido em plena praça e um ministro prometeu “atender” às “reclamações” dos agricultores. Bem-vindos a Estremoz, num filme que promete um “regresso” ao passado, ao tempo em que não faltavam árvores no Rossio Marquês de Pombal. E em que o Sporting conquistava a Taça da cidade.

Rui da Câmara não teve uma tarde feliz na Praça de Touros de Estremoz. Colhido logo no início da lide, teve de ser substituído, ficando os touros entregues a João Branco Núncio, então com 26 anos, já uma figura incontornável do toureio a cavalo. Em maré de sorte esteve Francisco de Almeida Cortes, proprietário agrícola, que não só ganhou o primeiro prémio de porcas de criação, como foi o vencedor no concurso de bácoros e de varrascos. Sejam bem-vindos a Estremoz, 1927.

Dois anos antes tinha sido organizada pela Câmara e pelo Sindicato Agrícola a primeira Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial de Estremoz, sempre com início no segundo sábado de maio, e esta terceira edição já era considerada “incontestavelmente o certamente mais importante do sul de Portugal”, ocupando cerca de 20 mil metros quadrados e levando ao Rossio de Estremoz, em média, 40 a 45 mil visitantes.

Falar de gado suíno não é despiciendo, já que estes animais eram considerados “a principal riqueza do nosso Alentejo”. Pelo menos é dessa forma que Artur Costa Macedo se lhes refere no filme, com mais de uma hora, que nos permite fazer uma “viagem no tempo” ao encontro das vivências quotidianas da cidade de Estremoz no final da década de 20.

Desengane-se, no entanto, quem pensa que tudo é radicalmente diferente. Desapareceram as árvores do Rossio, então bastante arborizado, as modas eram outras, em vez de automóveis eram as carroças que percorriam as ruas, mas a relação entre agricultores e políticos era mais ou menos a mesma.

Através do filme sabemos que a feira foi visitada pelo ministro da Agricultura, Felizberto Pedrosa, recebido no stand do Sindicato Agrícola. Aqui, o representante dos agricultores, e também presidente da Câmara de Estremoz, Rosado da Fonseca, botou da palavra para apresentar “as reclamações da lavoura regional”. O ministro “prometeu atender as reclamações apresentadas”. E lá foram entregar os prémios aos vencedores dos concursos de gado.

Nascido em São Tomé em 1894, Artur Costa Macedo começou a trabalhar em 1918 como operador de câmara na Lusitânia Film, de Lisboa, passando três anos depois para a Invicta Film, no Porto, antes de passar a filmar por conta própria, sobretudo documentários e o que então se chamava de “atualidades”, ou seja, o registo em filme de acontecimentos ou eventos. “A Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial de Estremoz no Ano de 1927” foi o seu primeiro trabalho como diretor de fotografia.

Numa organização do grupo Cidade – Cidadãos pela Defesa do Património de Estremoz, o filme poderá voltar a ser visto este sábado, dia 23, a partir das 17h00, numa sessão marcada para o Teatro Bernardim Ribeiro e integrada nas comemorações das Jornadas Europeias do Património.

“O filme é um documentário sobre aquela feira que se realizou no Rossio Marquês de Pombal, praça central da cidade, que fora elevada a esse estatuto no ano anterior. A feira é bem demonstrativa da dinâmica e desenvolvimento de Estremoz, mesmo tendo em conta que se vivia a pós epidemia que ficou conhecida como gripe espanhola, que ceifou tantas vidas. Mas o filme é também um testemunho das atividades do concelho naquela época, e das suas gentes, que vale a pena recordar”, assinala o grupo Cidade.

Trata-se de uma representação digital da cópia preservada pela Cinemateca Portuguesa com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz. A exibição será acompanhada, ao vivo, pela banda da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense (União), fundada em agosto de 1871.

PATRIMÓNIO E OFICINAS

O filme arranca com panorâmicas sobre a cidade e o castelo, no qual “entramos” pela porta de Santarém, com a Torre de Menagem em pano de fundo. Junto à porta “denominada dos Currais” – e que é descrita como “uma das melhor conservadas da cidade” – cruzam-se três carroças. Pelas ruas há grupos de adultos e de crianças. Antes de chegar à feira, propriamente dita, o espectador é convidado a conhecer o Convento das Maltesas, então já entregue à Misericórdia, a espreitar, ainda que do exterior, a casa de Máximo José Rocha, um dos sócios da Fábrica de Moagem e Eletricidade, e a conhecer a ativi- dade económica da cidade.

Inaugurada a feira, milhares de pessoas percorrem os stands das atividades económicas. Além de gado, de automóveis, tratores e maquinaria agrícola, também se comercializam adubos, soros e vacinas contra a peste suína africana, Armando Acácio Barrento vendia gasolina, petróleo e “sipoleine, o óleo que lubrifica”, e também se veem tapetes de Portalegre, pianos e bilhares destinados à burguesia local. O futebol dava os primeiros passos. E, nesse ano, acabaria por ser o Sporting a conquistar a Taça de Estremoz, depois de uma vitória por 4/1 frente ao também lisboeta Carcavelinhos. Outros tempos.

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