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Produção de cereais em Portugal atinge mínimos históricos

Ana Luísa Delgado texto

As contas são do Instituto Nacional de Estatística (INE): nos últimos 10 anos, a área de produção de cereais em Portugal diminuiu 90 mil hectares, 64 mil dos quais no Alentejo. Com o aumento das áreas regadas, a cultura do trigo foi substituída por outras mais rentáveis, como o olival e o amendoal.

Os últimos dados do INE contabilizam 93 mil hectares de cereais no Alentejo, menos 64 mil do que há 10 anos antes. Dizem os especialistas que os sistemas cerealíferos de outono-inverno em Portugal se caracterizam “por uma baixa e irregular produtividade”, daí resultando que sejam utilizados, na sua quase totalidade, para a produção de rações e para autoconsumo nas explorações agrícolas.

“Na área do projeto Alqueva, nas áreas outrora de sequeiro onde eram cultivados cereais, encontram-se atualmente com uma grande parte ocupada por culturas permanentes, fator que contribui muito para a redução das áreas de cereal na região Alentejo e por consequência em Portugal”, resume o mais recente Anuário Estatístico da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), consultado pelo Brados do Alentejo.

De acordo com a mesma fonte, face às constantes subidas de preços das rações, “os agricultores sentiram a necessidade, principalmente os produtores de carne e leite, de começarem eles próprios a produzir alimento para os animais, principalmente pastagens e forragens”. Assim, as áreas utilizadas normalmente para cereais “começaram a ser usadas para a produção de pastagens e forragens, facto que explica em parte a redução das áreas de cereal em Portugal”.

A medida mais emblemática da Estratégia Nacional para a Produção de Cereais passava pela reativação, no âmbito da Política Agrícola Comum, de uma ajuda ligada à produção de cereais. Inicialmente prevista para arrancar em 2022, a medida, já adotada em 10 países da União Europeia, foi negociada com as associações do setor e com a Comissão Europeia, mas acabou por ser adiada.

Trata-se de uma ajuda ligada à produção cuja adoção permitiria aos agricultores “voltarem a produzir cereais”, garante José Palha, presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC), com sede em Évora, acrescentando ser também necessário criar uma reserva estratégica a nível nacional. “As reservas que temos de cereais em Portugal são todas de iniciativa privada, são as próprias indústrias que têm as suas reservas. De um bem tão importante para a alimentação tem de haver uma reserva estratégica, como há para os combustíveis ou para o gás. Nunca deixaremos de ser dependentes das importações, podemos é ser menos dependentes”, refere o dirigente da ANPOC, lembrando que até existe capacidade de armazenamento.

Presidente do Clube Português dos Cereais de Qualidade e produtor nos concelhos de Monforte, Elvas e Fronteira, Fernando Carpinteiro Albino concorda com essa visão: “Temos de implementar de uma vez por todas, a partir do próximo ano, uma política que siga a Estratégia aprovada em Conselho de Ministros e que possibilita que os agricultores voltem a produzir cereais, absolutamente indispensáveis para a soberania alimentar que cada país deve ter”. Sem esse tipo de ajuda à produção, capaz de “permitir aos agricultores fazerem cereais com a garantia de um mínimo de rendimento”, será praticamente impossível aumentar a produção. 

Segundo Fernando Carpinteiro Albino, outra possibilidade é expandir “a capacidade de reservar água”, através da criação de novos perímetros de rega. “Para fazermos um hectare de regadio de cereais e termos boas produções não precisamos de gastar nem sete nem oito mil metros cúbicos de água, o necessário para as culturas permanentes. Entre 600 a 1000 metros cúbicos são suficientes para duplicar a produção obtida em sequeiro e deixar os agricultores muito mais à-vontade para produzir cereais”, sublinha.

Em declarações ao Expresso, a ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, reconhece que o cumprimento das metas definidas na Estratégia Nacional para a Produção de Cereais só será atingida no prazo de 10 anos, e mesmo assim assegurando apenas um autoaprovisionamento na ordem dos 40 por cento. “Nunca seremos capazes de produzir cereais para sermos autossuficientes. Não temos condições de solos nem clima para ser competitivos e criar valor”, acrescenta a ministra, defendendo uma aposta estratégica de abastecimento alimentar partilhada com os restantes países da União Europeia: “Temos de aproveitar o que os Estados-membros têm de melhor, tendo em conta as condições climáticas e de solo”.

“As medidas de incentivo à produção dos cereais nacionais são todas amigas do ambiente, da redução da pegada de carbono, da promoção do interior do país, do combate à desertificação, à fixação das populações e à distribuição dos rendimentos por quem cá vive. Queremos que no Alentejo, e no interior do Alentejo, haja gente. E para haver gente tem de haver condições”, contrapõe Carpinteiro Albino. 

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