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Pelos livros de João Richau passa a literatura de Sousel

Luís Godinho, texto | Gonçalo Figueiredo, fotografia

São 155 autores, de 1466 à atualidade. Cinco séculos de literatura feita por gente de Sousel que João Richau, um biólogo “lançado às feras da História”, reuniu em quase um milhar de páginas.

Aqui se falará de um manual usado durante mais de 60 anos para o ensino da música. Antes, por aqui passará António de Mendonça Furtado, político e poeta. Mas, antes ainda, comecemos por João Richau, a pessoa que os juntou em livro e que se tornou historiador por mero acaso ou, se quisermos, por força das circunstâncias.

Nascido na vila de Cano, João Richau é biólogo. Mas a paixão pela história do concelho onde nasceu, Sousel, levou-o a publicar alguns textos na imprensa regional sobre factos e figuras do passado. Em 2014, desafiado pela Junta de Freguesia, escreveu um primeiro livro, “Contributos para uma Monografia sobre a Vila do Cano”, lançado no primeiro dia de novembro numa sessão a que acorreram mais de 100 pessoas. “Foi assim que fui lançado às feras da História, foi assim que me tornei historiador do concelho de Sousel”.

A esse primeiro livro seguiram-se outros, incluindo “Sousel: Memórias do Concelho – das suas gentes, vilas, aldeias e campos”, uma obra em três volumes que documenta a evolução histórica do município. Ao longo do trabalho de pesquisa, conta João Richau, foi encontrando literatura – escritos antigos, outros nem tanto – feita por gente da terra, ou versando sobre o concelho. Daí a ideia juntar todo este material em livro. Ou melhor, em dois livros, pois ao todo são quase mil páginas.

Em 2020 pediu ao escritor Afonso Cruz, a viver por Casa Branca, que escrevesse o prefácio. E Afonso Cruz escreveu: “A luta contra o esquecimento é uma das mais belas e nobres, especialmente porque mais tarde ou mais cedo, sabemos quem inexoravelmente vencerá, e eu não conheço coragem maior do que não hesitar combater sabendo ter a derrota como resultado”.

Estava o prefácio arrumado, mas João Richau lá acabou por encontrar mais um texto, e um outro, ainda outro, de forma que só agora, passados três anos, é que os dois tomos de “155 Autores de conteúdos escritos associados ao concelho de Sousel – Cinco séculos de escritas” viram a luz do dia.

O prefácio mantém-se atual. “Sei que a toda a hora desaparecem coisas, objectos, entidades, seres vivos, ideias, porque passam a ser olvido, numa marcha paulatina e inelutável em direção ao esquecimento. Relembrar é uma espécie de ressurreição cujo milagre devemos aos lembradores, como João Richau”, escreveu Afonso Cruz, destacando aqui serem publicadas “biografias e obras de vários autores da região, de várias áreas da escrita”, uns contemporâneos, outros nem tanto.

O mais antigo de todos é o já aqui referido António de Mendonça Furtado, nascido em 1466, alcaide-mor de Cano, Veiros, Serpa e Moura que, entre tanta atividade política e administrativa, ainda tinha tempo para se dedicar à poesia, vendo alguns dos seus textos serem publicados em 1516 por Garcia de Resende.

Por essa altura já era nascido Manoel Machado de Azevedo, poeta, músico, tocador de alaúde e “amante da sensualidade” (é Carolina Michaëlis de Vasconcelos que assim o descreverá, uns séculos depois), comendador da vila de Sousel, que se entretinha a trocar correspondência, em verso, com Francisco Sá de Miranda, o homem que trouxe para Portugal o soneto e deu início ao “classicismo português”. Sem Sá de Miranda, muito provavelmente, não teria havido Camões. “Não queirais emendar tudo,/ No mundo e seu desconcerto;/ de cujos erros é certo/ ouvir, calar ou ser mudo”, aconselha Manoel Machado de Azevedo, numa das cartas que lhe dirige.

Sendo estes os dois autores mais antigos publicados nesta obra, João Richau diz que o mais surpreendente de todos acaba por ser um homem de seu nome Frederico Villaret, médico e músico, nascido nos Arcos (Estremoz), mas que se radicou desde muito novo com a família em Sousel. “Ele depois foi estudar para Lisboa, onde casou, e foi um médico muito prestigiado, autor de tratados de medicina. Foi o pai do ator João Villaret”.

E se Frederico Villaret conciliava a medicina com a música, António Fernandes, presbítero e mestre de capela na Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, em Lisboa, fez da música o elemento central da sua vida. Nascido em Sousel em 1595, e ainda vivo em 1680, ano em que termina mais um livro, terá escrito, pelo menos cinco obras. Quatro, manuscritas, perderam-se, aquando do terramoto de 1755. Até nós chegou “Arte de Música de Canto Dorgam, Canto Cham & Proporçoens de Musica divididas harmonicamente”.

“Foi o teórico mais proeminente da Escola de Duarte Lobo, estudou música em Vila Viçosa e em Évora e este seu livro foi usado, durante pelo menos 60 anos, para o ensino da música em Portugal”, explica João Richau.

OBRA EXAUSTIVA

Com este trabalho, o autor diz ter pretendido “preservar as memórias históricas dos escritos souselenses e divulgar o trabalho dos seus autores”, numa obra “exaustiva, mas que não será completa. Aliás, nunca nenhuma obra o será”. Os textos e autores mais antigos encontram-se reunidos no primeiro volume. O segundo incide sobre textos e autores contemporâneos, incluindo poetas populares, que representam cer- ca de 30% da totalidade dos autores.

Aqui se incluem poetas como Jaime da Manta Branca, cuja fotografia foi escolhida para ilustrar a capa do livro, e que apesar de analfabeto “é um dos maiores escritores deste livro”. Conta João Richau que Manta Branca “escrevia na memória (…), um génio da forma e no conteúdo forte dos seus poemas”.

MAIS HOMENS QUE MULHERES

São 42 as autoras representadas neste livro, 27% do total. “Tal”, diz João Richau, “não representa, obviamente, qualquer ponta de misogenia da minha parte, mas tão-só a triste realidade que foi o afastamento das mulheres de determinadas tarefas sociais durante séculos, se não durante milénios”. Ainda assim, prossegue, “satisfaz-me o facto de nos últimos 60 anos se ter verificado um reequilíbrio entre autoras e autores, representando as mulheres mais de 66,7% (26 em 39) do total dos autores nascidos nesse período”.

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