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Património Mundial. A “nova vida” dos Bonecos de Estremoz

Maria Antónia Zacarias texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

Passam cinco anos da classificação da Produção de Figurado em Barro de Estremoz como Património Imaterial da Humanidade. O que mudou em cinco anos? O número de barristas aumentou, as peças subiram de preço, mas ainda há fraquezas e ameaças, como a falta de aprendizes e o risco de “turistificação” da produção.

Santo António e Nossa Senhora da Conceição encontraram-se na Primavera, olhando para os pastores que guardavam, nos verdes campos, as ovelhas. Um deles chorava com saudades da sua amada e as lágrimas enevoavam-lhe os olhos. Afinal, o amor é cego, não é? Este poderia ser o início de uma estória contada de geração em geração, como é a história secular dos Bonecos de Estremoz. 

São 90 as figuras indicadas como tradicionais, entre as quais se destacam as desta pequena estória, que têm sobrevivido pelas mãos de todos os barristas que conseguiram preservar este que é um património que tem “o selo” da Unesco há cinco anos. 

O que aconteceu desde então? Surgiram mais barristas, o seu saber fazer foi valorizado, os bonecos ganharam “vida”, viajam além-fronteiras e contribuem para a economia circular do concelho e da região. Os bonecos não são de Estremoz, são de muitas vidas, são do mundo.

No próximo dia 7 de dezembro assinalam-se cinco anos da inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO. Será que os objetivos do registo estão a ser concretizados? 

Hugo Guerreiro, chefe da Divisão de Desenvolvimento Sociocultural, Educativo e Desportivo da Câmara Municipal de Estremoz e coordenador técnico da candidatura acredita que sim. A valorização dos barristas e a produção, a salvaguarda do modo de produção, o surgimento de mais barristas e o desenvolvimento económico desta área geográfica são exemplos do caminho que este património faz todos os dias.

Este responsável destaca também o trabalho da associação Adere-Certifica que concluiu o processo de certificação da produção, no intuito de proteger a arte de desconformidades e da sua industrialização. O Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património e a Câmara promoveram um curso de formação denominado “Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz” e, em 2020, foi aberto o Centro Interpretativo, bem como o Laboratório de Investigação, Conservação e Restauro de Cerâmicas.

Tudo isto com vista a realizar o Plano de Salvaguarda que é agora escrutinado pela UNESCO e no qual se explica uma série de ações já implementadas e outras que estão ainda em desenvolvimento, nomeadamente a filmagem integral da produção de alguns dos 90 bonecos que são considerados tradicionais. “Daqui a 100 anos esta filmagem valerá muito. Ver como se produziam os bonecos será ouro”.

Hugo Guerreiro anuncia que também a Rota do Boneco de Estremoz está para breve, devendo ficar concluída no primeiro trimestre do próximo ano. “A ideia é passar por todas as oficinas, Centro Interpretativo, museu, criando uma rota cultural”. Mas a criação de um pequeno centro de documentação, durante o próximo ano, na Biblioteca Municipal, é outro dos projetos em curso para reunir toda a informação em formato digital e física, facilitando a consulta para fomentar a investigação sobre esta arte. 

NÚMERO DE BARRISTAS QUASE DUPLICOU

Contudo, a “grande vitória” do selo Unesco é “a evolução dos praticantes, dos barristas certificados” que cresceram de oito, em 2017, para 13 em 2022. “Quase que duplicámos o número de barristas e isto é a vitória mais expressiva deste plano de salvaguarda, sobretudo quando se trata de um património que estava a definhar e que hoje está ativo e com uma dinâmica própria muito grande”.

Um processo de salvaguarda que valoriza o produto. “Temos o exemplo de um presépio que aumentou 160 por cento o seu valor. Em 2017 valia 25 euros e hoje custa 650 euros. Esta realidade leva a que surjam mais barristas porque as pessoas conseguem viver da arte. Se os barristas não viverem da arte, o boneco de Estremoz acaba”, justifica Hugo Guerreiro. 

E reitera: “Somos os únicos certificados a sul do Tejo, o que demonstra bem a longa caminhada que o Alentejo tem de fazer. Não esqueçamos que a certificação dá garantia da genuinidade a quem compra. A etiqueta atribui valor ao produto”.

Daí que os Bonecos de Estremoz tenham um reconhecimento local, nacional e internacional como pode ser constatado pelo elevado número de teses de doutoramentos que têm sido feitas sobre esta forma de artesanato. “Têm vindo pessoas de Itália e do Brasil, estudar o nosso processo de produção”, atesta.

Um mundo cheio de oportunidades, onde o mediatismo é também importante para o produto e para o barrista que “demonstra muita abertura” para “vestir o selo da certificação” e a necessidade de manter o processo da produção. “Alguns barristas compreenderam o desafio e foram mais longe ao refrescarem o figurado com novas figuras de gosto, técnica e sentido estético reconhecíveis como de Estremoz. É o símbolo da continuidade porque é uma arte viva”. 

FRAQUEZAS E AMEAÇAS

Não obstante, Hugo Guerreiro refere que é preciso estar-se consciente de possíveis fraquezas e ameaças em todo este processo de salvaguarda. Uma delas é a dificuldade dos barristas em aceitar aprendizes porque entendem que perdem tempo a ensinar. “O Estado devia criar uma legislação para eles receberem aprendizes, mas serem pagos para isso”. A outra questão é a falta de bonecos à venda, “o que demonstra que há mais espaço para mais barristas e que há necessidade de os artesãos aceitarem mais aprendizes”. Associado a isso verifica-se uma fraca representação em feiras e exposições, “pois sem bonecos para vender, não fará sentido ir a exposições?”. 

E como se lida com a tendência atual de inovação e criatividade (cerâmica de autor) que “tende a impor uma nova estética e a procurar soluções técnicas pouco consentâneas com a produção tradicional?”, interroga. A inovação é entendida como uma lufada de ar fresco, desde que os processos de produção sejam preservados. Ir ao encontro da preferência do consumidor, levando a exageros de consumos de determinadas peças é outra ameaça aos Bonecos de Estremoz. “É a chamada turistificação da produção. Embora ainda não esteja em curso, aflige-nos a todos. É fazer a produção que os turistas querem e em massa. Um exemplo disso é o pastorinho alentejano que todos querem levar para casa. Há muitas mais peças…”.

VAI NASCER A CONFRARIA DOS BONECOS

Passados cinco anos de classificação, como serão os próximos cinco? Hugo Guerreiro acredita que sejam de evolução. “Espero que haja mais barristas, mais certificados, uma estabilização da procura e verificar que a sociedade civil seja mais empenhada”. E anuncia: “Daí ter surgido a Confraria do Boneco de Estremoz que vai ser apresentada hoje, dia 7, na cerimónia de aniversário do reconhecimento como Património Mundial, no salão nobre do município, pelas 18h00. É importante que não seja apenas o município a contribuir para a valorização do boneco e dos barristas. Eu entendo que a Confraria pode assumir esse papel e ajudar a divulgar ainda mais este património”. O grão-mestre vai ser o colecionador Alexandre Correia, conhecido pelas suas figuras de Santo António. 

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