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Património: Os novos desafios do cante alentejano

Em 2024 assinalam-se os 10 anos da classificação do cante alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Há agora novos desafios para enfrentar.

Luís Godinho (texto)

Afinal, o que é o cante alentejano? A pergunta não é retórica, tem vindo a ser feita nos últimos anos por diversos grupos corais. “É normal que isso aconteça, ou seja, que as pessoas se questionem sobre o que é o cante”, diz o diretor do Museu do Cante, João Matias. E a verdade é que não existe apenas um motivo para se colocar a questão. Estaremos, por exemplo, a falar de cante alentejano quando os grupos corais surgem em palco com instrumentos musicais, como a viola campaniça? Já houve projetos em que o cante surgiu acompanhado de música clássica, jazz ou até de música eletrónica. E, sim, surgiram grupos formados por apenas três ou quatro elementos a cantar, “à alentejana”, modas do cancioneiro tradicional. Tudo isso é cante?

“Os limites começam a ser rompidos. O cante tradicional, como estávamos habituados a ouvir, começa a expandir-se e há quem questione se tudo isso ainda é cante”, resume João Matias, segundo o qual a resposta será dada pelas próprias comunidades: “Quando surgem conversas sobre onde começa ou acaba o cante, digo que as comunidades é que sabem até onde se reveem. Isto está tudo muito em aberto. No final, serão as próprias comunidades a definir o que continuam, ou não, a reconhecer e a classificar como cante alentejano”.

Acresce outra transformação importante: há muito que o cante deixou de ser transmitido de pais para filhos, em contexto de trabalho rural. “Os portugueses”, lembra, “já não trabalham na agricultura, quem trabalha na agricultura são, maioritariamente, imigrantes. Logo, o cante já não se transmite da forma tradicional, nem sequer nas tabernas. Houve um rompimento de gerações. A transmissão é feita nas escolas, é aprendido em contexto escolar e depois essa aprendizagem é continuada no interior dos grupos”.

Ainda de acordo com João Matias, “já não são os pais ou os tios que ensinam as crianças, mas o contexto continua a ser o mesmo, o cante continua a ser uma componente identitária muito forte da região, continua a compor-se e continuam a cantar-se novas modas, umas que falam de novos temas, outras que retomam os antigos”.

Entre 2014 e 2020 foram criados mais de 50 grupos corais, embora tenham desaparecido 28. Haverá cerca de 193, sobretudo no Alentejo, mas também na Área Metropolitana de Lisboa e na diáspora. “Houve uma grande renovação”, diz o diretor do Museu, sublinhando que as gerações mais novas, “que de certa forma estavam a desprezar o cante, considerando-o uma coisa de velhos”, acabaram por “reganhar” interesse por uma forma de arte que “encarna um forte sentido de identidade e de pertença”. Foi assim que começaram a surgir “pequenas formações”, compostas por três ou quatro elementos, e foi também assim que se consolidaram “grupos muito bem organizados, muito fortes, com uma forte componente de espetáculo”, associada à procura turística e mediática. 

“O mercado está a entrar claramente no cante alentejano e o cante está transformar-se num produto de mercado. Isto vem cavar um fosso que separa os grupos corais, não são todos iguais, têm formas de funcionamento diferentes, cantam de maneira diferente e têm até objetivos diferentes, alguns que apenas o convívio, outros que claramente se preparam e ensaiam para o espetáculo. Esta é uma das transformações a que estamos a assistir”, conclui.

GRUPOS ESTÃO A PERDER ELEMENTOS”

Se o grande palco do cante alentejano sempre foi a taberna, local onde os homens (ainda) se juntam no final do dia de trabalho para alguns momentos de convívio, entre um copo, um petisco e uma moda, ele também se fazia ouvir nos mercados e feiras, pontos de encontro entre as gentes da terra e os que vinham de fora trazendo consigo outras realidades e outras formas de cantar. 

Ensaiador de diversos grupos corais, e um dos nomes mais respeitados do cante alentejano, Pedro Mestre soma preocupações às preocupações levantadas por João Matias. Sobretudo em período de pós-covid-19: “Os grupos corais estão a perder elementos. Uns porque receiam regressar ao grupo, outros porque ficaram com sequelas da pandemia. Não nos podemos esquecer que a maior parte dos grupos corais é constituída por pessoas de uma faixa etária elevada”.

Segundo Pedro Mestre, a generalidade dos grupos retomou a atividade, “mas não podem dizer que estão a 100 por cento”. Isto porque “algumas vozes” deixaram de aparecer, e o trabalho de conjunto já não é o mesmo. “A maior dificuldade dos grupos corais é renovar os seus elementos. Quando não conseguem renovar são obrigados a parar”, refere Pedro Mestre, recordando que nos primeiros anos após a classificação da Unesco “toda a gente queria cantar, fazer parte de um grupo, mas depois acabaram por o não fazer. A situação estagnou”. Segundo refere, “nasceram alguns grupos diferentes daquilo que é o Cante” pois “nem tudo aquilo que diz que é cante o é de verdade. Nem tudo aquilo que se apresenta foi classificado como Património da Humanidade”.

A este respeito, o dossiê de candidatura é claro: “O repertório é constituído por melodias e poesia oral (modas) e é executado sem instrumentos musicais”. O que não sucede com alguns dos grupos que, entretanto, surgiram, compostos por “quintetos, quartetos, trios a cantar à alentejana, acompanhados de instrumentos”.

APRENDER NAS ESCOLAS

Pedro Mestre garante que o cante alentejano “nunca vai estar em risco” pois “enquanto houver pessoas que saibam cantar vai haver cante”. E ele continua a ser ensinado nas escolas do Baixo Alentejo, desde o primeiro ciclo. “Não é possível colher logo frutos quando se trabalha com os mais jovens. Mas é difícil quando nos deparamos com malta mais jovem que está a ter alguma dificuldade a integrar os grupos corais adultos”.

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