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Os Bonecos de Estremoz “são a minha vida”

Maria Antónia Zacarias texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

Hoje, José Carlos Rodrigues faz o que mais gosta: bonecos de Estremoz. Dedica-se à produção do figurado desde 2018 e nem a pandemia o travou. Abriu a sua oficina, que é também loja, onde passa a maioria do seu tempo. Não dá conta às encomendas. Quem quiser hoje um boneco de Estremoz, feito por este barrista, pode ter de esperar até maio. 

“Fui técnico de farmácia durante 30 anos, mas há muitos que pintava bonecos depois do trabalho. A minha mestra é a D. Fátima Estróia. Eu ia buscar os bonecos em barro cru e depois pintava em casa, à noite. Via como ela fazia, dávamos dois dedos de conversa, mas nunca me tinha dedicado a experimentar fazer”, conta. 

O marido da D. Fátima insistia, mas José Carlos Rodrigues não tinha tempo para fazer as duas coisas. “Tantas vezes me deitei às três e quatro da manhã, mas houve um dia que fui lá e não havia bonecos para pintar. Então ele novamente insistiu comigo e sentei-me ao pé da minha mestra que me deu uma pedra e me incentivou a começar. Tirei uns dias de férias e fui para lá em novembro de 2018, duas ou três semanas, para aprender. Desde aí nunca mais parei”.

O barrista lembra que foi com naturalidade que fez a sua primeira peça, como se estivesse habituado. “Ver um pedaço de barro e depois ver o resultado é gratificante”, recorda com os olhos a reluzir de alegria. O mesmo sentimento com que deixou o emprego de uma vida e se dedicou à sua paixão. “O amor aos bonecos de Estremoz é grande. Foi um passo difícil de dar, mas foi consciente. Através das redes sociais fui fazendo e vendendo, o tempo de espera das encomendas era já muito grande e percebi que estava no caminho certo. Não há nada como fazer-se aquilo que se gosta”. 

Na oficina cheira a barro. O barrista tem um avental com o seu nome. Assim é mais fácil chamar as pessoas pelo nome, estabelecendo-se maior afetividade também no processo criativo. Para de moldar uma imagem de Nossa Senhora da Conceição enquanto diz que as pessoas começaram a dar mais valor aos bonecos de Estremoz depois da certificação. “Hoje têm uma notoriedade que ganhou maior relevância”, frisa. 

Mas o que difere o boneco de Estremoz em termos de olaria? “O figurado em barro, a placa, a bola e o rolo é consensual em todos os bonecos. O que difere é que nós fazemos a roupa do boneco e pintamo-la com cores específicas”. 

O volume de trabalho é elevado. Há um ano que está a trabalhar por encomenda, não havendo stocks porque assim que coloca uma peça na prateleira “é imediatamente vendida”. Para o Natal, as encomendas são os presépios, bem como outras figuras como “O Amor é Cego”. Uma peça cuja modelação demora cerca de quatro horas, mais 12 de cozedura e depois outras oito a pintar. “Mas vale a pena! É o amor à arte e dá para viver”.

Conta que gosta de fazer todos os bonecos e que já criou duas peças, “a Ti Larina que está a fazer as farturas (era muito conhecida, em Estremoz, pelo brinhol) e a costureira que está a costurar numa máquina Singer que nos reporta para o passado”. Mas assevera: “São peças novas em que mantenho o processo de produção e a tradição do boneco de Estremoz”. 

Quanto a como será daqui a cinco anos, José Carlos Rodrigues diz que espera que se mantenha a tradição, que as pessoas se agarrem ao fio condutor do boneco de Estremoz, enquanto mostra com prazer a Primavera do Toucado, uma peça criada no século XVIII, justamente aquela que mais gosta de fazer.

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