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Opinião de Aníbal Costa: “Poupar água já não é suficiente”

Aníbal Costa texto

Em artigo de opinião, o vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDRA) diz “não ser razoável” que se vá “esticando, a projetada área do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva até à exaustão, como aliás tem vindo a acontecer (com a “precariedade” da utilização de muitas zonas de rega e aumento pouco razoável das culturas regadas) e se fale no Alqueva como resposta para o passado, presente e tudo o que aconteça no futuro”.

O Alentejo é uma das regiões mais afetadas pelas alterações climáticas na Europa devido ao efeito combinado dos aumentos de temperatura e diminuição da precipitação numa região que já se encontra numa franja climática próxima do limite da habitabilidade.

A nossa economia é fortemente dependente do setor primário – mais de seis mil milhões de euros anuais e mais de 54 mil empregos diretos na agricultura e turismo que serão fortemente prejudicados pelas alterações climáticas previstas.

Temos um baixo nível médio de desenvolvimento socioeconómico, o que prejudica a capacidade de adaptação das comunidades locais às alterações climáticas.

No entanto, reunimos as competências académicas e as motivações a nível local, regional e nacional necessárias para a adequada planificação e execução de políticas de adaptação às alterações climáticas.

Como alguém disse, há dias, já não podemos fazer conta com um horizonte temporal alargado, nem tão pouco que ocorra…daqui a vários anos.

Estamos a sentir na pele uma certa “banalização” das ondas de calor, que ocorriam de tantos em tantos anos e, neste momento, já se fala que poderemos ter que contar com 10 (sim 10) por verão…! Refira-se que a última onda de calor foi a mais longa já registada na região!

Apesar de só se falar (de forma generalizada) nestas coisas quando estamos em escassez ou em necessidade imediata, será de não adiarmos a solução…empurrando o problema com a barriga!

E se é um facto que a situação dos fogos é algo que levará algum tempo a resolver, com a necessária aposta no ordenamento das zonas florestais, sensibilização para maior cuidado e mesmo fiscalização, sabendo nós que tudo isso poderá não ser o suficiente, como aliás se vê com o que se passa noutros países com climas mediterrânicos e que, infelizmente, padecem do mesmo problema…e por vezes com também grandes danos ambientais e humanos!

Não é menos certo que no que diz respeito ao recurso “água” muito pode e tem que ser feito a curto prazo, sob pena de não termos água em muitas das nossas aldeias, vilas e cidades (recordo que várias localidades da região já são abastecidas através de transporte de água pelos respetivos bombeiros do concelho).

Não estamos já no plano do “diagnóstico” e do “estudo”. Muito, felizmente, já se fez nesse domínio, com as entidades públicas nacionais, regionais e locais a assumir o seu papel!

Há que legislar e intervir em matérias que, por mais polémicas e controversas que possam ser, são as necessárias para garantirmos um futuro próximo mais tranquilo para as nossas comunidades.

Vários exemplos podem ser referidos.

Se é um facto que a agricultura consome a maior parte dos recursos hídricos, também será justo referir que é aqui onde se verifica uma maior efuciência na sua utilização, com a tecnologia a dar cartas em setores muito exigentes, como é o caso das culturas de regadio (nunca me canso de referir que o perímetro de rega do Alqueva é um dos mais modernos e eficientes do mundo). Agora, não me parece razoável que se vá “esticando”, a projetada área do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva até à exaustão, como aliás tem vindo a acontecer (com a “precariedade” da utilização de muitas zonas de rega e aumento pouco razoável das culturas regadas) e se fale no Alqueva como resposta para o passado, presente e tudo o que aconteça no futuro, a nível agrícola, na região…simplesmente não é possível…ou então…equacione-se mais soluções de armazenamento!

Ao nível urbano, continuo, passados estes anos todos, a não ver a generalização da necessária reutilização das águas residuais para fins secundários, isto é para rega ou outras finalidades em que qualidade da água possa ser… secundarizada.

Nos últimos anos foi feito um grande esforço, por parte das autarquias locais, no sentido de diminuir as áreas urbanas regadas (veja-se a diminuição de relvas em espaços públicos, por exemplo) e utilização de espécies vegetais com menos consumo de água e mais resistentes ao calor.  Mas, por outro lado, assistiu-se, por exemplo, a uma proliferação (descontrolada) de piscinas domésticas e um uso completamente irracional de um recurso que é escasso!

As entidades públicas têm também que se entender no que à aposta na melhoria das envelhecidas redes de distribuição de águas, diz respeito. Não é aceitável que continuemos a perder 30, 40 ou mesmo 50% da água por via de um muito deficiente estado de instalações de distribuição de água (que na maior parte dos casos têm quase 50 anos e noutras localidades de maior dimensão 70 ou mais!). Deverá existir uma aposta (que terá que ser financiada por várias formas) neste domínio, o quanto antes.

Estas medidas deverão ser desenvolvidas, naturalmente, procurando sempre sensibilizar a opinião pública/população de cada território para a sua implementação, mas terão que avançar o quanto antes.

E, por último, deixem-me que vos diga que, aproveitando a acentuada redução do preço no tratamento, fruto de desenvolvimento tecnológico e de um recurso que está disponível, deverá existir um Plano Nacional para a Dessalinização da Água do Mar.

Um recurso quase infinito que Portugal possui e que poderá contribuir para resolver várias situações de escassez/stress hídrico e que é replicado um pouco por todo o sul da Europa.

Alguns dirão que é caro…eu digo que mais caro é.…não haver água!

Em conclusão, devemos agir já e não esperar que, fruto de um hipotético inverno ou primavera chuvosos a situação se possa resolver…

Já vimos que não será assim.…e se adiarmos a solução teremos mais problemas num futuro, já não tão distante…como pensávamos!

(artigo publicado originalmente pela Rádio Pax)

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