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O Alentejo visto por estrangeiros, da Idade Média ao século XIX

Luís Godinho texto

Como é que os “turistas” estrangeiros viam o Alentejo? De um historiador árabe do século IX a um espião espanhol do século XVIII, visitantes estrangeiros que por cá andaram deixaram escritas as suas memórias, incluindo uma inglesa desagradada com o azeite.

Porque o olhar dos outros é essencial para compreendermos o nosso passado, Joaquim M. Palma reuniu relatos de estrangeiros que viajaram por terras de entre o Tejo  e o Guadiana. O resultado é “Eles Passaram Além do Tejo”, livro editado pela Documenta, uma antologia de textos sobre a região que começa com al-Razi, um historiador muçulmano do século IX, e nos conduz ao barão de Henry Shore, que atravessa o Alentejo, de comboio, em finais do século XIX. O livro inclui o relato de 22 viajantes estrangeiros por uma região “mal servida de estradas” e com mapas “tão imprecisos e até omissos”, que não poucas vezes os conduziam por caminhos errados. 

A antologia inclui textos de autores tão diferentes como o de Hans Christian Andersen (autor dos populares contos infantis), do pregador protestante George Borrow, do romancista William Beckford ou de José Cornide y Saavedra, um espião espanhol que por aqui andou em 1798 a recolher informações sobre estradas e fortalezas. Três anos depois, Espanha invadia Portugal num conflito militar de seis meses que ficaria registado na história como a Guerra das Laranjas.

Comecemos, no entanto, pelo princípio. “Beja é uma das mais antigas cidades que há em Espanha porque foi construída no tempo de Hércules, o Corajoso, chegando depois Júlio César, que foi o primeiro a medir e a repartir as terras”. Nascido na cidade de Córdoba em 888, Ahmad ibn Muhammad al-Razi, conhecido pelos cristãos como Mouro Rasis, foi um importante historiador do Al-Andalus, sendo da sua autoria vários tratados sobre geografia e história. 

As suas obras não chegaram aos nossos dias. Nem tão pouco a crónica traduzida 500 anos depois pelo português Gil Peres, já no reinado de D. Dinis. Sucede que essa tradução foi transcrita para castelhano. E nesse texto lá estão as anotações de Ahmad ibn Muhammad al-Razi quando percorreu este território: “Os solos em Beja são muito bons para as sementeiras e para criar gado; abundam as colmeias porque há muitas e excelentes flores para as abelhas”. Regista o cronista a proximidade, relativa, de Mérida e a existência “no território” de uma cidade a que os antigos “chamavam Ebris” e que por essa altura já tinha o nome de Évora. Al-Razi anota ainda a existência, para os lados de Ourique, de “um veio de prata muito boa e muito clara”, que havia  sido ocultado “pelos locais”.
Com este excerto da “Crónica do Mouro Reis”, Joaquim M. Palma (autor das traduções, introdução e notas) inicia uma compilação de textos sobre como as terras e as gentes de entre o Tejo e o Guadiana foram vistas, e descritas, por viajantes estrangeiros até finais do século XIX. 

Em 1489, Henrique VII (vencedor da Guerra das Rosas e fundador da dinastia Tudor) enviou a Portugal uma embaixada com o objetivo de entregar ao rei D. João II a Ordem da Jarreteira, a mais antiga e importante comenda britânica desde meados do século XIV.  A embaixada, que integrava Roger Machado, entra em Portugal a 6 de abril, por Elvas, e ruma a Portel, e daí à Vidigueira e a Beja, onde se encontra D. João II. 

O manuscrito sobre esse percurso, originalmente escrito em francês, é outra das peças incluídas no livro. É um relato curioso. A 21 de abril, a embaixada janta na Vidigueira, sendo recebida pelo chanceler-mor de Portugal que foi ao seu encontro, “acompanhado de vários nobres e outras pessoas importantes, como cavaleiros, doutores, homens de leis e escudeiros, num total perto de cem indivíduos montados”. Os ingleses ficaram a saber que D. João II considerava o monarca inglês, aliás seu primo, como “um verdadeiro amigo e velho aliado”, dando-lhes as boas-vindas. Dali seguiram para Beja, onde foram beijar a mão do rei e assistir às vésperas [missa, por vezes cantada, celebrada durante a tarde] antes de se retirarem para os respetivos aposentos. 

“No dia 26 de abril, o rei ordenou que se organizassem touradas em honra dos embaixadores. O rei e a rainha, muito bem vestidos, estiveram presentes, bem como outras senhoras da nobreza; foi maravilhoso ver o rei e rainha cavalgarem juntos. Nesse mesmo dia, os embaixadores jantaram com o bispo de Évora, que é primo do rei”, escreve Roger Machado. 

Alguns dos que por cá passaram não gostaram do que viram. Sobrinha-neta de Napoleão, Maria Rattazzi era uma mulher letrada, o que não é de somenos para quem nasceu na primeira metade de século XIX, e a sua paixão pelas letras levou-a a organizar tertúlias literárias com a presença de escritores famosos como George Sand ou Vítor Hugo. Joaquim M. Palma assinala que nas suas duas passagens por Portugal, em 1876 e 1879, Rattazzi conviveu com “figuras ilustres da cultura e da política” e registou as suas memórias em “Le Portugal à vol d’oiseau” [“Portugal em linha reta”, numa tradução livre], nas quais deixou “denúncias muito diretas às classes dirigentes e ao estado de atraso do país”, o que lhe valeu duras críticas por parte de intelectuais como Camilo Castelo Branco, Antero de Quental ou Ramalho Ortigão. 

Não seria para menos. Encantada com o “moscatel delicioso” que bebeu em Setúbal, nota depois o “aspeto geral defeituoso, pouco asseado e triste” de Évora, “a ponto de parecer que a morte adeja sobre todas as casas”, e define a cidade de Beja como “uma cova medonha no meio de uma planície degrada pelo sol”. Acrescenta Maria Rattazzi: “Os bejenses ignoram o que seja um arvoredo frondoso; a maioria deles não viu nunca uma árvore. Durante a semana as ruas estão desertas, toda a gente dorme”. Pouco apreciadora dos dias de calor, já antes havia sublinhado “alguma analogia” entre o Alentejo e o deserto do Sahara, registado o despovoamento do território – “passam-se seis horas na estrada sem se encontrar casas nem vivalma” -, considerado que a agricultura aqui praticada se encontrava “nos rudimentos das primeiras idades” com os “cultivadores” a servirem-se da “charrua primitiva que mal aprofunda os solos” e criticado a olivicultura praticada à época: “A cultura da oliveira está muito espalhada em Portugal; mas a fabricação de azeite é imperfeitíssima. Podia ser de primeira qualidade; é quase sempre vulgar e às vezes nauseabunda”.

Curioso é também o relato de Heinrich Friedrich Link, médico e botânico alemão que em fevereiro de 1799 chegava à Herdade de Palma, propriedade do conde de Óbidos. Segundo Link, o conde esforçava-se por ter “uma reputação de tratar bem os seus serviçais” e por isso, todos os dias, durante a tarde, “mandava vir alguns dos seus trabalhadores”, oferecendo-lhes uma chávena de chá, “para lá da porta”. E é este detalhe que o botânico alemão, muito justamente, faz questão de sublinhar: “Que abismo enorme se estende entre aquele que fica atrás da porta e aquele que está sentado à mesa! E a chávena de chá talvez tenha a intenção de substituir a galinha na panela”.

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