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Mais de mil acidentes com vítimas nas estradas do Alentejo

Margarida Maneta texto

Em 2021 ocorreram, nas estradas dos distritos de Évora, Portalegre e Beja 1065 acidentes com vítimas, mais 124 do que no ano anterior. O número de mortes é ligeiramente inferior: 34 (menos três). Mas o de feridos aumentou de 1279 (em 2020) para 1377 o ano passado. Só no distrito de Évora, o número de feridos ligeiros em acidentes de viação registou uma subida de 12,7%.

Com base nestes números, o relatório da sinistralidade rodoviária relativo a 2021, agora divulgado, coloca Évora e Portalegre entre os distritos com mais vítimas mortais e mais feridos graves por cada cem mil habitantes. “Os dados da sinistralidade no Alentejo, nestes dois anos com influência da crise pandémica são extremamente preocupantes, na medida em que continuam a mostrar uma situação grave na região, com um índice de gravidade elevado”, explica Filomena Araújo, presidente da Associação Para a Promoção de uma Cultura de Segurança Rodoviária (GARE). 

Em causa, acrescenta, estão “os fatores de risco habituais relacionados com os comportamentos de risco dos condutores e dos peões, mas também com as condições dos arruamentos, estradas municipais e itinerários complementares”. A estes, junta-se “um défice de estratégia visando a diminuição da sinistralidade”. 

A nível nacional, aponta o mesmo relatório, sexta-feira, sábado e domingo são os dias da semana que concentram maior número de acidentes com, respetivamente, mais feridos leves, graves e vítimas mortais. Segundo a presidente da GARE, estes valores estão intimamente relacionados com a “perceção deturpada do risco e do crime rodoviário na nossa sociedade”, bem como a “forma triste de utilização dos fins de semana para descanso e relaxamento recorrendo à velocidade e consumo de álcool”.

Em resposta a estes comportamentos de risco, Filomena Araújo aponta que, além das “ações de fiscalização, importaria, promover ações efetivas de mudança de atitude face aos crimes rodoviários, nomeadamente ao álcool e condução”.

Também Paulo de Jesus, coordenador do Centro de Respostas Integradas (CRI) do Alentejo Central, perspetiva os dados como “consequência da cultura que temos no nosso território e que promove os consumos abusivos de álcool”. Considerando a natureza morfológica do território, esta permite condições relativamente “seguras” para conduzir, assegura Paulo de Jesus. “O facto de termos uma população deprimida do ponto de vista demográfico, faria com que, havendo menos viaturas, houvesse menos sinistralidade. Mas, de facto, é o contrário. É claramente um sinal de que todo o esforço que podemos colocar na mitigação dos problemas ligados ao consumo abusivo de álcool é muito pouco”. 

Os níveis de sinistralidade rodoviária na região são, por isso, “um claro sinal de que há um trabalho imenso por fazer nesta área”, avança o coordenador do CRI, relembrando que parte dos acidentes envolve mesmo “situações de policonsumo”. Posto isto, importa, “quando falamos com jovens de 18, e muitos deles já encartados, focar a responsabilidade”, especialmente por se tratar da região do país em que os jovens consomem álcool cada vez mais cedo, hábito que mantêm até tarde. 

Entre os veículos envolvidos nos acidentes, os ciclomotores e motociclos representam cerca de, aproximadamente, 18% do total. “A nível dos motociclos temos visto um aumento da sua utilização”. Há uma forte relação destes com a sinistralidade, explica Alain Areal, diretor-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP). “Nos países em que esta utilização é maior, existe mais sinistralidade”. 

Este crescimento de uso dos motociclos, contudo, “não têm sido” acompanhado de medidas mitigadoras. “Por exemplo, o ensino da condução devia ser completamente reformulado para este tipo de veículos porque, apesar de apresentarem maior risco na sinistralidade grave, a formação continua a ser a mesma de há 20 anos”. 

Não se verifica, aponta o diretor-geral da PRP, “um aumento de competências, não só do domínio do veículo, mas também comportamentais”. Nos últimos dois anos, dadas as restrições de circulação entre distritos e concelhos, o número de acidentes aumentou dentro das localidades a nível nacional. O que desperta a importância de “criar zonas de coexistência e medidas de acalmia de tráfego”, defende.

Ainda de acordo com Alain Areal, “a gravidade dos acidentes aumenta quando não há congestionamentos e há menos trânsito porque as velocidades médias praticadas são mais elevadas. Aumentando a velocidade média, a gravidade dos acidentes também aumenta”. E, além disto, Portugal regista um número de acidentes dentro das localidades “acima da média europeia”.

Apesar destes dados se circunscreverem apenas aos últimos dois anos, Portugal já apresentava, segundo o diretor-geral da PRP, uma tendência crescente de sinistralidade. No distrito de Évora, desde 2015, que se tem vindo a verificar uma tendência de aumento de acidentes, com feridos leves, graves ou mesmo vítimas mortais. Em Portalegre, a tendência de sinistralidade antes da pandemia tem sido mais irregular, mas também crescente.

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