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Luís Godinho: “O ‘greenwashing’ de Duarte Cordeiro”

Luís Godinho, jornalista | Opinião

Não me encontro entre os que partilham a opinião de que a maioria absoluta fez mal ao Governo, desde logo porque muitos dos sinais que agora se atribuem à decorrência desse resultado eleitoral já eram bem visíveis no exercício anterior de funções governativas. A começar pela desfaçatez com que se tomam decisões, e não têm sido poucas, lesivas dos interesses do Alentejo.

Para que não restem dúvidas: é absolutamente inaceitável que o Ministério do Ambiente tenha autorizado o abate de centenas de sobreiros no Parque Natural do Sudoeste Alentejo, para serem substituídos por torres eólicas. Ponto. Uma área protegida é isso mesmo, uma área protegida. Que deve ser salvaguardada, não retalhada aos interesses dos poderosos, neste caso da EDP Renováveis. 

Não há outra decisão possível que não seja revogar o despacho e defender o Parque Natural. Mais. Como é possível que para “compensar” este abate de árvores nos concelhos de Sines e de Santiago do Cacém, o Ministério do Ambiente tenha aceitado que a empresa plante 30 mil sobreiros… em Tavira? 

E como é possível que tudo isto se passe perante o mais ensurdecedor silêncio de algumas das entidades que deveriam zelar pela proteção do Parque Natural do Sudoeste Alentejo, a começar pelas autarquias, mas também pela CCDR Alentejo?

A FAPAS tem toda a razão ao acusar Duarte Cordeiro de “greenwashing”, ou seja, de branquear os impactos negativos do abate de centenas de sobreiros em plena área protegida recorrendo a uma argumentação pretensamente “verde”, ainda que falsa. 

Falsa porque não é verdade que o cumprimento das metas do Protocolo de Quioto relativas à redução das emissões de carbono, com as quais o país de comprometeu, dependa da instalação deste parque eólico neste local concreto. Dito de outra forma, o que mais haverá ao longo de todo o país são territórios onde se possa instalar este e outros parques eólicos, sem necessidade de abater sobreiros, e muito menos de o fazer no interior de uma área protegida.

Argumentação falsa porque não será a plantação de sobreiros em Tavira que irá “compensar” o seu abate em Sines e em Santiago do Cacém, mesmo partindo do princípio que estes serão de facto plantados, que irão crescer e que daqui a décadas continuarão vivos.

Argumentação falsa porque em nome da redução das emissões de carbono, neste caso através do recurso à energia eólica, se permite o abate de sobreiros, “um aliado de peso” no combate às alterações climáticas, como o comprovam diversos estudos científicos. 

Voltando ao início deste artigo: não foi a maioria absoluta que fez mal ao Governo, os sinais eram preexistentes a esse resultado eleitoral. A começar pela tal desfaçatez com que se prejudica o Alentejo. E, já agora, pela absoluta incapacidade em voltar atrás, reconhecer o erro e emendar as decisões. É o que, com toda a certeza, se voltará a repetir.

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