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“Loendro”, um disco “em espelho” para revisitar tradições

Ana Luísa Delgado texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

O nome do disco é “Loendro”. A ideia é revisitar as tradições musicais e poéticas do concelho de Alandroal. 

Diz o músico Tozé Bexiga que “Loendro” é um disco “espelho” composto por 10 faixas. E “espelho” será, talvez, a definição mais adequada se quisermos resumir numa palavra o trabalho que acaba de ser editado e que poderá ser obtido, de forma gratuita, na Câmara de Alandroal. Espelho porque a cinco faixas que resultam da recolha de música e poesia populares do concelho se somam outras cinco, resultado do trabalho de “reinterpretação” desses mesmos temas, feita pelo próprio Tozé Bexiga (viola campaniça), Nina Repas Gonçalves (viola da gamba) e Antony Fernandes (gaita e adufe). 

O projeto surgiu de uma proposta da Câmara de Alandroal, no âmbito de uma candidatura a fundos comunitários para promover as “raízes da oralidade”. Segundo Tozé Bexiga, o desafio lançado aos músicos e a Carla Magro Dias (produtora) foi “debruçarmo-nos sobre a identidade daquele território, relacionada com a música e com a poesia populares”. Numa espécie de “experiência imersiva”, a equipa artística “mergulhou” nas tradições populares do Alandroal, efetuou recolhas em áudio e vídeo e recriou temas do cancioneiro tradicional. O que, no caso de Tozé Bexiga, acabou por se revelar mais intenso, já que boa parte da sua infância e juventude foi passada em Ferreira de Capelins, uma das aldeias do concelho.

Num primeiro momento foram identificados cinco “elementos” que à equipa artística parecerem “definidores” da identidade local: as saias, uma contradança [uma dança figurada de quatro ou mais pares que se defrontam uns com os outros], as décimas, enquanto referência da poesia popular, o Cântico das Oliveiras, sempre entoado nas Festas da Santa Cruz da Aldeia da Venda, e a música dos Bonecos de Santo Aleixo, com uma ligação muito forte àquele território raiano.

“Com estes cinco elementos, fomos recolhendo e ouvindo, junto dos poetas populares e nos registos que têm sido feitos… e fomos ouvir os músicos de hoje, os grupos populares. Depois escolhemos cinco músicas para fazermos arranjos sobre elas para os instrumentos que tocamos”, revela Tozé Bexiga, explicando que os temas de compuseram para este trabalho correspondem a “arranjos de música e poesia que já existiam e estão bem enraizados naquela região raiana”. Tratou-se de “criar música nova com inspiração na musicografia e poética existente”. Daí considerar que se trata de um disco “espelho”.

Para esse processo criativo foram “convocados” os instrumentos habitualmente tocados por estes três músicos. À viola campaniça, que Tozé Bexiga toca em contexto “não tradicional”, associado à contemporaneidade, juntou-se a viola da gamba, “mais ligada à música erudita, à música dos salões”, os adufes, também com “muita expressão” no Alentejo Central e a gaita que, embora por vezes mais diretamente associada à Escócia, existia “há mais tempo” espalhada por outras latitudes, incluindo todo o território português.

“Quisemos dar a esses temas outras sonoridades, não fazer sempre da mesma maneira, já que a música popular é muito plástica e permite imensas abordagens. Conseguimos ouvi-la com outras texturas sonoras”, resume.

TRADIÇÕES MILENARES

Pelas “raízes da oralidade”, designação do projeto de 70 mil euros cofinanciado por fundos comunitários, passa “todo um conjunto de tradições milenares do concelho de Alandroal”, acrescenta o presidente da Câmara Municipal, João Grilo. “São tradições com expressões diversas, algumas de base mais oral, como as quadras e a poesia popular, outras mais ligadas a expressões religiosas, de que são exemplo as festividades da Santa Cruz, na Aldeia da Venda, e até outras com uma expressão mais material, como é o caso do jogo do alquerque”. E já veremos que jogo é este.

Segundo o autarca, a ideia é “preservar e tentar dar novas dinâmicas a estas tradições, tentar envolver as novas gerações e incentivar novas interpretações que aproximem a população das heranças que herdámos”. Daí o convite aos músicos e o desafio para o disco. “É interessante ver como foram atrás deste imaginário e o recriaram através de sonoridades que refletem as nossas tradições mais populares. Esta é uma forma de não se perderem”.

João Grilo lamenta a “falta de renovação geracional” que afeta estas manifestações artísticas, o que, aliás, não é exclusivo do concelho de Alandroal, mas de todo o Alentejo, e explica que o projeto pretende atuar em duas frentes: “registar o que existe, o que ainda é possível recolher da memória dos mais velhos e dar-lhe novas roupagens, novas formas destas tradições serem percebidas pelos mais novos, assegurando-lhes a continuidade. Esta é a parte mais importante deste trabalho”.

Um projeto que, como se viu, passou pela música e pela poesia populares, mas que está a criar “raízes” noutras áreas, como levar a comunidade escolar a “redescobrir” os paladares do peixe do rio ou os jogos tradicionais como o alquerque, já tendo sido realizadas oficinas de criação em que as crianças aprenderam a fabricar os seus próprios jogos.

Antepassado do atual jogo de damas,  o alquerque era jogado no antigo Egito há mais de três mil anos, tendo sido introduzido na Europa no século VIII pelos muçulmanos. Está representado em lajes dispersas por toda a região, incluindo a Fonte das Bicas, em Alandroal, sendo que o seu nome deriva do al-quirkat, um antigo jogo cuja primeira menção histórica é feita numa antologia poética da literatura árabe, escrita por volta do ano 960 depois de Cristo.

“A MÚSICA POPULAR TODAS AS VEZES SE REINTERPRETA”

Além dos músicos, a equipa artística contou com a colaboração de Carla Magro Dias, que participou na recolha de tradições orais e no registo de todo o processo criativo, feito através da recolha de sons e de imagens, depositadas na Câmara de Alandroal. “Este disco serve para fazer aquilo que a música popular faz a ela própria, já que todas as vezes se reinterpreta, todas as vezes se esquece de si própria, todas as vezes se inova. Este é mais um contributo, um olhar para a tradição, com o interesse de a entender, de a conhecer e de participar nela”, refere.

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