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Livros por montes e vales, ou um “incontido desejo de dialogar”

Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo foto

Onde, a propósito do lançamento de “Homens Livro”, se fala de bibliotecas itinerantes e da importância da promoção do livro e da leitura. Se recorda a Biblioteca Itinerante n.º 33, primeiro em Estremoz, depois em Redondo. Se conversa com António Bento Ramires, Rui Guedes e Carlos Alberto Ferreira, homens de “livros às costas” por montes e vales. Onde paramos, de ouvido à escuta, para conhecer as histórias de José Manuel Palmeiro – um dos pioneiros deste projeto da Gulbenkian. Onde se evoca Armando Carmelo e uma moça de São Bento do Cortiço que, há 60 anos, aprendeu com os livros “a não sentir tanto acanhamento diante dum qualquer superior”.

Conta António Bento Ramires, sentado à sua secretária na Biblioteca de Redondo, que a ideia de escrever um livro sobre o ofício, hoje já pouco frequente, de levar a literatura por montes e vales surgiu em plena pandemia, há pouco mais de um ano, “ainda estávamos confinados”. 

A sessão fotográfica junto à carrinha cheia de livros e de memórias que é Biblioteca Itinerante de Redondo, estacionada ali à porta, tinha ocorrido minutos antes. Agora, através da internet, juntamo-nos a Rui Guedes e a Carlos Alberto Ferreira. 

O Rui, que já escreveu “Ri o Joaquim com cócegas assim” ou “Traço Contínuo”, este dedicado a um público menos infantil, faz o mesmo que o Bento, só que em Penafiel. E o Carlos anda há quatro décadas a promover a leitura e a “combater os medos” ao serviço da comunidade leitora de Miranda do Corvo.

Com percursos académicos distintos – Bento, o nosso anfitrião, estudou geografia e ciências documentais – partilham os três o mesmo gosto pelos livros e a mesma profissão: são bibliotecários itinerantes. Não sei se lhe chame profissão se missão. Fica assim. Obrigados a manter-se por casa, entre conversas à distância, juntou-se-lhes Patrícia Carreiro, jornalista, autora e uma das responsáveis da Letras Lavadas, uma editora ali para os lados de Ponta Delgada. 

Da vontade dos quatro nasceu “Homens Livro”, que sem a pretensão de ser um relato histórico ou fazer qualquer descrição cronológica, antes traduz um apelo à memória individual e coletiva do que foram as bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Sendo que memória, como adiante veremos, é o que por aqui não falta.

Palavra a António Bento Ramires: “Quando começámos a dar corpo ao livro já tínhamos recolhido  boa parte da documentação e achámos que era hora de trazer para a luz do dia tudo aquilo que poucos conhecem sobre as bibliotecas Gulbenkian, apesar de muita gente ter alguma ideia sobre o que esse projeto representou”. Foi na segunda metade do século XX que as carrinhas da Fundação começaram a percorrer o interior do país, entregando livros a quem deles nem sabia que precisava, “alterando significativamente o panorama cultural de um Portugal obscuro e ensimesmado” e oferendo conhecimento.

ORA DIGA 33

O livro reúne um conto, textos e fotografias sobre esse período, três entrevistas a antigos encarregados de biblioteca e um documento inédito da autoria de Armando Carmelo, o encarregado da Biblioteca Itinerante Gulbenkian n.º 33. É por aqui que nos iremos deter, antes de regressar à edição da Letras Lavadas. Fundador do Círculo Cultural de Estremoz, professor e artista, Armando Carmelo foi o responsável pela Biblioteca Itinerante n.º 33, cuja primeira localização, em 1962, foi em Estremoz, percorrendo as povoações do concelho e terras limítrofes. Por onde passava, distribuía pequenos inquéritos, “com o fim exclusivo” de recolher “sugestões para um trabalho que pensava realizar sobre a atividade da biblioteca”, além de servir como “porta de entrada” para as relações, “ainda titubeantes” por essa altura, com os jovens leitores. 

Com base nesses inquéritos escreve relatórios sobre o serviço, pois um trabalho deste tipo “obriga necessariamente a considerações e ajustamentos que nos beneficiam e servem para melhorar a tarefa em que estamos empenhados”.

Nesses relatos há testemunhos “deliciosos”. Como o de uma moça de São Bento do Cortiço que, nos idos de 1963, assegura ter conseguido com a biblioteca “um bom desenvolvimento, tanto na leitura como em não sentir tanto acanhamento diante dum qualquer superior”. Eis o livro como desinibidor social. Ou, como mais moderadamente escreve Armando Carmelo, eis uma frase “que anuncia um novo tipo de comportamento social”. E eis que nos surge José Manuel Palmeiro, um outro estremocenses, curiosamente também a viver nos Açores, cuja história, não estando no livro, vale a pena contar.

Dá-se o caso que José Manuel Palmeiro ter regressado a Estremoz em 1975, cumprido o serviço militar em Moçambique, e ter começado no ano seguinte a trabalhar na tal Biblioteca Itinerante n.º 33, primeiro substituindo Armando Carmelo, depois de forma profissional. Foram mais de 20 anos na Gulbenkian, “a servir uma causa que foi de grande importância para a divulgação cultural neste país e que, infelizmente, vimos acabar de forma abrupta”.

Pois por essa altura, meados da década de 70, ainda Abril era a tal “manhã inteira e limpa” de que fala Sophia, a biblioteca fixa de Estremoz funcionava num anexo ao antigo hospital, onde é hoje o Centro de Ciência Viva. “Foi aí que começou a funcionar, antes de passar para o edifício da câmara”. Já a itinerante, lembra José Manuel Palmeiro, tinha instalações mais sui generis, “num anexo que o matadouro de Estremoz nos dispensou”. Era ali que ficam os livros e o carro cujo motorista, aliás, o “ajudante de encarregado de biblioteca”, como na altura se dizia, era o senhor Sena, “o pai do malogrado José Sena [ex-presidente de Câmara], de boa memória”. 

Palavra a José Manuel Palmeiro: “Sempre tivemos uma zona vasta, de Estremoz íamos ao Caia, aí estacionávamos e tínhamos leitores. Fazíamos terras do distrito de Portalegre e do de Évora, íamos a todos os locais onde havia necessidade que o livro aparecesse, e fazíamos essa oferta”. A chega da biblioteca móvel, lembra, “era um dia de festa enorme para os miúdos, mas também para os adultos”. Distribuíam-se livros, construíam-se amizades. “A nossa função era aconselhar algum tipo de leitura, tentar ir melhorando essa capacidade e, depois, dar a conhecer outros autores, sobretudo a pessoas menos letradas, com fraca instrução”. 

DOS NOVOS AOS VELHOS

As escolas eram “clientes habituais”. Na Juromenha, por exemplo, chegava a deixar uma caixa com livros, que renovava no mês seguinte, depois de o professor os ter utilizado para promover a literatura junto de rapazes e raparigas em cuja casa, a mais das vezes, apenas entrava o livro escolar. “Era um apoio direto”. Por essa altura, “A Rosa do Adro”, de Manuel Maria Rodrigues, publicado pela primeira vez em 1870 e adaptado ao cinema em 1938,  era um título “muito popular” entre as raparigas e mulheres mais jovens. “Daí passávamos para o ‘Amor de Perdição’, do Camilo Castelo Branco, e esse já era todo um outro mundo, surgindo muitos outros livros que lhes aguçavam o interesse”.

Conta José Manuel Palmeiro que, numa primeira fase, a biblioteca itinerante era sobretudo procurada por crianças em idade escolar que, nas localidades mais pequenas, “se resumia à instrução primária”. Com a passagem dos anos e o aumento da escolarização, os mais novos foram “desaparecendo” das aldeias. Primeiro para frequentarem a preparatória e a secundária, nas sedes de concelho. Depois porque a necessidade trabalho os levou para outras paragens. “Passámos então a ser mais procurados por adultos”. E a envelhecer com eles. 

É o ex-bibliotecário que relembra a história, passada quando já prestava serviço no Algarve, de um leitor residente em Cortelha, pequena aldeia da Serra do Caldeirão. Manuel, era o nome desse leitor, chegou um dia à biblioteca e requisitou um livro que para si, apicultor, era muito especial: um tratado sobre abelhas. “Levou-o. E todos os meses regressava àquele local, à nossa biblioteca, para o requisitar por mais um mês. Falávamos das coisas da serra, das dificuldades das gentes, dos javalis, das abelhas… e ele levava sempre o mesmo livro”. Até que, um dia, Manuel não apareceu. “No mês seguinte”, refere José Manuel Palmeiro, “o filho procurou-me para dizer que o pai tinha falecido e para devolver o livro. Não o aceitei. Já era mais dele do que nosso. Foi um ponto alto na carreira de qualquer profissional, por tudo o que um livro pode significar na vida de uma pessoa”.

REGRESSO AO LIVRO

Antes de me despedir de José Manuel Palmeiro e de regressar a “Homens Livro”, há tempo para o ouvir contar que, a partir de certa altura, a Câmara de Estremoz entendeu centrar toda a atividade na biblioteca fixa. A Câmara de Redondo “deu-nos um edifício melhor, com espaço para guardarmos os livros e uma garagem própria para o carro”. E a Biblioteca Itinerante n.º 33 da Gulbenkian mudou de concelho.

Foi nela que António Bento Ramires começou a trabalhar em 1988, aí se mantendo. A Fundação, pouco depois, acabou com o serviço, é certo, mas a Câmara não quis que os livros deixassem de chegar a todo o concelho. Com a Biblioteca Itinerante de Redondo (BIR) desenvolve igualmente um projeto de alfabetização e educação sénior, promovendo a leitura a escrita e a oralidade “numa ligação próxima com as comunidades locais, recolhendo e partilhando os saberes que só o tempo sabe contar, fundindo a biblioteca com a paisagem”.

Ao longo dos seus (quase) 35 anos de experiência, o bibliotecário conta que este é um trabalho “que se vai interiorizando”. Sendo importante a formação profissional e académica, não o é menos o ensinamento “diário, no terreno, do viver na rua e contactar com as pessoas”. Quando começou, assegura, “havia um espaço enorme” para promover a leitura. Havia e há. “Estes anos todos têm sido de uma aprendizagem e de uma entrega muito forte à ideia de que a leitura pode criar pessoas mais capazes, no sentido de serem mais resilientes… pessoas que entendem melhor o que está em torno deles, que não são levadas às escolhas feitas pelos outros. A leitura leva-nos às nossas próprias escolhas e isso enriquece o ser humano”.

Trabalho, ou missão, inesgotável, António Bento Ramires está convencido que “a ideia de levar o livro a todos, de o colocar perto de todos, não se esgota com as tecnologias”, nem com as novas formas de leitura. “Isso são complementos ao ato isolado que o próprio livro representa, ao romântico da leitura em papel”.

Carlos Marta, que se iniciou na Gulbenkian em 1981 – diga-se, a propósito, que são os dois únicos ex-bibliotecários itinerantes da Fundação que se mantêm em funções – não poderia estar mais de acordo: “Apesar de toda a evolução tecnológica, continuamos a ter, e se calhar cada vez mais, populações isoladas, uma população envelhecida que não tem conhecimentos técnicos ou económicos para aceder a meios tecnológicos, que não tem possibilidade de se deslocar a vilas ou cidades, nem dinheiro para comprar livros”. É aqui que entram as bibliotecas itinerantes, como “garante da chegada do livro a estas populações”, possibilitando-lhes “uma maior abertura ao mundo”, ver mais além do que “a televisão lhes vende”.

Com os livros “às costas” e o coração aberto ao desejo de partilha, estes homens e mulheres, diz Carlos Marta, “trabalham em zonas de interior, com populações muito isoladas, mas onde há pessoas que têm gosto em nos visitar, em requisitar livros”. Pessoas para quem a biblioteca não pode faltar. Não irá faltar. “Aliado a isso está outro trabalho importante que é trazermos todas as gerações à leitura. Com a influência muito grande das novas tecnologias e dos meios audiovisuais, se nada fizermos, o livro e leitura perdem-se completamente”.

“Este pequeno mundo dos livros e da leitura”, escrevia Armando Carmelo em 1934, “poderá parecer-nos todos os dias novo, assim cada um de nós saiba e queira melhorar-se e merecer-se a si próprio. E eu julgo ver nesse resultado, acima de tudo, um incontido desejo de dialogar”.

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