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“Levantado do Chão”. Roteiro literário liga Lisboa a Montemor

Margarida Maneta texto

“Que vem fazer o meu livro?”, interrogava-se José Saramago, em 1980, em declarações ao “Diário de Lisboa” sobre a sua recém-publicada obra “Levantado do Chão”. Volvidas mais de quatro década, surge uma resposta: basear um roteiro que pretende dar a conhecer as lutas antifascistas no Alentejo.

Com um portal e uma aplicação móvel, o roteiro liga os concelhos de Montemor-o-Novo, Évora e Lisboa através de três percursos temáticos, cuja soma perfaz mais de 238 quilómetros rodoviários e oito pedestres. A partir dos 26 pontos de interesse sinalizados, podem conhecer-se “os lugares onde os episódios mais marcantes da obra se desenrolam”, mas também “aspetos biográficos relacionados com a estadia de José Saramago em Lavre, localidade para onde o autor se deslocou em 1976, com a finalidade de se documentar para escrever aquele que viria a ser o seu primeiro grande romance”. 

O primeiro percurso começa na Fundação José Saramago, em Lisboa, onde se convida a “conhecer a vida e a obra” do autor e, em particular, o romance “Levantado do Chão”. Com direção a Montemor-o-Novo, este trajeto, que se intitula “Os Levantados deste Chão – A Repressão da Ditadura no Alentejo”, aborda, a partir da personagem João Mau-Tempo “os momentos mais violentos da obra, como as prisões, as torturas e os assassinatos do regime ditatorial sobre o povo alentejano”. Em especial, com passagem obrigatória pelos locais mais expressivos dos assassinatos de “Germano Vidigal e de José Adelino dos Santos”, militantes do PCP, e únicas personagens que o livro retrata a partir “do nome original”.

O segundo percurso temático, “A Resistência: João Mau-Tempo e a Luta do Proletariado Agrícola Alentejano”, retrata os momentos em que a personagem principal “frequenta a escola no Ciborro, se indigna em Évora no comício fascista e se torna um heróico resistente à ditadura e à exploração laboral, sofrendo prisões e torturas, sem nunca denunciar os seus camaradas de luta”.

Já o último percurso, “José Saramago em Monte-Lavre”, volta-se, como o nome indica, para Lavre, local onde o autor se fixou e que lhe permitiu acompanhar de perto as gentes locais. Termina, em específico, na Ponte Cava, “onde o autor observava os ranchos a deslocarem-se para os trabalhos rurais e aproveitava sempre a oportunidade para meter conversa e tomar o pulso ao povo”. 

Este roteiro concretiza, concluindo, um dos objetivos que José Saramago avançou ao “Diário de Lisboa” naquela mesma entrevista em 1980: “Faço votos por que seja um simples artefacto arqueológico, fora de uso, ou, quando muito, e não será pouco, um registo para a memória coletiva. Há-de ser possível dizer um dia: Pensarmos nós que a vida no Alentejo foi assim”.

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