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José Daniel Sádio: “A crispação política faz parte” (c/ vídeo)

Entrevista com o presidente da Câmara de Estremoz, José Daniel Sádio, num balanço dos primeiros seis meses de mandato.

Ana Luísa Delgado texto | Gonçalo Figueiredo foto

Estes primeiros seis meses de mandato corresponderam à expectativa que tinha em relação ao funcionamento do poder autárquico?

Encontro um caminho grande para fazer, em que temos de criar uma estrutura muito forte e sólida que é o grupo, ou melhor, a equipa da Câmara Municipal. Foi esse o espírito que procurámos implementar desde o início e essa equipa somos todos nós – eleitos, funcionários… aquilo que entendemos ser necessário criar, e que os estremocenses validaram, o primeiro grande desafio, é envolver as pessoas, perceber as dificuldades que temos internamente em termos de funcionamento porque se queremos ter intervenção e concluir um projeto de melhoria global, precisamos de ter uma equipa forte e coesa e é esse o nosso foco. Foi por aí que começámos assim que entrámos. E devo referir que foi com muita alegria e orgulho que encontrei trabalhadores mobilizados, focados e desejosos de concretizar o nosso desígnio que é ter um serviço de excelência no nosso concelho. 

Quanto a projetos? O que é que destaca deste período inicial?

A primeira grande mudança foi conseguir mobilizar, fazer com que os nossos trabalhadores se sentissem respeitados e que percebessem que aquilo que nos move é o mesmo, é o bem do concelho de Estremoz. Esse foi o grande projeto e é a grande mudança que está a ocorrer e que se concretiza no trabalho sistemático de análise, de reunião com as estruturas superiores, com os setores, a perceber as dificuldades que surgem, a ir aos locais de trabalho, a estar perto dos trabalhadores e isso é fundamental. Estamos a conseguir, ainda que com os mesmos recursos humanos e o mesmo tipo de máquinas, ter uma cidade mais organizada, com mais limpeza, se bem que não conseguimos, neste orçamento, alocar toda a verba necessária em termos de maquinaria e espaços de limpeza. Tudo isso tem a ver com a capacidade orçamental, que é limitada. Depois, em termos de programa de ação, entendemos que estando no final do ciclo de uma pandemia e agora [de guerra] era importante dinamizar e dar vida à cidade, ao concelho, criar dinâmicas culturais, associativas, desportivas para voltar a fazer as pessoas sorrir, voltarmos a ter atividade também para que as pessoas venham a Estremoz. Não nos limitámos a fazer o diagnóstico e traçar planos de melhoria que se vão concretizando de forma gradual, há coisas a acontecer em Estremoz e há outras grandes mudanças que são necessárias. Estamos a trabalhar, por exemplo, nas estratégias locais de habitação para adaptarmos e alterarmos as premissas daquilo que eram as linhas gerais da estratégia, numa lógica diferente, que implica também trabalho de terreno, trabalho de análise. Estamos também a fazer levantamento de uma questão que é vital, resolver o gravíssimo problema que tem a ver com a água. Com a água e com o saneamento. 

É uma problema urgente…

Não podemos passar quatro anos sem ter uma solução para discutir, analisar e tomar decisões. Estamos a perder quase toda a água que captamos e estamos com problemas graves em algumas zonas, naquilo que tem a ver com os caudais, com a pressão. Temos freguesias com problemas de tratamento de esgotos, onde nem existem estações de tratamento. Este é o problema mais importante e estamos a fazer o levantamento e análise técnica para, com esses indicadores, lançarmos a análise política para que se tomem decisões. Esse é um grande projeto e que está a correr os seus passos normais porque é, porventura, a obra mais importante que está por concluir em Estremoz e estamos em 2022. 

E noutras áreas?

Há muito a melhorar… e aí temos o Programa 2030 e o PRR. Cada município deve aproveitar até ao último cêntimo aquilo que pode ir buscar em termos de financiamento europeu. Para um município como o de Estremoz, que tem uma fraca capacidade de investimento anual, é vital que consigamos aproveitar o máximo de fundos europeus em todas as áreas. As dificuldades vão surgindo, são grandes, mas nada nos tira o foco e acreditamos que conseguiremos atingir aquilo a que nos propusemos, que é, no final destes quatro anos, termos um concelho melhor, mais sustentável e, sobretudo, que se possa projetar. Isto é, que se possa contrariar um dos grandes problemas do nosso interior e que também nos atinge que é a desertificação, criar condições para que os nossos jovens consigam ter condições para aqui se fixarem. 

O que é que gostaria de ter feito nestes seis meses e não fez? E porque é que não fez?

Tanta coisa… esse confesso que é um dos meus grandes constrangimentos pessoais. Há tanta coisa para fazer e tanta área onde é necessário intervir e muitas vezes temos de as priorizar, não conseguimos resolver tudo de uma vez. O grande “drama” é os dias terem poucas horas… por exemplo, neste momento temos praticamente toda a equipa, todos os setores, a trabalhar em pleno para a FIAPE, não os posso alocar para outras áreas em que são necessários porque os recursos são finitos, são os que são. Recentemente emocionei-me quando tivemos aqui em Estremoz um evento de ginástica, o Gym For Life, com quase 900 atletas, [feito] com os nossos trabalhadores, [ao] ver o sorriso dos nossos meninos, a alegria deles em estar num espaço daqueles a desfrutar daquele momento. Todo aquele aquele ambiente caloroso das bancadas foi uma experiência única que certamente ficará na memória delas.

A aprovação do orçamento foi o período mais tenso na gestão da autarquia?

Confesso que não. Houve um ponto de partida em que traçámos linhas e o parceiro com o qual entendemos articular trabalho, negociar, foi com o PSD. Fizemo-lo desde o início, até na possibilidade de partilharmos pelouros, o que de forma legitima e totalmente transparente foi rejeitado pelo partido. Fez-se o trabalho prévio, procurou-se recolher contributos e explicámos genericamente quais é eram as linhas gerais do nosso orçamento. Não houve grande tensão até porque este orçamento está muito condicionado pelo que vem de trás, pelas obras que estão a decorrer, dos recursos que temos de alocar para as concretizar. Não quero acreditar que, no primeiro mandato, ao fim de três meses, houvesse o chumbo de um orçamento de um projeto [político] que tinha acabado de ser validado pelos estremocenses. Não senti essa dificuldade até porque o orçamento acabou por passar sem qualquer voto contra.

Como é que tem corrido a relação com os vereadores dos restantes partidos? 

A crispação das reuniões políticas faz parte, desde que não ultrapasse os limiares da boa educação e daquilo que é aceitável em termos de ética. Claro que há um momento ou outro mais tenso numa reunião porque somos humanos, todos, uns e outros. Agora, tem havido respeito, colaboração, quer em termos dos eleitos na Câmara, quer na Assembleia Municipal. Divergir politicamente é a essência da democracia, ter espaço para as diferentes correntes, opiniões, ver projetos diferentes e colocá-los em confronto e discuti-los. Temos feito todo o trabalho para respeitar a oposição, até porque, tendo sido vereador da oposição em dois mandatos, percebo bem as questões surgem. Divergimos, convergimos, mas somos sete. É normal que haja discussões até porque passámos um ciclo de 12 anos e há muitas questões que estão presentes e têm de se contraditar, contrapor, que se interligam com questões do dia-a-dia.

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