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Irmãs Flores: Meio século a valorizar a tradição

Maria Antónia Zacarias texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

A tradição ainda é o que era na casa das irmãs Flores. No ano em que comemoram 50 anos de produção do figurado de Estremoz, dizem não saber como conseguiram chegar até aqui, sobretudo porque vieram ter com os bonecos “por acaso”. 

No início foi um mero ofício, depois passou a subsistência até que as figuras lhes “tocaram o coração” e com elas caminham até hoje. Dia em que gostavam de transmitir o seu saber fazer a alguém para que a arte seja preservada no tempo.

Maria Inácia é a mais nova das irmãs Flores. Começou como aprendiz no dia 15 de novembro, há 50 anos. “A minha irmã é mais velha, já cá estava na cidade, era cabeleireira e foi ela que me arranjou o emprego com uma senhora que fazia bonecos. Nós vínhamos do campo e nem sequer sabíamos o que era. Eu queria trabalhar e estudar e isto era um ofício”, conta. 

Aprendeu com uma senhora que pertencia à olaria Alfacinha e que se chamava Sabina Santos. Era ela que fazia os bonecos e tinha raparigas que a ajudavam na pintura. “Na altura, comecei a pintar e gostei logo. No dia em que lá entrei, ela deu-me uma peça difícil para pintar, que era um lanceiro a cavalo com muitos pormenores. Mas há uma coisa, as pessoas que vivem no Alentejo, sempre gostaram muito de pintar as portas, os pés, os poiais na rua e eu já trazia a experiência de pintar [isso] tudo e comecei logo a pintar muito bem”. 

A sua irmã, Perpétua, trabalhava no cabeleireiro, mas à hora do almoço dava uma ajuda na pintura dos bonecos. “Passados dois anos, já trabalhávamos as duas com a Dona Sabina Santos”, mas sempre pensando que este trabalho não ia ter futuro. “Vivíamos numa altura em que as coisas não eram muito valorizadas. E pensávamos quem é que ia comprar os bonecos? Mas nunca desistimos. Criámos uma ligação muito grande com esta senhora e mantivemo-nos a trabalhar com ela. Em determinada altura, ela ficou doente e nós continuámos, mas sempre com medo”.

Maria Inácia lembra que com o aproximar da reforma da barrista, tinham de pensar como seria o seu futuro. Então fizeram um projeto para ficar com a olaria, que estava à venda. Como isso não foi possível, as duas irmãs tiveram de recomeçar “numa casa sem condições, trabalhando muito” até que abriram uma loja em 1987, a que deram o seu nome, “Irmãs Flores”. Uma homenagem à mãe que tinha o apelido de Pisa Flores. 

O que trouxe a certificação às irmãs Flores? “Nunca tivemos falta de trabalho. Trabalhávamos muito para revenda e hoje trabalhamos para o consumidor final. Não conseguimos trabalhar mais, temos o meu sobrinho, Ricardo Fonseca, que trabalha em parceria connosco e uma rapariga que ajuda a pintar”. E adianta: “Gostávamos de ensinar este saber fazer, para manter a tradição”.

A barrista diz que gostava que a arte continuasse, “até porque os Bonecos de Estremoz foram o primeiro trabalho de arte popular de barro que foi classificado como Património da Unesco. É um orgulho muito grande, nem todas as artes conseguem sobreviver durante séculos até hoje”. 

Enquanto limpa as mãos ao avental que traz ao peito, olha de frente, suspira e diz lá do fundo: “Não vale a pena inventar porque as pessoas querem aquelas peças que são verdadeiras, que pertencem ao passado e à tradição. Os barristas que seguirem a tradição serão sempre valorizados e as suas peças também”. 

Maria Inácia conta que as figuras religiosas são as mais procuradas, bem como “o Amor é Cego” e a “Primavera”. Mas do que gosto mesmo de reproduzir é o trabalho do campo. “Sou muito ligada à natureza e não me esqueço do meu passado”. 

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