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“Podemos dizer que os nossos mármores são universais”

Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

São já 46 os investigadores, portugueses e estrangeiros, envolvidos no projeto Património e História da Indústria dos Mármores, desenvolvido pelo CECHAP. Os dois mais recentes volumes desse trabalho de investigação foram agora publicados. Um incide sobre o contributo dos mármores para a afirmação das artes, desde o período romano. O outro estuda a história da economia e do direito das minas e pedreiras.

“Isto é uma coisa extraordinária”, desabafa Carlos Filipe, coordenador do Centro de Estudos de Cultura, História, Artes e Património (CECHAP). Por “isto” entendam-se os mármores de Estremoz, Borba e Vila Viçosa. Haveremos de descobrir os motivos de espanto deste mestre em História Moderna e Contemporânea desafiado em 2006 a fazer trabalho de investigação académica na zona dos mármores. Foi paixão para a vida. 

Por agora fixemos o olhar em Ceres, amante e irmã de Júpiter, a deusa das plantas que brotam, dos cereais. Aqui, uma Ceres sentada, estátua que também pode representar uma deificada Lívia, a mulher de Augusto, primeiro imperador dos romanos. Aqui é o topo de um dos vãos, o valva regia, por onde os atores entravam no palco do Teatro Romano de Mérida, construído entre os anos 16 e 15 antes de Cristo.

Esta Ceres é apenas uma das 38 peças identificadas em Mérida como tendo sido feitas com recurso à utilização de mármore de Estremoz. Numa tabela-síntese publicada por Noel Moreira, investigador da Universidade de Évora, no terceiro volume de “Mármore – 2000 Anos de História”, rapidamente descobrimos que Ceres nem sequer é caso único no Teatro Romano, pois foi também com pedra de Estremoz que se esculpiram as estátuas de Platão e de Proserpina. E se percorrermos a antiga Augusta Emerita [Mérida], capital da Lusitânia, por lá se encontram outros exemplos, como o busto imperial no Templo de Diana ou uma Ísis na Casa de Mithraeum, uma domus senhorial, residência de uma das famílias abastadas da cidade.

Na tabela publicada por Noel Moreira há registo da presença de mármore de Estremoz por várias regiões de Espanha, do tal busto imperial, datado do século I a.C., a um sarcófago com menos 500 anos, localizado em Tui. Há peças em cidades como Badajoz, Toledo, Segóvia ou Ouviedo. A que se juntam outras três em Marrocos. E diversas em Portugal, como uma estátua de Apólo, em Alcoutim, ou um capitel do Templo Romano de Évora. 

Os romanos gostavam de mármore. Prova disso é a sua presença nas principais cidades e villae do império, naturalmente por todo o Alentejo, mas não só. “Nos domínios ocidentais da Lusitânia, à cabeça, destaca-se a utilização de mármore de Estremoz no programa público de construção de cidades como Olisipo, Conimbriga e Aeminium (Coimbra) durante o século I, com a utilização para peças arquitetónicas diversas, como bustos, estátuas e baixos-relevos”, escreve Noel Moreira. Outras peças foram identificadas em Santarém, Guarda ou Pombal, ou mais a sul, na costa meridional, em povoações romanas como Tavira, Faro ou Castro Marim.

“Parece óbvia a existência de importantes rotas comerciais terrestres de mármore ao longo de vias romanas da Hispania”, sublinha o mesmo investigador, acrescentando ser também “evidente” o transporte marítimo dos mármores de Estremoz na época romana, “o que é atestado pela presença e consumo destes mármores em locais portuários da Lusitânia, como Troia, Salacia [Alcácer do Sal], Olisipo [Lisboa] ou Myrtilis [Mértola]”.

É por aqui que começamos a desvendar o “espanto” do coordenador do CECHAP. “Hoje podemos dizer que os nossos mármores são universais pois vamo-los encontrando por todo o lado”, diz Carlos Filipe, reforçando que o estudo sobre a proveniência das pedras tem permitido localizar mármore de Estremoz “por toda a Península Ibérica”, nas grandes cidades do império romano. “E há uma lógica para isso, é que o mármore era o petróleo deles e a circulação da economia fazia-se em torno das rochas ornamentais”.

Mérida é disso um bom exemplo. “Faz-nos confusão perceber como é que em cerca de 60 anos os romanos levaram tanto mármore daqui da região para a capital da Lusitânia. Levaram, podemos dizer, verdadeiras pedreiras que utilizaram em toda a estrutura da cidade, da arquitetura hidráulica aos grandes monumentos públicos e à escultura”.

Paradoxalmente, acrescenta o coordenador do CECHAP, essa utilização intensiva do mármore irá contrastar com uma teoria existente até “há bem poucos anos”, segundo a qual os mármores alentejanos não serviam para a escultura. “Tudo errado. Os próprios romanos utilizaram-no com essa finalidade, sabemos hoje que grandes nomes da escultura, a partir do século XVII, vieram aqui buscar mármore, os italianos estiveram aqui muito presentes logo no período barroco”. João Cutileiro, já no século XX, acabou assim por integrar uma longa linhagem de artistas “rendidos” ao mármore de Estremoz.

No mesmo volume, Carlos Filipe, Maria João Pereira Coutinho e Patrícia Monteiro situam no século XVIII o “apogeu” do mármore no Alto Alentejo, “fruto da influência de correntes estilísticas que então marcavam a arte nacional” e o tornavam muito presente, em particular, na arquitetura religiosa. “Os retábulos construídos exclusivamente em mármore, no Alentejo, são testemunho de uma contínua utilização de um recurso endógeno desta região desde o período romano”. E há ainda os púlpitos, como o da igreja de Nossa Senhora d’Aires (cujo portal em mármore de Estremoz data de 1755, “tendo sido realizado segundo a supervisão do mestre pedreiro Manuel Antunes”), e os lavabos, de que são exemplos o da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Milagres, em Vila Viçosa, ou a Fonte de Abluções do Convento de São Paulo, na Serra d’Ossa.

“UMA SURPRESA CONSTANTE”

Se o terceiro volume de “Mármore – 2000 Anos de História” é dedicado ao “contributo dos mármores do Alentejo para a afirmação das artes”, o quarto, também agora lançado, versa sobre o percurso global deste recurso endógeno, designadamente em matéria de história económica e do direito de minas e pedreiras, área que estava de tal maneira “descurada” que nunca tinha sido estudada em Portugal. “Entregámos esse estudo aos colegas da Faculdade de Direito de Lisboa, um grupo de nove investigadores, que se dedicaram aos diversas períodos da história para estudar a evolução das leis e dos regulamentos que organizavam juridicamente tudo isto, do espaço à utilização, como se faziam os contratos e como tudo evoluiu ao longo dos séculos”, revela Carlos Filipe. “É uma surpresa constante, somos permanentemente surpreendidos [com novas áreas de trabalho] e quando a História desenvolve este trabalho não é para ficar na gaveta, é para ter consequências, estamos a contribuir para o futuro deste setor e para a valorização deste recurso”.

Os quatro volumes foram produzidos e publicados no âmbito do projeto Património e História da Indústria dos Mármores (PHIM), promovido pelo CECHAP e cofinanciado por fundos europeus, abrangendo várias áreas científicas, da arqueologia à história económica e social, das paisagens e recursos sustentáveis à geologia ou à história da arte.

“Isto iniciou-se em 2012”, lembra o coordenador do CECHAP, frisando que nessa altura a ideia era “implementar uma rota do mármore”, que já tinha sido criada cinco anos antes, em resultado de um trabalho académico, mas que ainda não estava no terreno. “Nessa altura fomos confrontados com falta de fontes e com a falta de uma narrativa sobre a história e a indústria dos mármores. E daí ter-se constituído um pequeno grupo, todos de história e património, para desenvolver este projeto que teve o seu arranque em 2014, sendo evidente que estas coisas só acontecem porque existem apoios e financiamentos”. 

A pequena equipa cresceu, envolvendo agora 46 investigadores, e internacionalizou-se, mas o foco continua a ser o mesmo: “estudar e promover o mármore do Alentejo, com a geografia onde ele está localizado, do Alandroal a Sousel, e depois compreender a sua expansão e utilização ao longo destes dois milénios”.

Carlos Filipe assegura tratar-se de um projeto “pioneiro” a nível europeu pois “envolve diversas ciências que estão a depositar o repositório da sua investigação, cruzando essa informação com todos os períodos da História” e com diversas áreas do conhecimento científico. “Estamos com os nossos pés em cima de uma escala económica da qual ainda não temos a noção do seu exato valor económico e financeiro. Mas os romanos tiveram essa perceção e daí que exista uma grande utilização dos mármores em todo o império. Eles identificaram onde havia pedras ornamentais de qualidade e exploraram esse recurso”.

Outras das componentes é a história oral. Capítulo onde nos cruzamos com empresários, mestres canteiros, serradores de pedras, canteiros, gente que trabalhou na indústria dos mármores. Homens como António Simões, natural de São Bartolomeu, Borba. “Fui para as pedreiras porque o meu pai já estava nas pedras, o meu avô esteve nas pedras e (…) das primeiras pedreiras que houve aqui na região, eram do meu bisavô”.

“Para dizer a verdade”, prossegue António Simões, “na altura não estudava que era inteligente, mas sim quem tinha dinheiro (…) e eu era mais fácil entrar numa firma onde já estava a minha família toda e o meu pai era encarregado, o meu avô encarregado, portanto não foi difícil entrar para onde quis”. Estudar fazia-o à noite. O trabalho nas pedreiras começou quando ainda era rapaz, não mais de 11 anos. “Tínhamos de esconder, vinham aí os fiscais do desemprego e as firmas passavam o sinal umas às outras e a gente, os miúdos, tínhamos de nos esconder; normalmente mandavam a gente dar uma curva”.

O conjunto das entrevistas (45) pode ser consultado a partir do portal do património e história da indústria dos mármores (acessível marmore-cechap.pt), integrado no projeto, e que se destina a “recolher, tratar, preservar e disponibilizar informação produzida pela investigação, existente em diferentes suportes nas bibliotecas públicas e privadas”.

PROJETO NÃO ESTÁ FECHADO

Concluídas as três primeiras fases do projeto Património e História da Indústria dos Mármores, Carlos Filipe garante que o CECHAP está já a trabalhar nos objetivos de uma quarta fase. “Temos de fazer um estudo sistematizado sobre artes e artistas para percebermos quem esteve no terreno e quem teve interesse em utilizar o mármore enquanto recurso artístico”. Segundo explica, trata-se de “encontrar especialistas” para cada período artístico, do clássico ao contemporâneo, que possam sistematizar a informação existente e cruzar dados. “Isto não se executa localmente. Teremos de ir a cidades e museus por essa Europa fora identificando os artistas e as peças que fizeram com mármore do Alentejo”, refere. O coordenador do CECHAP não esconde, no entanto, a sua preocupação por “não haver maior atenção por parte do poder político e de quem administra os nossos fundos para a importância social, económica e transformadora dos recursos naturais, como o mármore”.

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