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“Há uma calma no Alentejo que me ajuda a encontrar ideias”

Margarida Maneta texto

Os mais atentos à sua música conseguem encontrar o Alentejo nos discos mais recentes. Já os mais atentos à história da cidade de Estremoz conseguem encontrar o contributo da sua família no património estremocense. Já os mais atentos aos rostos que vagueiam pela cidade conseguem encontrar o próprio, especialmente no mercado de sábado. Eis Rodrigo Leão, músico e compositor, numa entrevista onde fala sobre este Alentejo, que também é seu, e sobre a música portuguesa, património de todos.

É em Estremoz que Rodrigo Leão, músico, compositor e dono de uma das mais interessantes discografias do nosso país, tem boa parte das suas raízes. Carlos Frederico Luna, o seu bisavô, pertenceu, por exemplo, à comissão para a construção do Teatro Bernardim Ribeiro. 

“[Falar de Estremoz] é saber que a minha avó, mãe da minha mãe, viveu no largo por cima da farmácia e, portanto, sentir que há ligação da minha família com esta cidade maravilhosa”, diz Rodrigo Leão, para quem a pandemia foi sinónimo de lançamento de novos álbuns. Três ao todo: “Avis 2020”, “A Estranha Beleza da Vida” e “A Liberdade”. 

Já iremos à música. Por agora, novo olhar sobre o Alentejo, confessando-se rendido “à paisagem, às pessoas e à gastronomia”. Fala do que sabe, ou não tivesse fixado residência em Avis: “Acho que há, obviamente, uma tranquilidade no Alentejo muito diferente da de Lisboa e das grandes cidades. Há aqui uma calma que, muitas vezes, me ajuda a ter mais paz de espírito, sossego para tentar encontrar ideias. Às vezes não trabalho, descanso e passeamos por estas estradas à volta de Avis e do distrito de Portalegre”. 

Precisamente o local onde gravou “Avis 2020”, estava o mundo “mergulhado” na pandemia e no primeiro confinamento: “Foi aqui no meio da natureza que me surgiram algumas ideias que eu achei que valia a pena ficarem registadas. Na minha pequena sala, onde tento compor e onde tenho alguns instrumentos, fui gravando as ideias e acabou por sair esse disco”. 

Seguiram-se “A Estranha Beleza da Vida” e “Liberdade”, dois álbuns lançados no último ano. Sobre o primeiro, comenta que foi um disco composto quando já sentia “um certo desconfinamento, pelo menos, interior”. Por essa altura, “já tinha vontade de compor músicas diferentes, alguns temas até remetem para os anos 50 e, portanto, foi um disco que foi feito, como quase todos os outros trabalhos que faço, de forma espontânea e intuitiva”. 

Segundo Rodrigo Leão, o título escolhido “partiu da frase de um padre que na igreja, numa missa, falava na estranha beleza da morte e nós ficámos com essa frase na cabeça. Acabámos por achar que fazia mais sentido falar da estranha beleza da vida até porque neste dois anos em que vivemos todos estes momentos inesperados, a verdade é que, apesar de tudo, as pessoas continuam a viver, a pensar, a ter ideias e a querer fazer coisas num momento que se calhar não seria muito propício”. 

Já “Liberdade”, o último desta trilogia, traduz-se pela “liberdade de podermos continuar a fazer música, independentemente de estarmos confinados ou de atravessarmos momentos mais complicados nas nossas vidas. É termos essa liberdade interior de tentar compor, tocar com mais músicos e a isso chamamos liberdade”.

Com novos discos lançados, 2022 é ano de concertos, muitos em Portugal, outros em Espanha, na Alemanha ou na Suíça… “Já fizemos cerca de 10 espetáculos desde o início do ano e temos mais 20 marcados. Estamos contentes porque, finalmente, as coisas estão a melhorar muito e é muito importante podermos ter este contacto com o público e divulgarmos o nosso trabalho”. 

Garantindo que “gostaria de estar muito mais a par do que se faz em Portugal neste momento”, em matéria de música, Rodrigo Leão sublinha que “há pessoas com muito talento, uma energia muito grande de quem quer criar grupos. Vou ouvindo desde música mais popular até rap e também grupos mais antigos. Apesar destes anos serem mais complicados para quem está a começar, acho que há muita gente que não perde a esperança”.

MÚSICA PARA FILMES

Além do discos editados, Rodrigo Leão tem composto para bandas sonoras de filmes e séries televisivas, como “O Mordomo” (2013), realizado por Lee Daniels, ou, mais recentemente, “Submissão” (2020), do português Leonardo António. “Fazer música para um filme é sempre, num primeiro momento, uma responsabilidade grande porque estão-me a pedir música e eu quero ir ao encontro das ideias que tem o realizador. É muito importante haver uma sintonia, uma empatia grande com as pessoas com quem trabalho quando estou a fazer música para filmes”, confessa, reconhecendo que se trata de um processo “muito semelhante” ao que faz nos discos. “Depois da ideia base estar aprovada para determinada cena, é o processo normal de arranjo que faço com os músicos com quem trabalho, que me ajudam a produzir os discos. Faz sentido para mim, não só gravar discos e fazer concertos, como ter esta oportunidade de fazer música para filmes, peças de teatro, exposições”, conclui.

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