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Há mais de 42 mil idosos a viverem sozinhos no Alentejo

Maria Antónia Zacarias texto

Um estudo da SWPortugal/ Brados do Alentejo aos dados definitivos do Censos 2021 revela a existência de 42 mil pessoas com mais de 65 anos de idade a viverem sozinhas no Alentejo. Muitas delas fazem-no por opção.

Embora haja mais de 42 mil idosos a viverem sozinhos no Alentejo, sendo que só no concelho de Estremoz são quase 900, muitos estão nesta situação por opção própria, porque se sentem bem e porque ainda têm muito a dar à comunidade onde estão inseridos. O estigma da solidão e do isolamento tem vindo a cair por terra com a promoção de um envelhecimento ativo, pese embora ainda haja muito por fazer em termos de políticas sociais. A capacidade que o idoso tem de transmitir conhecimento às gerações mais novas, através de encontros intergeracionais, quer através da sua participação ativa em associações ou universidades seniores ou através da criação de postos de trabalho, são contributos que pesam muito mais que as despesas com as suas reformas na balança da vida.

Os resultados definitivos do Censos 2021, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número de pessoas a viver sozinhas aumentou comparativamente com os Censos de 2011. Os agregados unipessoais representam 24,8 por cento do total de agregados domésticos, valor que cresceu 18,6 por cento face também a 2011. Observando o grupo etário dos agregados somente com uma pessoa verifica-se que 50,3 por cento têm 65 ou mais anos de idade. Em termos geográficos, é o Alentejo que apresenta a menor percentagem (10,6%), resultante da densidade demográfica.

Certo é que a população idosa tem vindo a crescer resultante do aumento da esperança média de vida, representando mais 20,6 por cento do que há 10 anos. Por isso, tanto o investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais de Évora, Marcos Olímpio, como a psiquiatra Ana Matos Pires, membro da coordenação nacional das políticas de saúde mental do Ministério da Saúde, entendem que é preciso dar respostas mais adaptadas às necessidades dos idosos.

Marcos Olímpio explica que, atualmente, os idosos vivem sozinhos por duas razões: por escolha própria ou por desagregação da família e das redes de sociabilidade, “visto que os cônjuges ou pessoas com quem têm laços de afetividade vão falecendo”. No entanto, esta escolha leva a que haja uma “adequação” das suas vivências. 

“Quando falamos do atual papel do idoso na nossa sociedade, estamos a falar de um segmento que é muito diversificado. Estamos a falar de idosos altamente qualificados que desempenham papéis muito relevantes como dirigentes associativos, docentes e alunos das universidades seniores, mas também de idosos que ajudam como podem os seus filhos e netos. E, depois, há os que são dependentes e que ajudam à criação de postos de trabalho pelas necessidades de receberem apoio domiciliário ou por estarem internados em estruturas residenciais para pessoas idosas (ERPI)”. Diferentes realidades, cada uma com um contributo para a sociedade, daí falar-se, cada vez mais, da “economia grisalha ou do envelhecimento”. 

Marcos Olímpio destaca, contudo, os seniores altamente qualificados, que “têm um grande impacto nas dinâmicas de várias instituições, o que tem levado a contributos para a sociedade no seu todo”. E acrescenta a questão da intergeracionalidade, através da qual os idosos menos qualificados, do ponto de vista das habilitações literárias, mas que com grande experiência de vida, transmitem aos mais novos ensinamentos que lhes vão ser úteis.

Marcos Olímpio salienta também que até os mais dependentes têm igualmente um papel fundamental porque ajudam à dinâmica da economia do envelhecimento, “resultante dos postos de trabalho que criam para conseguir ter respostas para as suas necessidades. Estamos a falar dos serviços de apoio domiciliário, dos centros de dia e das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas”. A seu ver, têm vindo a ajudar para a libertação do estigma de que é um peso na família, englobando-se de múltiplas formas na vivência em sociedade. 

SUICÍDIO É “PREVALENTE” EM IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS

Ideia corroborada pela psiquiatra Ana Matos Pires, coordenadora regional de saúde mental do Alentejo e membro da coordenação nacional das políticas de saúde mental do Ministério da Saúde. “Se me pergunta se eu estou satisfeita com o apoio social que é dado às pessoas mais velhas, não estou. É preciso melhorar, por exemplo, o treino dos que trabalham com pessoas mais velhas, os cuidados, melhorar as suas condições de vida e de habitação, de alimentação, de exercício físico”, sustenta, adiantando que é preciso aperfeiçoamento, mas não podemos ter uma visão catastrofista de que os idosos são “um peso” e estão “abandonados”. “Há meia dúzia de anos, as notícias diárias eram de que os velhinhos morriam sozinhos em casa. O facto dos filhos não estarem a viver na casa ao lado não significa o abandono das pessoas mais velhas”, vinca. 

Ana Matos Pires considera que, provavelmente, pior do que o isolamento é a solidão. “As pessoas podem estar isoladas fisicamente, porque querem continuar assim. Não é o viver sozinho, só por si, que dita a solidão”. Defende que é preciso olhar para o estado mental do “sujeito” e entendê-lo. Um idoso pode viver num monte isolado e não se sentir só. “Não se pode estabelecer uma causa/efeito e afirmar isto com segurança sem haver estudos que o comprovem”, atesta. 

A psiquiatra afirma que foi feito um estudo comparativo do risco de depressão e de suicídio em três grupos: nos idosos que vivem isolados nos montes onde viveram toda a vida, nas pessoas de 65 anos que viviam nas suas casas e outras que viviam em lares. “Curiosamente, os resultados piores verificaram-se nas pessoas que viviam em instituições”, frisa, mostrando que uma vez mais o estereótipo do idoso que se sente sozinho é o que está isolado fisicamente cai por terra.

Esta responsável considera que existem ainda poucas indicações para se desenvolverem programas para os idosos em áreas que cruzem o social com a saúde. “Muitas vezes começamos a construir a casa pelo telhado, desenvolvemos estratégias sem antes sabermos quais são as necessidades e os estudos, do meu ponto de vista, são fundamentais para conseguirmos dar respostas mais adaptadas às reais necessidades”, adverte.

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