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Guerra na Ucrânia faz disparar preço dos cereais

Ana Luísa Delgado texto

É da Ucrânia que Portugal importa boa parte dos cereais que produz. E os que produz não dão para mais de 10 por cento do consumo. Há muito que o Alentejo deixou de ser o celeiro da nação. Com a guerra os preços dos cereais dispararam a nível mundial. Os agricultores pedem um apoio específico para reduzir a dependência do país.

O anúncio foi feito pelo Governo em 2017 e plasmado na Estratégia Nacional para a Produção de Cereais: num período de cinco anos, até 2023, Portugal iria produzir, pelo menos, 40 por cento dos cereais que consome. O objetivo seria caminhar reduzir a dependência do país em relação à importação de cereais. Feitas as contas, não só não houve aumento de produção como a capacidade para o fazer se reduziu ainda mais: a quantidade armazenada nem sequer chega para as necessidades de um mês de consumo.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, a área dedicada à produção de cereais é agora a mais baixa de sempre, comparando os 215 mil hectares cultivados em 2021, dois terços dos quais no Alentejo, com os mais de 800 mil hectares dedicados às culturas cerealíferas durante todo o século XX.

Portugal, historicamente, tem uma elevada dependência da produção de cereais. De acordo com José Palha, presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC), nem mesmo nas décadas de 40 e 50 do século passado, quando o Estado Novo decidiu transformar o Alentejo no “caleiro da nação”, o grau de aprovisionamento do país foi superior a 50 por cento. E o motivo, explica, é que se tratam de culturas que “não têm grande produtividade” no clima mediterrânico, pelo que “libertam pouca margem” para os agricultores.

“Havendo alternativas que dão mais rendimento, muita área foi substituída, por exemplo, por culturas permanentes. Como houve também um desinvestimento do Governo nesta área, nomeadamente, com o fim das ajudas ligadas à produção de cereais, houve muitos agricultores que optaram por deixar esta produção”, acrescenta José Palha. E, assim, se chegou a uma situação em que o país depende em mais de 90 por cento da importação de cereais, o que é tanto mais grave quando se sabe que a Ucrânia é responsável por 40 por cento das exportações de milho para o mundo inteiro.

“A guerra na Ucrânia pôs completamente a nu a nossa total dependência do exterior”, acrescenta o presidente da ANPOC, lembrando a inevitabilidade do aumento dos preços, em particular nos países, como Portugal, mais expostos às importações. “A falta desse mercado faz com que haja uma pressão enorme nos outros mercados exportadores, como o trigo para alimentação humana, em França ou, por exemplo, o milho da Argentina, Brasil ou Estados Unidos. Todos os mercados que se abasteciam na Ucrânia estão agora a ir comprar aos outros produtores, o que faz com que haja uma escassez no mercado e o preço tenha aumentado brutalmente”, acrescenta José Palha, exemplificando com o caso do milho, cujo preço duplicou nos últimos dois anos.

“SITUAÇÃO DRAMÁTICA EM TEMPOS DE CRISE”

Agricultor e presidente presidente do Clube Português dos Cereais de Qualidade, Fernando Carpinteiro Albino é um dos (cada vez menos) produtores que se continua a dedicar aos cereais, com uma área de intervenção nos concelhos de Monforte, Elvas e Fronteira. “Temos explorações agrícolas marcadamente de sequeiro porque estão fora de qualquer perímetro de rega público e, portanto, tudo o que temos de regadio foi feito por nós ao abrigo dos pequenos regadios. Continuamos a fazer cereais porque não podemos deixar de o fazer em culturas extensivas”. São explorações agrícolas mistas de cereais e de uma pecuária extensiva à base da raça bovina alentejana em linha pura.

A situação atual, descreve Fernando Carpinteiro Albino, “é cada vez mais dramática e será sempre dramática nos momentos de crise”, como o atual. “Não nos têm ouvido… como somos um país rico, com muito dinheiro, não precisamos de produzir e vá de importar”, ironiza. “Tem sido este a tónica dos últimos 30 anos”. Agora, com a guerra na Ucrânia, um dos principais exportadores de cereais para Portugal, “a torneira fechou” e o resultado, inevitável, é uma maior dificuldade de abastecimento e uma subida dos preços.

Trata-se de uma situação análoga à vivida aquando da II Guerra Mundial. Com a Europa devastada, sem possibilidade de importar cereais, a solução foi passar a produzi-los, daí a campanha do trigo lançada na década de 40 pelo Estado Novo. Passadas oito décadas, as fragilidades mantêm-se. “Os países têm a obrigação de evitar estas situações porque o pão é um bem essencial. E como bem essencial que é, deve ser produzido em todos os países. Aliás, produz-se em todo o lado, menos em Portugal, que importa a quase totalidade dos cereais que consome”, sublinha Fernando Carpinteiro Albino, apontando responsabilidades ao poder político.

Segundo lembra, a Estratégia Nacional para a Produção de Cereais resultou de uma iniciativa do Ministério da Agricultura, à época liderado por Capoulas Santos, e visava “corrigir esta situação perfeitamente anómala” de ter o país totalmente dependente dos cereais que importa. “Essa estratégia foi apoiada por todas as associações agrícolas. Infelizmente, houve eleições, mudança de ministro da Agricultura, que passou a ser a atual ministra, e tudo isto lhe passou ao lado… e passou de uma forma bastante gravosa pois estava em curso a negociação da nova Política Agrícola Comum e deveria ter sido introduzida uma medida de apoio com o objetivo de incentivar os produtores a fazerem cereais de sequeiro ou de regadio”.

De acordo com Fernando Carpinteiro Albino, o desafio para o novo titular da pasta da Agricultura é mesmo o de se bater pela adoção dessas medidas ao nível da PAC, tendo presente o caso que estamos a viver, ou seja, a existência de uma “escalada do preço dos cereais que já é muito significativa e que começa a causar sérios problemas” a toda a fileira, incluindo panificação e massas alimentícias, mas também aos produtores pecuários. “O preço das rações está a subir de forma drástica, os frangos, os porcos e os bovinos comem muita rações, e tudo isso terá reflexo [no preço pago pelos consumidores]”.

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