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Guerra. “Éramos países irmãos, mas já não somos”

Margarida Maneta texto | Gonçalo Figueiredo foto

É natural de Poltava, na Ucrânia, onde nasceu há 47 anos. Nesta cidade deixou a mãe, o irmão, a filha e o neto de um ano de idade. Do outro lado da fronteira, na Rússia, ficaram a tia, os sobrinhos e alguns primos. Está há duas décadas em Estremoz, local de onde tem acompanhado o conflito que está a marcar, nas últimas semanas, a Europa e o Mundo. Em tempo de guerra, estivemos à conversa com Svetlana Radu.

Como tem visto este conflito?

Graças a Deus, por enquanto, na região onde eles estão, em Poltava, está mais ou menos calmo, mas em geral é muito complicado. As cidades vizinhas estão mesmo na fronteira com a Rússia, a zona mais complicada, pelo que a minha filha está isolada no meio do perigo. Ela está em casa, tem comida e luz, mas não a pode acender a partir das quatro da tarde porque escurece e pode ser bombardeada. Ou então tem de tapar as janelas para não saberem que ela está em casa.

Como é que a comunidade ucraniana em Estremoz tem estado a acompanhar a situação?

Mandámos roupa, ‘kits’ de primeiros socorros, fraldas e comida para crianças e medicamentos. Damos muita ajuda, mas esta fica quase toda presa na fronteira da Polónia com a Ucrânia porque passar tudo o que enviamos para a zona mais complicada é difícil. A Ucrânia é muito grande. Muitas pessoas perguntam-me porque é que a minha filha não vem para cá. Não consegue, porque está sozinha, com um bebé de colo, e até à fronteira são 1100 quilómetros. Não quer dizer que ela não quer vir, mas não consegue. E eu já nem tenho palavras… Isto é horrível. 

Como é que viu a onda de solidariedade que se gerou em Portugal?

Parece-me bem. Agora isto está a acontecer com a Ucrânia, mas ninguém sabe o que pode acontecer daqui a nada com outros países, inclusive Portugal. 

Alguma vez imaginou uma situação de guerra, como a que agora se vive?

Que ia acontecer alguma coisa de mal já esperávamos, mas nunca imaginámos que fosse isto… a guerra. Nunca ninguém esperou que Vladimir Putin bombardeasse toda a Ucrânia. Ele diz que os civis não sofrem, dizia que não os matava… é mentira. Há casas e cidades destruídas, e as pessoas… Metade da minha família é russa, a outra metade é ucraniana. Eu não podia cortar o braço direito para uns e ficar com o esquerdo para outros. O meu coração é dos dois, mas o que está a acontecer não tem explicação. Isto não é entre ucranianos e russos. É tudo sobre política, mas quem sofre são os povos. 

Como é que imagina a Ucrânia nos próximos anos?

Não sei… Para esta pergunta não tenho mesmo resposta. Já não posso sequer falar de amanhã porque na verdade nem sei o que vai acontecer daqui a pouco. Não acredito que isto vá passar rápido. Dantes dizíamos que éramos países irmãos, mas já não somos. Já há ódio de uns para com os outros. 

Alguém da comunidade ucraniana em Estremoz pensou regressar?

Se eu for agora para lá, como é que ajudo a minha filha? Não tive, nem tenho a ideia de ir. Tenho a cabeça perdida, ao pensar em soluções para tirar a minha filha e o meu neto de lá, mas ir não, até porque tenho aqui a minha outra filha que é menor. 

Os familiares que estão na Rússia têm opiniões diferentes sobre o conflito?

Acredite que desde que isto começou, naquela quinta-feira de fevereiro, nós não falámos? Falava todas as semanas com a minha tia. Liguei-lhe e queria falar sobre isto e ela disse que ou não falávamos sobre isto ou desligava o telemóvel.

Que leitura faz dessa atitude?

Não posso dizer o que pensa outra pessoa. Ela disse que já não tem redes sociais, que não quer saber das notícias… Ela não quer falar sobre isto. Eu aqui em Portugal vejo notícias da Rússia, da Ucrânia e de Portugal. E isto é uma guerra política. Há notícias da Rússia e da Ucrânia completamente diferentes. A visão ucraniana é a de que a Rússia está a fazer mal e a visão russa é que estão a ajudar o povo ucraniano. Não sei qual ajuda! Toda a gente chora.. pessoas ficam sem casa, têm medo. O que Putin quer não sei porque não estou dentro da cabeça dele. Acho que quer o território ucraniano e mata-os a todos. Isto é o que eu sinto e penso, a verdade não sei qual é.

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