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Fialho de Almeida, o escritor da “comédia” da vida portuguesa

Texto Luís Godinho

A propósito dos 165 anos do nascimento de Fialho de Almeida

“Incómodo pensador”, assim descrito pelo já falecido historiador Joaquim Palminha da Silva, José Valentim Fialho de Almeida, filho de Mariana da Conceição Fialho e do professor primário Valentim Pereira de Almeida, nasceu em Vila de Frades, Vidigueira, a 7 de maio de 1857. Aprendidas as primeiras letras, com o pai, é o rapaz enviado para o Colégio Europeu, em Lisboa. “Fui bom estudante sempre, e uma criaturinha triste e sossegada – duas razões que acumuladas com a de meu pai nunca vir da província, visitar-me, e de por sua pobreza não poder mandar presentes bons ao diretor, me valeram cinco anos de privações e de maus-tratos, e uma resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho, que pela vida fora tem sido a minha bela independência e a minha força”.

A morte do pai, em 1871, obriga-o a procurar emprego para ajudar a família a superar dificuldades económicas. Encontra-o na farmácia do Altinho, no largo do Mitelo, ao Campo de Santana, onde fica sete anos a “apodrecer” como praticante de boticário. “A baiuca era tão velha, infeta, escura e desornada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço, que pode resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia e raçuns de unguentos pré-históricos”. Nem tudo, porém, foi completamente mau, pois, segundo escreveu, a botica “teve a vantagem de me pôr em contacto absoluto com o povo, de me mostrar a existência dos bairros pobres, numa cidade onde o operário envelhece sem a menor ideia de conforto, e cumulativamente ensinou-me o manuseio e preparo dos venenos, arte de que me tenho servido com êxito para rebentar diversas ratazanas”.

É claro que, por esses anos, também existia uma criada, empregada na casa de um fidalgo, que morava mesmo por cima da farmácia e lhe consolava as tristezas enviando “mimos de cabelo” e confessando, através da frincha da porta, que, coitada, “nunca encontrara um amor de rapaz mais dedicado”. A paixão evaporou-se quando a rapariga resolveu pagar a dedicação de Fialho indo “viver com um barbeiro do largo do Mitelo, homem frascário e fácil, quase trôpego, que acumulava o mister capilar com esse outro, não menos untuoso, de ajudar à missa o padre da Bemposta”.

Durante esse período – igualmente gasto “a percorrer todos os lugares comuns dos escritores nacionais, e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria, para os jornais de província” – passou pelo Liceu Francês e pela Escola Politécnica, matriculando-se em 1879 na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, de onde saiu formado em 1885. “Como vivi todo esse tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, dalguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando, à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidosos, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos”.

Concluídos os estudos, só esporadicamente exerceu medicina, primeiro na Pampilhosa, depois no Alentejo, entre 1886 e 1887. “O escritor tratou de cedo enforcar o médico”, frisa Cruz Malpique num texto publicado em 1957. Acaba por se fixar em Lisboa. “Cometi a tolice de me lançar na vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho”. Integra a redação de diversos jornais e revistas, dedicando boa parte do tempo à “comédia da vida lisboeta”, passada entre restaurantes, tabacarias, teatros e cavaqueiras de cafés. “Gastava [nesses locais] a melhor parte da sua vida, quase sempre representando os primeiros papéis, embora soubesse como eram frágeis as dedicações de muitos que o adulavam”, escreve Xavier de Almeida, amigo e “irmão de sonhos” de Fialho.

Em 1893 abandona Lisboa e regressa ao Alentejo, a Cuba, para casar com Emília Garcia Pego, senhora de posses, que viria a falecer no ano seguinte deixando-lhe a herança. Torna-se um pequeno proprietário rural, passa a viver de forma desafogada mas sem, verdadeiramente, se habituar à vida provinciana: “É horrível a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. (…) Ah, mas as noites!…Tenho noites em que pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à roda toda a noite a falar sozinho como um condenado”, desabafa Fialho numa carta endereçada a Raul Brandão.

Aproveita o dinheiro para viajar pela Europa, sobretudo por Espanha [visita Salamanca e Valladolid em 1901; a Galiza dois anos depois, retornando mais duas vezes], mas também pela Suíça, Bélgica, Alemanha e França – Paris, pois claro. “Fascinou-o a vida estonteante dos boulevards centrais (…) mas sentia saudades da nossa feira de agosto”, conta Xavier de Almeida, que relata um episódio vivido uma tarde, na avenida da Ópera, quando viu passar um carrinho de mão carregado de bananas da Madeira e, ali mesmo, “com uma simplicidade de gente primitiva, por entre a multidão que passava, matava saudades da Pátria à dentada nos saborosos frutos”.

Publicou em vida nove títulos: “Contos” (1881), “A Cidade do Vício” (1882), “Os Gatos” (1889-1894), “Pasquinadas” (1890), “Lisboa Galante” (1890), “Vida Irónica” (1892), “O País das Uvas” (1893), “Madona de Corpo Santo” (1896) e “À Esquina” (1900), além de numerosos artigos e crónicas em variados jornais e revistas. Os restantes oito títulos só seriam publicados depois da sua morte: “Barbear, Pentear”; “Aves Migradoras”, “Vida Errante”; “Figuras de Destaque”; “Estâncias d’Arte e de Saudade”; “Atores e Autores”; “Saibam Quantos…” e “Cadernos de Viagem”.

“Franco-atirador, Fialho de Almeida poucas vezes esteve de acordo com o poder de Estado, e revelou sempre uma teimosa vocação para estar do lado dos vencidos. O que mais nos impressiona neste artista sonhador, que não oculta e antes proclama com orgulho a sua origem plebeia, é o seu grande amor pelos desprotegidos, a sua natural predileção pelos humildes, a feição fraternal e protetora dos pobres e oprimidos”, sublinha Joaquim Palminha da Silva (“Fialho de Almeida, Cem Anos Depois”, Editora Licorne).

Lisboa, o campo e os países que visitou são, na opinião de Inês Rodrigues, os “espaços privilegiados” na obra de Fialho de Almeida. “De Lisboa e das suas gentes traça um cenário tenebroso, repleto de máscaras carnavalescas, pintado a corres garridas – uma mistura de símbolos vivos e caricaturas grotescas, ao serviço da sátira social”. Atente-se, por exemplo, no texto “A Piolheira de Lisboa”: “Assim, estão gritando que nos falta um Jardim Zoológico. Que vem então a ser a capital? Em que trecho da Austrália cabriolam macacos como em S. Bento; em que solidões africanas há os leões da Havaneza, e aves de penas variadas como por essas redações?”. Na sua tese de mestrado sobre a obra de Fialho de Almeida, Inês Rodrigues elenca uma galeria de personagens “consagrada ao grotesco” que passa por um vincado anticlericalismo mas também “pela prostituição, pelo alcoolismo, pela tragédia do lar e o bairro infetado de doenças, pelo impulso sexual feminino e todo o tipo de degradação humana que vislumbra na capital”.

Óscar Lopes (“Entre Fialho e Nemésio”, INCM) é ainda mais assertivo: “O narrador não perde o ensejo de acumular episódios ou quadros degradantes da taberna, cemitério, necrofilia, sedução, lenocínio, prostituição, degenerescência sifilítica e alcoólica, infância faminta, prisão, tragédia de lar e bairro infeto, tísica ao desamparo, agonia no hospital, drama macabro de necrotério, grosseria de cangalheiro e coveiro, enterro miserável sob a chuva”. Veja-se, por exemplo, o conto “Três Cadáveres”, onde uma agonizante Marta é confrontada com a sordidez da pós-morte no hospital: “Uma doente, mesmo, pôs-se a descrever às outras a casa das autópsias, com as cinco mesas côncavas de pedra, homens arregaçados esquartejando cadáveres, de charuto na boca e a irreverência dos moços violando as defuntas com as ponteiras das bengalas”.

Em “O País das Uvas”, onde reúne um conjunto de 20 contos, não deixa de tecer duras críticas à estrutura social e fundiária do Alentejo, dominada pelos grandes latifúndios, pertencentes “a dez ou doze nababos que vivem nos grandes centros, indiferentes ao cultivo, e empenhados somente em receber num prazo fixo o dinheiro das rendas, para a sustentação das suas prodigalidades e magnificências”. Mas o alvo maior da sua crítica é, sobretudo, o “propiatairo”, definido como “o desfrutador do trabalho alheio, o egoísta sórdido, o avarento porco que entesoira em moedas de cobre o remanescente das suas privações quotidianas, explorando as desgraças, os descuidos e a boa-fé dos incautos”.

Na obra ficcional do escritor, assinala José Costa Ideias (“O Fantástico em Fialho de Almeida e Jean Lorrain – Pessimismo e Decandentismo Finisseculares”, trabalho de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa), o espaço campesino e o citadino estão “irremediavelmente contaminados pelo campo lexical da patologia e de uma sintaxe imagética polarizada pelo sofrimento, pela desagregação e pela pulsão de morte. Estas, tanto denotam a morbidez individual como conotam a decadência social e moral que não poupa nenhuma das classes sociais”.

Numa autobiografia publicada na “Revista Ilustrada” (1892), aos 35 anos de idade, Fialho de Almeida diz que os seus contemporâneos o veem como um homem com reputação de “desequilibrado indolente” e “colérico”, o que será explicável pela sua forma peculiar de trajar – “cinta vermelha, chapéu desabado e de jaleca e calça verde-gaio” – mas, sobretudo, pelo seu temperamento. “Discutia e revoltava-se contra as vigentes formas de poder, investindo contra todos aqueles que divergiam dos seus pontos de vista”, escreve Lilian Vieira (“A Imaginação Grotesca na Prosa de Fialho de Almeida”, 2008), insistindo na atitude “pouco social” reconhecida pelo escritor, fruto de uma “desilusão sinistra de tudo e de todos”. Daí ter sido um crítico feroz da monarquia, mas também da república. Paladino das instituições republicanas, reconciliar-se-ia com a monarquia depois de um encontro com João Franco, um dos políticos dominantes da fase final da monarquia constitucional portuguesa, presidente do conselho – o equivalente a primeiro-ministro – entre 1906 e 1908, durante o reinado de D. Carlos.

Não poupou os caminhos trilhados pelos dirigentes republicanos e, em vida, pagou “o preço desta heterodoxia”, na expressão da professora universitária Isabel Cristina Mateus (“Público”, 2007). A amizade de Manuel Teixeira Gomes, seu amigo de juventude e companheiro de jornais, foi decisiva para evitar a sua expulsão do país. “A hipótese de suicídio que continua a envolver as circunstâncias da sua morte parece indissociável deste silenciamento ou homicídio simbólico cujas consequências ainda hoje se fazem sentir”, acrescenta a investigadora. Fialho de Almeida morreu a 4 de março de 1911 na sua casa em Cuba, hoje transformada em museu.

“Deus fez o crítico à semelhança do gato”

Foi em 1889 – faz pouco mais 120 anos – que o editor portuense Alcino Aranha, seduzido pelo êxito obtido pelas “Farpas”, de Ramalho Ortigão, e pelo estilo satírico de Fialho de Almeida, propôs ao escritor alentejano a publicação de uma crónica mensal sobre a vida portuguesa. Investigadora da Hemeroteca de Lisboa, Rita Correia lembra que Portugal vivia ainda nessa altura um período de forte agitação social e política na sequência do Ultimatum inglês de 1890. “Fialho de Almeida não se fez rogado e, em agosto desse ano, o público foi confrontado com o primeiro fascículo d’ “Os Gatos”. A aposta editorial não falhou: nem na oportunidade nem na qualidade.

O sucesso foi de tal monta que, pouco tempo depois, a publicação adquiria um ritmo semanal”. Explicou Fialho: “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, refletido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. — Um pouco lambareiro talvez perante as belas coisas, e um quási nada cético perante as coisas consagradas; achando a quási todos os deuses pés de barro, ventre de jiboia a quási todos os homens, e a quási todos os tribunais, portas travessas”.

Até janeiro de 1894 haveriam de ser publicadas dezenas de crónicas, posteriormente reunidas numa edição de seis volumes em livro, “hoje considerada como de importância fulcral para o conhecimento da história e dos costumes do final do século XIX dada a forma irónica, mas também precisa, como Fialho de Almeida retrata a sociedade da época. Com “Os Gatos”, Fialho de Almeida resgatou definitivamente do público e dos seus pares o título de panfletário maior da literatura portuguesa. Um mimo obtido à custa de arranhões profundos, donde jorrava o sangue, quando não até mesmo o pus resultante da infeção de muitas das suas relações”, conclui Rita Correia.

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