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Fecharam 816 escolas no Alentejo, nos últimos 20 anos

Margarida Maneta texto | Gonçalo Figueiredo foto

Como diria António Guterres: é fazer as contas. No ano letivo 1999/2000 existiam no Alentejo 1530 estabelecimentos de ensino. Daí para cá o número diminuiu para cerca de metade. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, há agora 714 escolas. As outras 816 foram encerradas devido à falta de alunos.

No caso do Alentejo Central, o número de estabelecimentos de ensino passou de 317 para 168. Sendo que só na capital de distrito, Évora, foram encerradas 23 escolas. Em Estremoz foram 15. E no concelho de Alandroal fecharam outras 12. 

Para avaliar estes números, devem considerar-se “múltiplas dimensões e perspetivas”, começa por explicar ao Brados do Alentejo o doutorado em Ciências da Educação e professor na Universidade de Évora, Bravo Nico. “Na época em que ocorreu o momento mais significativo da alteração da rede escolar (na primeira década do presente século), verificou-se uma dinâmica com movimentos opostos: por um lado, encerraram-se escolas do primeiro ciclo do ensino básico de pequena dimensão e com poucos estudantes; por outro lado, foram criados novos centros escolares, com mais estudantes e com mais recursos, comparativamente às escolas que encerraram”, explana o professor universitário.

E acrescenta: “Naturalmente, que, para as localidades que perderam a sua escola básica, tal foi entendido como uma perda, porque se perdeu uma instituição pública e se obrigaram as crianças a um processo de mobilidade diário. Para as crianças que tiveram a oportunidade de frequentar uma escola com mais recursos e mais colegas, terá sido uma vantagem, porque a qualidade das aprendizagens foi superior”. 

A apreciação final do processo, nota Bravo Nico, aponta para uma rede escolar “distribuída pelo território de forma mais equilibrada”, com escolas que possuem “mais condições físicas e pedagógicas, com melhores recursos humanos” e agrupamentos que proporcionam “uma outra coordenada organizativa às escolas mais pequenas, normalmente localizadas nos territórios rurais”.

Na mesma linha de raciocínio, também João Grilo, presidente da Câmara de Alandroal, que acompanhou o processo de criação de centros escolares no concelho, acredita que esta alteração foi benéfica. 

“A escola não é só um processo de aquisição de conhecimentos. É também um processo de aquisição de competências, de socialização, de integração e, portanto, estas crianças estão hoje mais bem preparadas do que as que estavam isoladas, durante quatro anos, com mais dois ou três colegas e um professor. Por melhor que o professor tentasse fazer o seu trabalho, estas crianças teriam um choque grande no momento em que passassem para uma escola maior, para frequentar o 2.º ciclo”, defende. 

Por isso, acredita João Grilo, esta experiência “tem sido positiva do ponto de vista da educação e dos resultados das crianças, da socialização, da oferta educativa, da concentração e otimização de recursos”. Especialmente por considerar que a rede escolar que vinha do século anterior, o século XX, “deu um conjunto de respostas enquanto os objetivos da educação eram só assegurar a escolaridade básica até ao 4.º ano e na altura em que havia muitas crianças em pequenas aldeias”, já não se revelando “resposta para o século XXI”. 

Ainda assim, não deixa de sublinhar o autarca alandroalense, estes dados “podem ser mau sinal no sentido em que há uma redução acentuada da população que leva a que haja poucas crianças e que não se justifique haver escolas abertas em todo o lado”. 

Em contrapartida, João Grilo não acredita que só será apenas pelo encerramento de escolas que as pessoas deixem de viver nas aldeia. “Nós [autarquia] fazemos o transporte das crianças, mas se um pai tivesse que levar uma criança de uma aldeia para outra, demorava menos tempo do que a atravessar uma cidade. O fator que condiciona a presença das pessoas é a empregabilidade, são as oportunidades de emprego”. 

Esta construção de centros escolares foi feita, afirma Manuel Nobre, presidente do Sindicato dos Professores da Zona Sul, “à custa do abatimento de escolas de proximidade”. Segundo refere, “as comunidades foram definhando e perdendo população, isolando-se, porque ao se encerrarem vários serviços públicos, com a escola à cabeça, se enfrenta um problema”.  E com o encerramento de uma escola de proximidade, continua Manuel Nobre, “a comunidade perde-a, a escola desliga-se da comunidade, os próprios alunos também se afastam da comunidade e este é o remédio mais eficaz para agravar o despovoamento”.

É que ao encerramento das escolas de proximidade, enumera o presidente do Sindicato dos Professores da Zona Sul, está associada a necessidade de transporte entre “longas distâncias” numa região com “altas temperaturas”, implicando que os alunos “acordem mais cedo” e “cheguem a casa mais tarde”, reduzindo o tempo e concentração com que respondem aos trabalhos de casa e estudos.

Além de que, argumenta Manuel Nobre, considerando ”aquilo que era anunciado como vantagens, que eram as turmas mais pequenas, melhores e mais respostas às necessidades dos alunos, chegamos à conclusão que, em alguns casos, os alunos estavam melhor na escola que encerrou”. E exemplifica: “Anunciava-se que com os centros escolares não havia turmas de nível. Hoje encontramos já muitas turmas nos centros escolares com mais do que um nível”. Considerando tudo isto, já para não falar da alteração do “rácio de auxiliares por número de alunos”, defende, faria “todo o sentido”, considerando a faixa etária, manter as escolas de proximidade. “Estamos a falar, de crianças que se levantavam meia hora antes de iniciar as aulas e a quem os familiares iam levar o lanche no intervalo”. 

O presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Sádio, também ouvido a este respeito, acredita que “um desafio grande, na próxima década, é o de inverter o ciclo de perda de população ao criar condições em várias áreas para fixar os jovens”. Especialmente se se considerar que o encerramento consecutivo de várias escolas no país é “consequência direta da desertificação do interior”, problema de que “Estremoz também sofre”. 

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