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Estudo. “Consumos de álcool começam pelos 12 anos”

Margarida Maneta e Ana Luísa Delgado texto

É aos 12 anos que muitos jovem iniciam “os primeiros contactos” com o álcool. Entre os 12 e os 14 anos, cerca de 40 por cento dos jovens afirmam já ter consumido álcool. E destes, cerca de 20 por cento garante fazê-lo com regularidade.

Os números, conforme divulgado pelo Brados, constam de um estudo elaborado pelo Alenriscos – Observatório dos Consumos no Alentejo. Foram validados 10.150 inquéritos a alunos do 7.º ao 9º ano de escolaridade. E as conclusões são preocupantes.

“Os primeiros contactos com o álcool começam por volta dos 12 anos. E isto é uma idade tremendamente precoce e perigosa. O álcool é o grande contacto destes jovens. Também há contacto com outras drogas, mas o álcool é o que está mais à mão e que é socialmente mais aceite. É aquele que, por vezes, inclusivamente do ponto de vista social e sociofamiliar, é incentivado. Este é o grande problema”, diz Manuel José Lopes, investigador da Universidade de Évora e responsável pelo Observatório.

“É preocupante que jovens com tão tenra idade já consumam álcool por vezes de uma forma tão intensa”, sublinha, explicando que “quanto mais precoce” for o contacto com o álcool, maior é o efeito sob o sistema nervoso central, ainda em desenvolvimento nessas idades, uma fase da adolescência em que a “capacidade enzimática do organismo para metabolizar o álcool” está muito reduzida. Ou seja, “o organismo não tem muita capacidade para metabolizar o álcool e então é tóxico”. 

Por outro lado, os consumos tendem a “aumentar” à medida que a idade avança. E, também por norma, tendem a surgir outros tipos de consumos. “Quem consome álcool também fuma, também é capaz de consumir outras drogas. Há aqui uma associação que pode ser perigosa”, refere Manuel José Lopes, acrescentando que o estudo do Observatório dos Consumos no Alentejo permitiu confirmar a inexistência de “qualquer diferença” nos consumos entre rapazes e raparigas. 

“Há uma paridade particularmente perigosa”, explica, pois “a quantidade de álcool que para as mulheres é tóxica é inferior à quantidade de álcool que para os homens é tóxica porque as mulheres têm menos massa muscular, logo, têm uma forma diferente de se calcular a toxicidade para homens e para mulheres. Se consomem em quantidades iguais, está a ser mais nocivo para as mulheres”. 

Os dados recolhidos apontam ainda para a existência de uma correlação entre consumo de álcool e rendimento escolar. “O rendimento escolar é mais baixo entre quem consome”. 

“É fácil perceber que grande parte destes jovens inicia a sua experimentação em contexto familiar, o que me deixa profundamente preocupado. A família surge num contexto de grande tolerância em termos da experimentação de álcool. Há uma cultura de grande permissividade no que toca ao consumo de substâncias com enfoque no tabaco, no álcool e ultimamente temos estado a notar também na canábis”, acrescenta Paulo de Jesus, membro do Observatório e coordenador do Centro de Respostas Integradas (CRI) do Alentejo Central. 

Sublinhando a “transversalidade” dos problemas associados ao álcool, a nível de violência doméstica, acidentes rodoviários, comportamentos sexuais de risco ou experimentação de outras substâncias, Paulo de Jesus diz perceber-se “o quão danoso é o consumo abusivo de álcool. E é isto que ainda estamos a dizer à comunidade e que ainda não está a surtir os efeitos que queríamos”. 

O questionário foi aplicado ‘online’ a todas as escolas d região Alentejo e  todos os alunos do 7.º ao 9.º ano de escolaridade. “Não respondem por igual em todas as escolas, tem de haver um trabalho de incentivo sistemático para que as escolas adiram”, explica Manuel José Lopes. 

Os resultados são depois trabalhados no sentido de se obter um retrato tão exato quanto possível “dos consumos de álcool, tabaco e outros tipos de drogas”, como haxixe, cocaína ou metanfetaminas. “Perguntamos se no último ano, mês e semana consumiu e com que frequência. Depois se consumiu sozinho ou em grupo. Além disso, queremos saber como são as notas, qual a relação com os pais, que tipo de família têm e que outro tipo de comportamentos de risco, como a condução sobre o efeito de álcool e comportamentos agressivos”.

Os promotores do estudo lembram que o consumo de substâncias psicoativas e os comportamentos aditivos no contexto escolar, “constituem hoje um sério problema de saúde pública”, sendo a comunidade educativa “confrontada com enormes desafios no sentido do desenvolvimento de uma resposta única, integrada e pragmática para um fenómeno em constante evolução”. Sendo as escolas “essenciais na criação de dinâmicas preventivas no que toca ao uso e abuso das substâncias psicoativas”, pois é nas salas de aulas e nos vários contextos escolares “que as crianças crescem e os jovens amadurecem”, um conhecimento profundo destas realidades constitui “deverá constituir uma prioridade” para “perceber se os jovens são capazes de enfrentar os riscos e os desafios dos vários cenários por onde se movimentam”.

“ESTRUTURA OBSERVACIONAL PERMANENTE PARA CONSUMOS DOS JOVENS”

Segundo Manuel José Lopes, o projeto partiu da Universidade de Évora, que desafiou diversos parceiros nas áreas da saúde e da educação a associarem-se ao Observatório. “Estávamos interessados que este projeto trabalhasse com jovens muito jovens, logo a começar no 7.º ano, e depois que repetisse no 9.º ano. Fazemos isto todos os anos. O Alentejo passou a dispor de uma estrutura observacional permanente para consumos dos jovens”. O objetivo agora é “ampliar o foco”, primeiro para o ensino secundário, depois para o superior. “O álcool é uma droga socialmente aceite e, por vezes, até incentivada pela família. E como sabemos que quando mais cedo se começar, mais complicações pode trazer, estávamos interessados em começar o mais próximo possível da experiência para perceber como é que as coisas acontecem. O enquadramento foi este e os resultados não servem apenas para publicar, servem para os devolver às estruturas envolvidas, nomeadamente, aos serviços de saúde e escolas, no sentido de perceberem o que é que se lá passa, sendo que, obviamente, os dados que lá temos são anónimos”, refere.

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