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Estremoz: 35 milhões “não resolvem” problema da água

Ana Luísa Delgado e Margarida Maneta texto | Gonçalo Figueiredo foto

Estremoz é o quarto município do país com maior desperdício de água. Todos os anos perdem-se quase 1,2 milhões de metros cúbicos. A EPAL está a fazer o levantamento das necessidades de investimento para resolver o problema. Mas o vereador Luís Pardal, da Câmara de Estremoz, avisa que 35 milhões de euros não deverão chegar.

Há mais de dois meses que a Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL) está a fazer o diagnóstico do que será necessário substituir na rede de abastecimento a Estremoz para resolver o problema do desperdício de água. “Será basicamente tudo”, diz o presidente da Câmara, José Daniel Sádio, segundo o qual “neste momento os serviços [municipais] estão perto da exaustão, trabalhando a equipa das roturas de domingo a domingo, de manhã à noite”, com dezenas de roturas por semana.

Só depois desse diagnóstico será possível quantificar o valor exato do investimento. Mas, a crer nas contas do vereador Luís Pardal, 35 milhões de euros poderão ser insuficientes. “Todo o dinheiro que foi alocado pelo Plano de Recuperação e Resiliência para o Algarve, para [fazer face à] questão das perdas de água, foi 35 milhões de euros. Só para o Concelho de Estremoz, grosso modo e por aquilo que têm sido as conversas, precisam[os] mais do que isso”, explicou Luís Pardal em reunião de Câmara. 

“Acreditar que Estremoz vai conseguir, pelo próprio Município, ter esta quantidade de valor de apoios e conseguir candidatar é irreal”, acrescentou Luís Pardal, referindo que “mesmo que por milagre” se conseguisse reunir toda esta verba em termos de fundos comunitários, “isto implicaria que na próxima década o Município de Estremoz não faria mais nada a não ser reparar redes de água”.

A situação tem-se arrastado desde há décadas e, hoje, “é o problema mais grave que temos em Estremoz”, reconhece José Daniel Sádio. “O sistema está num estado, ainda que eu quisesse arranjar um adjetivo simpático… miserável”. Todos os dias, cada ramal “perde” 339 litros de água. Anualmente são cerca de 1,2 milhões de metros cúbicos.

“Temos consciência que há roturas de água que estão ali dias e semanas, mas dada a emergência do dia-a-dia” não se consegue resolver no imediato. E justifica: “Estamos num estado em que, por vezes as pessoas reclamam e com razão, porque veem uma rotura, mas é uma pequena rotura micro e a Câmara não consegue ir lá porque tem de dar resposta a problemas mais graves que colocam em causa o abastecimento noutras zonas”. Se ao longo das últimas décadas “tivéssemos aproveitado os quadros comunitários, feito a reparação e a manutenção da rede de distribuição”, hoje Estremoz não perderia mais de 70% da água que distribui.

Sónia Ramos, vereadora da Coligação Estremoz com Futuro, liderada pelo PSD, considera tratar-se de uma situação “inadmissível”, especialmente em tempos de seca. “Tenho acompanhado esta situação com grande preocupação, como todos os estremocenses. A questão da distribuição da água e da rede de abastecimento público não é nova. É uma rede com décadas e [com] muitos problemas que, por razões óbvias, é difícil a sua manutenção integral e é cara. Há mais de 12 anos que se tenta encontrar soluções para o reforço da rede e para o seu financiamento”, relembra a vereadora.

“A culpa não é individualizada, é uma situação que se arrasta e que nunca foi resolvida”, entende Sónia Ramos, apontando para os problemas que esta questão traz ao nível individual e coletivo. “É um problema não só do ponto de vista do consumidor singular, mas também do ponto de vista do investidor. Quem quer abrir uma unidade industrial ou um comércio pensa duas vezes, esta é uma situação que estará também a condicionar o aumento do investimento em Estremoz”.

Reconhecendo que não se trata de uma “matéria fácil, nem que se possa decidir de forma leviana”, a vereadora social-democrata adverte que é um “problema fulcral do concelho, o primeiro que tem de ser resolvido” e, por isso, diz “aguardar” que o Executivo autárquico “traga uma solução concreta do ponto de vista técnico e financeiro”. 

Em reunião de Câmara, José Daniel Sádio garantiu que depois de conhecido o diagnóstico que está a ser elaborado pela EPAL, designadamente no que diz respeito às necessidades de investimento, será “preparado um modelo de negócio” que será discutido na Câmara e na Assembleia Municipal para, “de uma vez por todas”, se encontrar “uma solução” para os problemas de abastecimento de água e de saneamento.

Ainda segundo o autarca, sobre a mesa estarão três hipóteses. Uma que é “nada fazer”, e que classifica de “inaceitável”. Outra que passa por entregar a água a privados – hipótese que, garante, “nunca defendeu nem irá apresentar” pois trata-se de um “investimento caro” que terá custos acrescidos para o município. E uma terceira hipótese que será “tentar, dentro da esfera pública e à semelhança do que fez a esmagadora maioria dos municípios, encontrar uma solução que resolva o problema de vez e que seja possível de comportar em termos orçamentais para todos, para o município e para os munícipes, sendo isso que está a ser feito”. 

“Questão deve ser tratada com urgência”

José Salema, vereador do Movimento Independente por Estremoz (MiETZ) diz que o problema das perdas de água e das constantes roturas na rede “terá de ser resolvido e tratado com atenção e urgência, desde logo porque a água é um bem essencial a que todos temos direito”. José Salema concorda com a necessidade de “haver o envolvimento do Governo central” para a resolução do problema, isto porque os municípios “com os meios que têm, não conseguem fazer face a investimentos que envolvem verbas gigantescas”.

Em reunião de Câmara, o vereador Nuno Rato, também do MiETZ, recordou tratar-se de uma questão que “veio plasmada nos programas eleitorais das diversas forças que se candidataram” nas últimas autárquicas, mas negou que nada tivesse sido feito nos últimos anos, recordando a construção da ETAR de Estremoz, e investimentos em S. Bento do Cortiço e nos Arcos, entre outros.

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