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Esperança de vida no Alentejo é a mais baixa do país

A esperança de vida no Alentejo é de 80 anos, a mais baixa de Portugal continental. Os hábitos de vida, as ondas de calor e o “deserto” médico, contribuem para agravar o “fosso” em relação à média nacional.

Júlia Serrão (texto)

A esperança de vida à nascença, no Alentejo, no triénio 2020-2022, foi estimada em 80,09 anos, sendo de 77,04 para os homens e de 82,96 para as mulheres, revela o Instituto Nacional de Estatística (INE). A esperança média de vida na região, aos 65 anos, foi calculada em 19,17 anos. Os valores registados no Alentejo são dos mais baixos do país, apenas ultrapassados pelos Açores e Madeira. Segundo o INE, cada alentejano vive menos um ano que a média nacional. Pior. A esperança de vida no Alentejo “não só é das mais baixas do país como têm vindo a agravar-se”, observa Marcos Olímpio, a partir de informação disponibilizada pelo INE e pela base de dados Pordata.

O sociólogo e investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade de Évora explica que a diferença do Alentejo para a média nacional, no que diz respeito à esperança de vida à nascença, era de aproximadamente nove meses e 18 dias em 2008/10, passando para 11 meses e 23 dias em 2020/22. Ou seja, agravou-se em cerca de dois meses e cinco dias. 

Já o cardiologista Manuel Carrageta diz que seria necessária mais informação e “uma análise mais cuidada” para explicar as razões da existência de uma menor esperança de vida no Alentejo. Ainda assim, refere que “maiores níveis de pobreza têm grande influência na longevidade”, sendo que o contributo do “estilo de vida, que compreende a alimentação, a atividade física, o tabagismo e o alcoolismo” constitui “outro fator fundamental”.  

A que acresce o clima. “As ondas de calor têm ocorrido, nos últimos anos, de forma mais pronunciada no Alentejo, podendo estar associadas a aumentos da mortalidade prematura”, acrescenta Manuel Carrageta, também presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, criticando ainda a resposta dos serviços de saúde: “A espécie de deserto médico que se verifica em algumas regiões do Alentejo terá certamente as suas consequências”.

Para Marcos Olímpio, outra das explicações estará na elevada taxa de mortalidade devido a doenças do aparelho circulatório (27,4% do total no Alentejo e 25,8% do total em Portugal continental, em 2021) e na incidência de diabetes (3,5% no Alentejo face a 2,8% na média nacional). Sendo que fatores como a dificuldade no acesso da população idosa a serviços de saúde e na aquisição de medicamentos contribuem igualmente para estes resultados. 

O investigador aponta, por exemplo, a “vulnerabilidade de alguns segmentos da população alentejana” manifestada durante a pandemia de covid-19 e traduzida nas percentagens da mortalidade: “A média em Portugal continental foi de 124,5 mortes por cada 100 mil habitantes, mas no Alentejo foi de 184,4, a mais elevada do país”. 

Dentro da própria região há diferença. No Baixo Alentejo, a esperança média de vida é ainda mais baixa que a média regional: 78,30 anos, menos dois que no Alentejo Central. De acordo com Marcos Olímpio, há “fatores explicativos” como condições socioeconómicas desfavoráveis, dificuldade no acesso a serviços de saúde e ambiente físico agressivo, mas seria importante esmiuçar as diferenças regionais e “atender à mortalidade por idades e respetivas causas, associadas sobretudo a doenças cardiovasculares, cancro, diabetes e outros tipos de mortes evitáveis antes dos 65 anos”.

Embora a diferença face à média nacional tenha vindo a agravar-se, a esperança de vida aumentou no Alentejo, tendo passado de 78,58 anos no triénio 2018/20 para 80,09 anos em 2020/22.

Marcos Olímpio indica que até 2031 podem perspetivar-se três tendências de evolução: uma de “desagravamento de discrepâncias”, outra de “agravamento” e uma terceira de “continuidade assimétrica”. Se, no primeiro caso, “que implica um rápido e consistente desanuviamento do contexto internacional e assinaláveis melhorias no contexto nacional”, a diferença poderia esbater-se, no último, “[com] um contexto internacional desfavorável e um nacional ainda adverso”, as projeções indicam que se manteria o “fosso” entre a esperança de vida no Alentejo e a média nacional.

Para qualquer dos cenários, nota que é muito possível que se mantenham de igual modo as tendências observadas na região, com “prováveis posições desfavoráveis do Alto Alentejo e do Baixo Alentejo”.

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