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“De Maneira que é Claro”. O Alentejo de Mário de Carvalho

Luís Godinho | Texto

É Mário de Carvalho que nos revela ter sido criado em casas com marquises. “A mais antiga, de vidros transparentes, dava para as traseiras de prédios altos e permitia-me fazer momices aos adolescentes engravatados, de uma varanda lá muito no cimo, que se agitavam em maré de baile ou festança”. Cresceu em casas com marquises, na grande cidade, Lisboa, mas as férias, essas, eram passadas em Alvalade do Sado, ora na casa de uma avó (na vila), ora na casa da outra (no monte), ou até na de outros familiares.

“Alvalade-Sado, Setúbal, Lisboa. Vim nascer à Maternidade Alfredo da Costa, fui logo recambiado para Alvalade, depois vivemos uns tempos (poucos) em Setúbal e, finalmente, Lisboa”. Dessa vivência em Lisboa – da infância aos anos de escola e da Faculdade de Direito, dos jogos de xadrez para escapar ao “hop, dois, esquerda, direito, firmecê-op” da Mocidade Portuguesa, da militância no PCP à fuga “a salto” para França, e depois para a Suécia, da prisão pela PIDE a “controleiro” da “célula” dos escritores – outros a destacarão com mais propriedade.

No que ao nosso caso interessa, centremo-nos pois em Alvalade do Sado, e nas memórias evocadas pelo escritor em “De maneira que é claro…”, o seu novo livro, publicado pela Porto Editora. São cerca de 200 páginas de relances breves, aleatórios, reminiscências evocadas entre lacunas e ao correr da pena, mas que a memória do autor quis preservar.

Refere Mário de Carvalho: “Sexo e mulheres, transmutados, vigorarão noutras paragens. Epifanias não surgem. Artistas podem dormir descansados. Também as retóricas, por aqui, rareiam. Um ou outro telhado de vidro”. Como esse contado na página 55. “Passei mais tempo em Alvalade do que era habitual. Na vila, não no monte. Não sei por que razões. Coisas de meus pais. Era tempo de aulas, eu ainda não andava na primária, mas já sabia ler. Puseram-me na escola da dona Inês, que ficava ao fundo da rua. Escola particular, mas muito modesta. As quatro classes ensinadas em simultâneo”.

Até aqui, nada de especial. Como eram absolutamente banais as “cadeirinhas de palhinha” em que os alunos se sentavam, os bibes que usavam ou a ardósia em que escreviam: “Cada qual tinha uma ardósia, maior ou menor, nos joelhos e uma pena de giz duro especial para escrever na pedra”. Em caso de erro, ou de má caligrafia, “apagava-se com curso e limpava-se à manga”.

Tudo normal, portanto. O pior é que houve um dia em que desabou uma trovoada “de alto de lá com ela”. Trovões secos, paredes a abanar, “agitação entre a miudagem”, e depois… depois, de repente, “o maior estrondo do mundo”. O resto conta Mário de Carvalho em poucas palavras: “Abro a porta e corro desalvorado, não sei se larguei o material ou não. Sei é que, durante muito tempo, este gesto de absoluta apetência pela avó foi comentado na família com algum sarcasmo”.

E como era a vila nesse início da década de 50 do século passado? “Era outro mundo, porventura ainda do século XIX. Limpeza? Sim, a tradicional limpeza alentejana da cal. Mas as ruas e praças estavam uma lástima, com restos de calçada do tempo dos romanos, ou de ainda antes”.

As brincadeiras dos miúdos – “cabriolávamos por aquelas ruas, à vontade e sem riscos” – eram por vezes interrompidas, lembra o autor, pelo “dolente, espaçado, soturno, dobre do sino, com uma única nota, às vezes duas, repetida (parecia-nos) durante horas a fio”. O “dobrar” dos sinos, ou toque de finados, por ali chamado de “sinais”, lembrava a morte. “A nós, miúdos, ia-nos repassando, de badalada em badalada, um omnipresente ressoo de mistério, o seu tanto ameaçador. Entoava nas paredes das casas, encerrava as ruas e, mesmo dentro de portas, ia marcando, acudo e pausado, o ritmo da morte”.

Ao longo do livro, são várias as referências a essa vivência alentejana. No capítulo 6, “O violino e o banjo”, recorda um velho violino que “tinha servido, em tempos remotos, para tocar ‘O Alecrim’ e ‘A Carvoeirinha’ nos confins do Alentejo, aulas do padre-mestre”, a que as gerações futuras, incluindo a sua, não quiseram perturbar o descanso. No capítulo 9, “Espingardas na parede”, conta a história de um tio – “um recolhido homem, pequeno e pacatíssimo, uma bondade de pessoa, que chegou a atirar-se ao Sado furioso, sem saber nadar, para salvar um cão” – e que, na época de caça, aparecia “de arma em bandoleira, o cinto carregado de esbeltas aves, de cabeça para baixo, a dar e dar”.

Por esse tempo, os “grupos de moços” de Alvalade do Sado, “calção roto e pé descalço”, não perdiam a oportunidade de acompanhar a chegada de um carro com gritos e correrias. Era assim quando Mário de Carvalho, levado pelos pais, chegava à vila. “À porta de casa, velha porta de postigo, corroída de ventos, calores, geadas e chuvas, lá esperava a minha avó, vestida de preto, as nãos estendidas sob o sorriso acolhedor”. Depois, bom depois nem tudo se passava de forma, propriamente, pacífica. “Não tardava, e enquanto os adultos cumpriam os cerimoniais, éramos nós rua afora, já na brincadeira, nem sempre pacífica, com os da terra. Eles andavam descalços, uma crosta negra, de compósita dureza, enformava-lhes a sola dos pés. E riam avonde da nossa pronúncia lisboeta”.

Romancista, contista e dramaturgo premiado com alguns dos mais prestigiados prémios literários portugueses (entre os quais os Grandes Prémios de Romance e Novela, Conto e Teatro da Associação Portuguesa de Escritores e o prémio do Pen Clube Português), Mário de Carvalho refere que as frequentes deslocações a Alvalade do Sado, onde tinha família, na própria vila e na herdade do Monte da Vinha, deixaram-lhe a viva memória desse Alentejo da infância. “E, bem assim, das situações de miséria e humilhação presenciadas nos tempos em que os camponeses trabalhavam de sol a sol e as forças policiais procediam como num país ocupado”.

A avó um dia mostrou-lhe um poço em que estiveram escondidos, dentro de um saco de lona, os livros de seu pai, na ocasião em que ele foi preso pela polícia política, ainda solteiro. Nessa altura, contaram-lhe mais tarde, o seu pai e os companheiros de prisão foram brutalmente espancados. É um episódio não relatado em “De maneira que é claro…”. Embora as referências ao pai sejam uma constante. Por exemplo, no capítulo 37 (“O dia em que levaram o meu pai”), no qual Mário de Carvalho recorda o momento da chegada a casa, pouco depois de a mãe lhe ter contado que o pai tinha sido preso pela polícia política: “Revolveram a casa de alto a baixo. Quando cheguei, ainda havia vestígios de gavetas escancaradas, roupa a assomar, papéis no chão”.

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