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De Hong Kong a Estremoz: A aventura de Howard Bilton

Nuno Mourinha e Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo foto

Aqui se conta como um empresário inglês descobriu em Hong Kong que queria fazer vinho de estilo australiano na Europa e acabou em Estremoz, a produzir vinho com um enólogo australiano.

Garante Howard Bilton que a sua “aventura” por Estremoz começou a ser pensada em Hong Kong, com um grupo de amigos, numa altura em que “ganhávamos algum dinheiro, devíamos desperdiçar algum e iniciar um projeto” na área dos vinhos. “Na verdade, o que poderíamos realmente perder?”, interroga, acrescentando que todos tinham presente o velho ditado segundo o qual a forma de fazer uma pequena fortuna no negócio do vinho é começar com uma grande fortuna.

Não sendo, propriamente, uma grande fortuna, cada um entrou com 100 mil dólares, qualquer coisa como 88 mil euros. Ou seja, 1,5 milhões de dólares [1,3 milhões de euros] para desenvolver o projeto de investimento. A questão estava em descobrir o local exato onde o fazer e, por essa altura, ainda Estremoz estava bem longe dos horizontes de Howard Bilton.

Além do mais, nenhum dos sócios tinha experiência com vinho. Traduzindo: “de bebê-lo sim, muita experiência”. De fazê-lo é que nem por isso. A “opção sensata”, diz o empresário ao Brados do Alentejo, seria concretizar o projeto algures no Rio Margaret, uma das mais importantes regiões vinícolas da Austrália. “Estava mais perto, a crescer, e fizeram-se pequenas adegas ‘boutique’ de grande qualidade”.

Visto a partir de Hong Kong, a opção australiana até poderia ser boa, não se desse o caso de a maioria dos sócios ser de origem europeia e querer trazer o negócio para o “velho” mundo dos vinhos. “Portanto, concluímos que teria de ser na Europa”. Primeiro problema: “Ninguém sabia nada sobre Itália”. Segundo: investir à séria em França ficaria, seguramente, bastante acima do orçamento de 1,3 milhões de euros. Sobravam Portugal e Espanha, países que Howard Bilton já conhecia, sobretudo Espanha, ou não tivesse vivido cinco anos em Gibraltar, onde fundou um grupo empresarial denominado Sovereign.

“Abri também um escritório no Algarve, para fazer trabalho fiscal, e eu vinha de seis em seis semanas, a conduzir desde Gibraltar e, nos velhos tempos, apanhava o ‘ferry’ em Ayamonte para chegar a Vila Real de Santo António… era uma espécie de porta flutuante com um motor de popa amarrado que uma vezes chegava ao outro lado do dia, outras vezes não chegava”, recorda.

Em resumo: o projeto nasceu em Hong Kong, de olhos postos nos vinhos australianos, vontade de o fazer na Europa, Itália e França fora da equação, Espanha e Portugal como opções viáveis. Estremoz ainda teria de esperar. “Já conhecia Portugal muito bem, decidimos fazê-lo aqui e pensei em contratar um enólogo australiano… pensei que seria viável pô-lo a viajar entre os dois países, a fazer as vindimas e a tratar do vinho. Este era o plano, depois liguei ao meu diretor-geral no Algarve e pedi-lhe para começar a procurar uma vinha que pudéssemos comprar”. Passados três meses, o tal diretor lá reconhece que a coisa não está fácil: afinal, a empresa é de consultoria fiscal e de vinhos, por surpreendente que possa parecer, não havia um conhecimento profundo, muito menos de vinhas ou de adegas. Ainda assim, tinha descoberto alguém que poderia ajudar.

Conta Howard Bilton: “Foi assim que voei para Lisboa e tomei o pequeno almoço num hotel com um cavalheiro que nunca tinha conhecido. Tivemos uma conversa. Perguntei quanto custaria uma operação vínica comercialmente viável, trocámos ideias e lá disse que estava a pensar contratar um enólogo australiano”. E é aí que se dá uma reviravolta surpreendente: o tal “cavalheiro” acaba por dizer que não só é australiano como também viticultor e que poderia estar interessado em dar uma ajuda à concretização do projeto. Trata-se de David Baverstock, uma referência da enologia em Portugal, depois de anos e anos ligado ao Esporão.

Negócio feito. Faltava encontrar uma vinha, primeiro, e depois o local onde desenvolver o projeto. Bem vistas as coisas, já vamos a caminho de Estremoz. “Durante os dois anos seguintes procurámos uma vinha, que normalmente trazia uma casa grande e a maioria do dinheiro ia para casa, o que nós não queríamos. Fizemos algumas ofertas, que não resultaram”. Quando tudo parecia perdido, já os amigos de Hong Kong demonstravam muito pouco interesse pelo projeto, Howard e David decidem avançar, comprar algumas uvas, pedir emprestada uma adega e fazer algum vinho. “Foi assim que começámos”. 

Saltamos essas primeiras produções, até à compra de sete hectares de uma vinha com cerca de 20 anos em Portalegre, com algumas das castas mais emblemáticas do Alentejo: Alicante Bouschet (por sinal introduzida na região em finais do século XIX pela família Reynolds), Trincadeira, Touriga Nacional, Aragonez e Syrah. Sobre a mesa ainda esteve a possibilidade de ficarem com uma antiga fábrica de cortiça em Portalegre, “uns armazéns maravilhosos”, mas logo perceberam estar na cidade errada: “Tornou-se evidente que não iríamos obter qualquer apoio”. Estávamos em 2017. E a opção seguinte foi procurar um espaço em Estremoz, não só por ser uma cidade muito ligada ao vinho, como pelo facto de se encontrar à beira da autoestrada.

“Vimos vários espaços, comecei a andar pela cidade, reparei neste edifício que tinha uma placa de venda e… bingo! O edifício era do banco, telefonámos para o banco e negociámos com eles”, resume Howard Bilton. O Howard’s Folley nascia assim em 2020, em plena pandemia, no antigo armazém de lãs do Grémio da Lavoura, situado na Rua Norton de Matos, em Estremoz, ali a dois passos da antiga estação ferroviária. “Sou um residente português, o meu filho Thomas também. Queremos ser bons vizinhos e ser bem recebidos. E para isso, temos de agir positivamente e tentar ajudar a cidade. Penso que estamos a fazer isso”, conclui o empresário

VINHOS E PETISCOS

Comecemos pelos vinhos. Há o Sonhador (entrada de gama), nas versões rosé, branco, Alvarinho e tinto. Segue-se o Howard’s Folley Reserva (branco e tinto, o rótulo mais antigo data de 2008). E depois algumas produções especiais, como um talha, denominado Três Ânforas. No restaurante, as propostas são variadas. O almoço do Brados com Howard Bilton fez-se com cabeça de xara, arroz preto de lagostins, cogumelos shitake com molho de soja, ovo e alho francês e kaitaki (camarão enrolado em massa kataifi, com molho de menta e servido sobre papel de arroz).

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