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De Évora ao Dubai e à China, a aventura de José Cabeça

Ana Luísa Delgado texto

Quando o entrevistámos, através do Whatsapp, estava em Itália, horas depois de ter competido nos Jogos Olímpicos de Inverno, disputados em Beijing, na China. José Cabeça apaixonou-se pelo esqui a ver televisão, em Évora, começou a treinar o denominado “estilo clássico” na Noruega e treina regularmente do Dubai. Por “estilo clássico” entenda-se um percurso de 15 quilómetros sobre a neve, que completou em 49 minutos e 15 segundos. Feitas as contas, foram mais 11 minutos que o finlandês Livo Niskanen, medalha de ouro. Se o resultado conta, diga-se de passagem que este foi um resultado “histórico” para o desporto nacional, uma vez que a melhor prestação portuguesa até agora, no que a provas masculinas diz respeito, tinha sido obtida em 2006, nos jogos de Turim, por Danny Silva, 94.º nesta especialidade.

“A minha prova correu bastante bem, tendo em conta as expectativas que levávamos e o tempo que tivemos para preparar a participação nos Jogos. Comecei a treinar este estilo apenas há dois meses, na Noruega. Até lá só tinha feito este estilo em provas e, como é óbvio, com algumas lacunas”, diz José Cabeça, entre sorrisos. Mais à séria, confessa que melhor seria difícil: “Não podia estar mais satisfeito com a minha prestação. Fui o penúltimo a partir com base no ‘ranking’, ou seja, apenas um atleta era pior do que eu. Isso demonstra bastante o nível destes Jogos Olímpicos. Pela primeira vez foi necessário fazer uma qualificação tão difícil, principalmente nos mundiais, o que retirou lugar a cerca de 30 atletas. Parti no número 98 e alcancei o 88.º lugar. Ou seja, consegui ganhar a 10 atletas que estavam acima de mim no ‘ranking’ mundial. Por isso, acho que foi bastante positivo”. 

E como é que um alentejano, de Évora, aparece na alta roda dos desportos de inverno? A explicação parece simples. “Esta ideia surgiu em 2018, enquanto assistia aos Jogos Olímpicos de Inverno na televisão. Achei que seria uma possibilidade tentar fazer este desporto que é tão exigente e que se adequa bastante às minhas características. Desde então foi tentar aprender o máximo e estudar a modalidade para conseguir evoluir o mais rápido possível”.

Começou por enviar um email à Federação Portuguesa de Desportos de Inverno a “pedir ajuda” para saber o que seria necessário para praticar esqui de fundo. “Queria representar Portugal nestes Jogos Olímpicos”. Praticante de karaté, futebol, natação e triatlo, José Cabeça licenciou-se em treino desportivo na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, integrada no Instituto Politécnico de Portalegre. A mãe ainda o questionou sobre a escolha – “oh filho, nós nem temos neve!” – mas a decisão estava tomada. Ainda que a viver num país com pouca neve, iniciou a prática de modalidade, e rapidamente conseguiu a qualificação para as olimpíadas: “Chego aos Jogos Olímpicos com cerca de cinco meses de neve em toda a minha vida, por isso, não podemos pensar que é muito porque não é. É muito pouco. E apenas dois meses com acompanhamento de um treinador, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Nestes dois meses fizemos algo incrível que nunca, de certeza absoluta, ninguém fez… foi uma evolução muito rápida. E eu cheguei aos Jogos Olímpicos com uma técnica bastante boa, até para alguém que esquia há cinco ou seis anos. Acho que foi bastante positivo nesse aspeto”. A primeira vez que esquiou foi em janeiro de 2020.

Nascido e criado em Évora, estudante universitário em Rio Maior, como é que José Cabeça acabou a praticar um desporto de neve no Dubai, o mais populoso dos Emirados Árabes Unidos, onde a temperatura média do ar oscila entre os 25 e os 40.º celsius, onde o verão é longo, escaldante, opressivo, árido, podendo ser registadas temperaturas de 63.º, muito superiores às de Évora e, até, da Amareleja? “Foi a forma que vi para tornar possível a minha prestação como atleta profissional porque, em termos monetários, estamos a falar de quantias muito elevadas e sem nenhum apoio financeiro é praticamente impossível”.

Traduzindo por miúdos: quando começou a esquiar aceitou ser personal trainer de uma pessoa que se tornou no seu patrocinador principal e “tornou possível” toda a preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno. Em plena pandemia de covid-19, co um par de esquis “partidos”, qualificou-se na Suíça para o Campeonato do Mundo de Esqui, disputado na Alemanha, onde conseguiu assegurar uma vaga na comitiva olímpica portuguesa.

A experiência na China, confessa, “foi incrível”, ou não se tratassem dos Jogos Olímpicos. “Foi a experiência mais incrível que tive na minha vida… até agora. Claro que foi um pouco dificultada por causa da pandemia, o que tornou as coisas muito mais restritas, tanto em termos de convivência com outros atletas, como pela obrigação de sermos testados todos os dias contra a covid-19. Foi como viver numa bolha, mas foi uma experiência incrível. Mesmo com todas estas restrições é possível conhecer bastantes atletas e trocar experiências, o que enriqueceu bastante a minha vida”.

Entrevistado em Itália, em “trânsito” para Lisboa, de onde seguiu para a sua Évora natal, José Cabeça assegurou que os próximos dias serão dedicados à família: “Já não estamos juntos há bastante tempo, vou aproveitar para celebrar todos estes acontecimentos que foram difíceis de alcançar”. Estar longe da família, confessa, é a “coroa” desta sua paixão pelos desportos de neves, um “sacrifício” que diz estar disposto a fazer, numa decisão que conta com o “apoio total” dos que o rodeiam. Da família e da própria Câmara Municipal de Évora que, ainda antes da sua participação nas olimpíadas de inverno, o homenageou numa sessão pública, reconhecendo que o desportista “tem vingado em várias modalidades, nomeadamente no triatlo e agora no esqui, sendo uma referência e um exemplo para a juventude do concelho”.

“Fiquei bastante orgulhoso pela minha cidade atribuir relevo à minha prestação e claro que ainda me motivou um pouco mais para conseguir melhorar e representar com a melhor prestação possível nestes Jogos Olímpicos”, acrescentou José Cabeça, revelando os seus projetos para os tempos mais próximos: “Vou voltar para o Dubai e o foco vai ser iniciar o trabalho relativo ao triatlo. Claro que agora, tendo o meu treinador de esqui, irei treinar bastante durante o ano para melhorar a técnica ao máximo possível. Mas as próximas provas irão ser de triatlo”. A ambição, essa, não é pequena: “Aprendi a esquiar sozinho, através da observação, e de muito roller skate nas variantes da Embraer e na estrada da Valeira, em Évora. Contudo, se quero progredir e um dia, quem sabe, ambicionar não só a simples presença numa competição mundial, mas sim os lugares de pódio tenho de evoluir”.

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