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Confraria quer ser “guardiã” do Boneco de Estremoz

Maria Antónia Zacarias texto

Voltar a colocar o Boneco de Estremoz no circuito das feiras e mostras de artesanato do país e do mundo é um dos principais objetivos da nova Confraria do Boneco de Estremoz, constituída cinco anos após o reconhecimento do Figurado em Barro como Património Imaterial da Humanidade.

O colecionador Alexandre Correia, conhecido pelas suas figuras de Santo António, é o Grão-Mestre e afirma que a valorização do saber fazer deste figurado e dos barristas deve envolver toda a sociedade civil, sobretudo porque os Bonecos de Estremoz são “únicos”. Mas vai mais além, considerando de extrema importância o estabelecimento de intercâmbios culturais com outros tipos de artesanato existentes, mostrando que esta arte está unida e deve ser “preservada” como identidade cultural de um povo. 

“O principal objetivo da Confraria do Boneco de Estremoz é a sociedade civil dizer também que está presente e não deixar apenas para as entidades públicas essa responsabilidade. Por isso, pretendemos divulgar este nosso património que está reconhecido pela UNESCO”, afirma o grão-mestre. Contudo, há uma questão sobre a qual importa pensar e que diz respeito à lei da oferta e da procura. Isto é, a procura é superior à oferta, uma vez que os artesãos trabalham sobre encomendas, não tendo disponível peças para vender nas suas lojas ou oficinas. 

“Nós entramos numa oficina ou numa loja e não há bonecos para comprar. A que é que isso leva?”, interroga Alexandre Correia, sublinhando que uma das consequência é o facto dos Bonecos de Estremoz não estarem presentes nos grandes certames nacionais. “Nós vamos às principais feiras, grandes certames em Vila do Conde, Feira Internacional do Artesanato em Lisboa, a Vila Franca de Xira, a Barcelos e vemos artesanato de todo o país, mas não encontramos os Bonecos de Estremoz porque estão há muito tempo fora deste circuito”.

Perante esta constatação, a Confraria quer ter um papel “fundamental” com vista a representar os vários artesãos nos diversos certames, “levá-los até lá, ajudando a divulgar, a valorizar e a salvaguardar este saber fazer que é único, conseguindo atrair mais clientes para o Boneco de Estremoz”.

Um dos projetos que a Confraria acredita que pode contribuir para aumentar a oferta deste artesanato é a realização de mais um curso de formação de Bonecos de Estremoz, como já foi feito há uns anos, “de onde nasceram vários artesãos, alguns deles já certificados e a produzir de uma forma bastante regular, como são os casos do José Carlos Rodrigues, da Madalena Bilro, da Inocência Lopes e de outros que não estão a produzir com tanta frequência”.

Alexandre Correia reforça que as pessoas já perceberam que o Boneco de Estremoz “tem saída, que se consegue viver com este tipo de artesanato, consegue-se ter uma vida estável e confortável”. E acrescenta: “Olhando para todos estes exemplos de novos barristas com sucesso, tenho a certeza absoluta de que haverá mais pessoas a quererem dedicar-se ao artesanato e a frequentar este curso para dar um novo destino às suas vidas e, em simultâneo, contribuir para a preservação do Boneco de Estremoz”.

O futuro faz-se hoje e a necessidade de continuar a divulgar e a fazer tudo para a salvaguarda do Boneco de Estremoz deve manter-se. Para isso, é preciso haver novos barristas porque as pessoas vão envelhecendo e o saber fazer deve ser passado de geração em geração. “O grande desígnio é cativar os mais novos para dar continuidade a esta arte e projetá-la nas grandes feiras de artesanato”, frisa o grão-mestre. 

Colecionador de artesanato, desde 2014, tem frequentado assiduamente inúmeras feiras de artesanato e lamenta que, “desde que faleceu“a D. Maria Luísa, não se veja um barrista” de Estremoz nos grandes certames desta temática. “Quando vou a estas feiras, muitas pessoas e muitas instituições me perguntam pelo Boneco de Estremoz. Gostaria de o voltar a colocar neste circuito”.

Segundo o grão-mestre, outro dos objetivos da Confraria é realizar residências artísticas em Estremoz, “trazer artesãos de outras zonas do país para troca de conhecimentos”, bem como organizar eventos sobre o artesanato, para juntar os Bonecos de Estremoz a outras áreas muito nobres, “com a finalidade de mostrar que o artesanato deve estar unido e junto”. 

Alexandre Correia está a organizar algumas feiras para 2023, uma vez que vários municípios lhe pediram ajuda nesse sentido. “Estou em contacto para fazer um evento de artesanato com o Brasil e até com a Espanha que tem muita tradição de cerâmica, e para mim será uma enorme alegria levar o Boneco de Estremoz também a estes dois certames”, anuncia, frisando que “expandir” este património é “um desafio” para os próximos anos. 

“Queremos ir lá fora, deslocarmo-nos a outros sítios e não serem só os clientes a virem ter connosco, a Estremoz. Pretendemos ir ao encontro de outras comunidades, espalhar este saber fazer, mostrar a identidade única do nosso boneco. É um grande desafio desta Confraria que quer apoiar os artesãos e levar o Boneco de Estremoz a várias regiões do nosso país e do mundo”, remata.

ESTABELECER PONTES PARA VALORIZAR O ARTESANATO

Enquanto grão-mestre, Alexandre Correia diz sentir uma grande responsabilidade e espera estar à altura desta nomeação. “É um privilégio… Com os contactos que tenho, uma vez que conheço mais de 200 olarias a nível nacional, instituições e municípios, quero estabelecer laços, inclusivamente com outras confrarias, construir pontes para valorizar e divulgar o Boneco de Estremoz. Estou plenamente confiante de que vamos atingir todos estes objetivos”. Mas o que diferencia o Boneco de Estremoz de outras formas de artesanato? Alexandre Correia esclarece que quando olha para as várias peças do figurado consegue identificar quem foram os artesãos que as fizeram, mas todos sabem identificar os Bonecos de Estremoz. “Há uma técnica, uma estética, as cores utilizadas na pintura que são ímpares e isto é possível de reconhecer porque foi consolidada ao longo de 300 anos. Não há em Portugal e no resto do mundo um figurado igual ao nosso”, conclui.

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