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Bombeiros de Évora ameaçam parar transporte de doentes

Ana Luísa Delgado texto| Gonçalo Figueiredo foto

Primeiro foram os custos acrescidos com a covid-19, depois o aumento do preço dos combustíveis devido à guerra na Ucrânia. O resultado traduz-se em dificuldades acrescidas para as corporações de bombeiros, segundo as quais poderá estar em causa o transporte de doentes para os serviços de saúde.

Comandante dos bombeiros de Vila Viçosa, Paulo Alves foi eleito presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Évora. E inicia funções num momento crítico: o preço dos combustíveis não tem parado de aumentar, em resultado da invasão russa da Ucrânia, o que acarreta dificuldades acrescidas no socorro às populações. “Poderemos ter de parar o transporte de doentes. Queremos ser parte da solução, não do problema, mas a verdade é que as associações de bombeiros já estavam a atravessar grandes dificuldades financeiras e o aumento do preço dos combustíveis veio agravar ainda mais estes problemas”, diz Paulo Alves ao Brados do Alentejo, acrescentando que se o Governo “não tomar uma atitude no curto prazo” a resposta a casos de acidente ou doença súbita poderá ficar “comprometida”.

São problemas que se somam aos custos acrescidos – por exemplo, com equipamentos de proteção individual ou de pessoal – aos provocados nos últimos dois anos pela resposta à pandemia de covid-19. “Além do risco a que estamos expostos, devido ao contacto com doentes infetados pelo novo coronavírus, se é detetado algum caso positivo é necessário fazer o isolamento dos contactos de risco e isso afeta o funcionamento diário das instituições”, acrescenta.

O presidente da Federação de Bombeiros lembra que os combustíveis não têm parado de aumentar: entre 4 e 13 de março, o preço do gasóleo simples “disparou” 18 por cento, passando de 1,68 para 1,98 euros por litro, enquanto a gasolina simples registou um aumento de 10 por cento, com o custo a aumentar, em média, de 1,71 para 2,02 euros por litro. São custos acrescidos para as associações de bombeiros, em particular para as do interior do país. “Estamos num distrito envelhecido, cuja população precisa muito deste tipo de transporte para fazer consultas e tratamentos. Um distrito que está longe de tudo. Os hospitais estão longe. Muitas pessoas precisam de ir a hospitais a Lisboa e a escalada de preços está a ter um significado muito grande nas despesas dos bombeiros”.

Mais. Paulo Alves lembra que as associações estão a trabalhar com um preço por quilómetro que não é revisto desde 2011, apesar do preço dos combustíveis ser hoje muito superior, tal como o encargo com os funcionário. “É um preço que está regulamentado por uma portaria que não é revista há mais de 10 anos e é necessário que o Governo olhe para esta situação, sob pena do socorro às populações ficar seriamente comprometido”.

Trata-se de uma posição “em linha” com a defendida pela Liga de Bombeiros Portugueses (LBP) que pediu ao Governo “uma reunião com caráter de urgência para encontrar medidas de mitigação dos efeitos financeiros desastrosos” provocados pela escalada dos preços dos combustíveis.

“Com a subida de preços já registada e o seu previsível agravamento, em consequência direta da conjuntura global, estão a degradar-se ainda mais rapidamente as condições financeiras em que os diversos corpos de bombeiros prestam serviços de transporte de doentes ao abrigo dos acordos e protocolos assinados com as várias entidades da saúde, designadamente com as administrações regionais de saúde e o INEM [Instituto Nacional de Emergência Médica]”, adverte a LBP em comunicado, sublinhando que”tais desequilíbrios são potenciados pelo não cumprimento dos prazos de pagamento definidos em norma geral ou previstos na contratualização desses serviços”.

A Liga recorda que o Governo estabeleceu para o setor dos transportes públicos e profissionais “formas concretas de ajuda financeira em matéria de despesas com combustíveis”, que quer ver também implementadas nas associações humanitárias e corpos de bombeiros, “no sentido de atenuar o fortíssimo impacto que o aumento do preço dos combustíveis tem na sua atividade diária”.

Paulo Alves não tem dúvidas ao afirmar que os apoios do Estado “não suficientes” para cobrir as despesas associadas ao transporte de doentes. “Se fossem suficientes as associações não passavam por estas dificuldades. Atualmente os corpos dos bombeiros fazem 90 por cento do serviço de transporte à população para cuidados de saúde, e em termos de proteção civil e o Estado não comparticipa totalmente os custos que temos de suportar”. 

Desta forma, acrescenta, “se o problema não for resolvido”, ou seja, “se o Governo não tomar medidas urgentes” para compensar o aumento de custos, “não será possível manter o serviço e teremos de parar com o transporte de doentes não urgentes”. O que, no caso de regiões como o Alentejo Central, teria um impacto “enorme” na qualidade de vida das populações. “Os bombeiros são a única entidade que faz este transporte de doentes. Se nós deixarmos de o fazer, ninguém o fará”, conclui Paulo Alves.

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