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“Bola de Trapos”. Histórias do desporto no Baixo Alentejo

São mais de 400 páginas. “Bola de Trapos”, editado pela Colibri, reúne um conjunto de crónicas sobre memórias do desporto no Baixo Alentejo, publicadas ao longo dos anos pelo jornalista José Saúde no “Diário do Alentejo”. O livro será lançado na próxima terça-feira. Pré-publicamos um excerto de uma obra central para o conhecimento da história desportiva da região.

Num indelével sentimento onde a dócil melancolia esbarra numa mente que usufrui, por enquanto, a possibilidade em recordar imagens de outrora que se multiplicaram em hábitos desportivos de crianças alinhadas com o prazer do jogo, revejo o normal habitat da miudagem e a sua frenética luta em despiques com a célebre bola de trapos.

Somos originários desses obsoletos tempos. Recordo, com uma saudade imensa, a algazarra dos rapazes de rua, assim como os saudáveis desafios em terrenos vadios, agora transfigurados em betão armado, e logo à tona da memória aparecem reproduções das manhãs domingueiras que envolviam jogatanas de futebol, sendo as balizas demarcadas com duas pedras num campo substancialmente irregular. 

Naquele tempo as bolas de borracha eram escassas e por vezes lá aparecia o menino mimado, filho de gentes da alta sociedade, que presunçosamente metia inveja ao resto da moçada, com uma bola de borracha amarela, marca “Pirelli”, debaixo do braço. 

A redondinha era sinónimo de excêntricos prazeres e sobretudo de entrega dos “putos” ao duelo. O menino, que não jogava patavina, mas tinha que fazer parte infalível de uma das equipas porque era o dono da bola, cedo se apercebia que a raia miúda não lhe passava a redondinha e toca a interromper o entusiasmante dérbi da pequenada. 

De rabo alçado lá fugia que nem uma flecha rumo à sua mansão. A ralé, pouco importunada com a leviana atitude do garoto, jogava mãos à bola de trapos e o jogo prosseguia. Aliás, as oportunidades em dar uns chutos numa esfera de borracha eram, nesses tempos, coisa rara. A bola de trapos, feita com uma meia roubada à mãe, afigurava-se como uma preciosidade que a ralé juvenil muito se regozijava.  Lembro, também, as bexigas de porco recolhidas pela malta em épocas das matanças no matadouro da terra.

Tudo isto é conversa do passado, é verdade, mas um passado onde despertaram craques que percorreram enormes percursos futebolísticos quer em termos nacionais quer internacionais. Hoje, olhamos para a realidade presente e logo damos conta que tudo desliza para o mundo da facilidade.

As crianças de agora têm outros mecanismos competitivos, vestem equipamentos de marca, calçam botas de qualidade, as bolas são excecionais, jogam em campos relvados, ou sintéticos, e têm um público, geralmente familiar, a puxar pela equipa. 

Nós jogávamos em agrestes terreiros infestados com ervas daninhas onde residiam cacos de vidro, sendo que alguns dos nossos companheiros jogavam descalços, os fatos de treino era a roupa domingueira, para quem a tinha, não havia assistência aos jogos e fugíamos das forças da ordem sempre que o polícia de giro detetasse as nossas presenças. Bem-haja a conquista da liberdade e o progresso que a Revolução dos Cravos facultou!

O CORTIÇO

Numa peleja persistente onde a nostalgia teima em preencher almas já fatigadas com o evoluir das eras, viajamos pelos corredores apertados de memórias desportivas e reencontramo-nos com os arautos de um passado que muito nos cativou. E se por um lado, noutros locais da região, existiam pontos de encontro onde os amantes do desporto se encontravam para dissecar as inovações, em Beja existia um ex-libris que impunha uma ordem irrepreensível ao mais pacato cidadão do mundo que visitava a velha Pax Júlia e que passava pelo famoso Café Cortiço.

Naquele espaço as tertúlias desportivas eram triviais. Situado na Rua Cap. João Francisco de Sousa, aquele lugar comercial era frequentado por um catálogo de pessoas que dissertavam sobre as últimas inovações de um painel de acontecimentos e que, simultaneamente, analisavam, com rigor, a componente desportiva.

Atrás do balcão, a dupla de irmãos, Caetano e Marcelino, prezavam por bem servir uma infindável clientela que fazia jus à sua presença no Cortiço. Alguns, sentavam-se em redor de uma mesa que puxava, desde logo, à curiosidade dos falatórios; outros, juntavam-se ao balcão corrido, em pé, onde os pastéis de bacalhau, sempre quentinhos, cativavam os sabores afinados dos fregueses que, zelosos em recolherem as últimas novidades, tinham naquele encantador recanto um lugar ideal para obterem informações sobre o universo desportivo regional e nacional. 

Sou de uma época em que o Cortiço fornecia uma panóplia de novidades que encantavam uma rapaziada que vivia intensamente a maravilha de um cosmos deveras fascinante. Ali sabia-se de tudo um pouco, mormente os resultados dos jogos de futebol aos domingos, principalmente do Desportivo quando jogava fora de casa. 

O Cortiço, além de uma fonte de notícias, foi, também, palco de homens que literalmente se notabilizaram em diversificadas vertentes sociais. O saudoso Marcelino, apelidado ao longo de vários anos como o “velho capitão”, espalhou em campo o perfume da sua inexcedível classe ao serviço do Desportivo, afirmando-se como um futebolista de refinada eleição. 

Veiga Trigo, antigo árbitro internacional de futebol, bebeu no Cortiço um perfeito conhecimento para uma arte que tanto o dignificou. Recordo, ainda, o desfile de personalidades desportivas que por lá passavam. De jogadores a dirigentes, passando pela inevitável visita de muitos forasteiros que faziam daquele estabelecimento uma paragem obrigatória, sendo que alguns deles eram individualidades com nomes sonantes não só a nível nacional como internacional, aquele Café guardou ao longo dos anos históricas camaradagens que se protelaram no tempo. 

O Cortiço consolidou-se com uma “agência” desportiva e onde a camaradagem reinava. Hoje, resta recordar esses conscienciosos púlpitos de outrora que, infelizmente, se foram perdendo no tempo. E que saudades do acolhedor Cortiço, um “paraíso” onde proliferavam profícuas amizades!

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