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Bento de Jesus Caraça: da inquietude que se fez arma

Margarida Maneta texto | Fundação Mário Soares fotografia

Nasceu na viragem do século XX a sonhar com a democratização do ensino e da cultura numa altura em que praticamente 90% da população era analfabeta. Queria a liberdade num país amordaçado pela censura. Com uma vida curta, mas intensa, esta é a história de Bento de Jesus Caraça que fez da inquietude intelectual uma arma, agora recordada numa fotobiografia assinada Natália Bebiano.

Algures na Rua dos Fidalgos, Vila Viçosa, em abril de 1901, Domingas Espadinha dava à luz um menino, batizado um mês depois como Bento de Jesus Caraça. O nome, estariam os pais longe de imaginar na altura, viria em contradição com o homem que este bebé se tornaria. Escreveu o próprio um dia: “nome tão católico” para denominar alguém “com ingresso em hostes diabólicas”. Por hostes diabólicas, entenda-se, no seio de um regime totalitário, o progresso do país e da área científica que o matemático ambicionava. A dinamização da cultura e da ciência como motor de desenvolvimento do país que publicamente proclamava. Mas já lá iremos.

Bento de Jesus Caraça foi levado aos três meses de idade para a Herdade da Casa Branca, na freguesia de Montoito, em Redondo, passando aí parte da sua infância. Fez o ensino primário em Vila Viçosa, mas ainda antes disso, entre os quatro e os cinco anos de idade, começou a revelar as suas facilidades de aprendizagem, consideradas invulgares, ao aprender a ler com um trabalhador sazonal. 

Completada a instrução primária com distinção, matriculou-se no Liceu Sá da Bandeira, em Santarém. Mais tarde, concluído o curso geral, viria a prosseguir os estudos no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, que termina em 1918 com 19 valores.

Seguiu-se o ingresso no Ensino Superior. Matriculou-se no antigo Instituto Superior de Comércio, atual Instituto Superior de Economia e Gestão. Mas foi logo no ano seguinte, mesmo ainda estudante, que começou a lecionar o Curso de Comércio e Finanças na Universidade Portuguesa Popular. De assistente chegou a catedrático, com apenas 28 anos.

Este percurso já o vinha anunciando: Bento de Jesus Caraça viria a marcar a história da matemática em Portugal. Num país, na altura, isolado cientificamente e atrasado várias décadas em relação às sociedades congéneres, as iniciativas do calipolense abriam uma janela ao progresso.

Acompanhado de Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro, fundou a “Portugaliae Mathematica”, a primeira revista internacional de matemática em Portugal, e a “Gazeta da Matemática”. 

Também a Biblioteca Cosmos foi um projeto de sua autoria. Funcionando como uma editora, publicou vários títulos. Entre eles, “Conceitos Fundamentais da Matemática”, com uma tiragem de milhares de exemplares, raro para a época e para a área científica. Adepto da partilha de conhecimento, foi ainda orador e plateia em diversas conferências.

Foi eleito para a Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática. Entende este movimento como meio para “extrair o medo dos corações dos portugueses, fazendo deles homens generosos e fortes, libertos da grilheta da mais aviltante das escravidões”, escreveu na altura.  Esta janela do progresso, no entanto, esteve pouco tempo aberta. Tornando-se um incómodo ao sistema, Bento de Jesus Caraça foi demitido e proibido de lecionar tanto no ensino público como no privado. A Sociedade Portuguesa de Matemática, que fundou, não viu os seus estatutos aprovados. As reuniões de matemáticos foram proibidas e os colegas exilados. Por três vezes foi preso pela pela política de Salazar.

O clima nacional era turbulento e, apesar de não voltar a residir em território alentejano, Bento de Jesus Caraça aqui regressava variadíssimas vezes, alimentando uma ligação à terra natal até ao final da sua vida. Saiu da ruralidade e arquitetou o seu destino, mas a ruralidade não saiu dele. Além disso, era aqui que os pais continuavam a residir, num território em que o matemático gostava de passar férias ou reunir com colegas para debater projetos, privilegiando o contacto com a natureza e os animais, vislumbrando o espetáculo do mundo em seu redor. 

Pelos registos fotográficos existentes, em que surge rodeado de animais como borregos e cabras, diz-se que se fosse hoje seria considerado um “ambientalista” e “ecologista”. 

Vivendo num período histórico marcado internacionalmente por guerras, Bento de Jesus Caraça envolveu-se em várias ações humanitárias. Auxiliou campos de refugiados do Sul de França e da Argélia com bens alimentares e medicamentos por intermédio da Cruz Vermelha Portuguesa e da Associação Feminina Portuguesa Para a Paz.

Os assuntos que ao coração dizem respeito viriam a ser “fatais” na vida do calipolense. Literalmente. É que não só a sua primeira mulher faleceu nove meses depois do casamento, como o próprio viria a morrer, com 47 anos, vítima de problemas cardíacos. Ainda casou uma segunda vez, com uma discípula, tendo um único filho, João Caraça, que tem assegurado o seu legado. Este legado acompanha o avançar dos tempos. “O que o mundo for amanhã é o esforço de todos nós que o determinará”. Esforço seu que é reconhecido e justificou a recente publicação da sua fotobiografia, da autoria de Natália Bebiano.

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