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Aumento de 80% nos pedidos de apoio à Cáritas de Portalegre

Ana Luísa Delgado texto

A Cáritas de Portalegre está preocupada com o aumento exponencial do pedido de ajuda por parte de migrantes. Só nos primeiros cinco meses do ano foram 788, quase o dobro do registado em 2022. Algumas pessoas chegam à instituição “sem nada para vestir”. Pedidos de ajuda alimentar são tam- bém mais frequentes.

Presidente da Cáritas Diocesana de Portalegre e Castelo Branco, Elicídio Bilé (na foto) explica o aumento exponencial do número de pedidos de ajuda à instituição pelo facto de o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes de Évora não estar a funcionar. Nos primeiros cinco meses do ano, 788 migrantes recorreram ao apoio do Cáritas de Portalegre, um aumento de 80% quando comparado com o mesmo período do ano passado. Ao longo de todo o ano de 2022, a instituição efetuou 1282 atendimentos a migrantes. Este ano serão mais.

“Temos um serviço muito organizado através do qual ajudamos a resolver problemas relacionados com a legalização ou com a reinserção social. Essa mensagem vai passando de uns para outros e a procura aumenta”, diz Elicídio Bilé, reconhecendo que o aumento dos pedidos de ajuda está a trazer “pressão” sobre a instituição. “A situação em Portalegre mantém-se estável, temos uma população envelhecida e grande parte das pessoas que aqui atendemos já as estamos a acompanhar há algum tempo. O grande aumento nos pedidos de apoio está relacionado com os migrantes”.

O responsável da Cáritas assinala que algumas destas pessoas chegam à instituição com problemas sociais “gritantes”. “[Muitos] vêm sem nada, não trazem roupa de casa, muito menos mobília, não trazem nada para vestir, chegam com fome… têm de ser apoiados também a este nível”. São pessoas de 38 nacionalidades, uma boa parte oriunda do Médio Oriente e da Ásia.

“Vêm também à procura de trabalho”, sublinha o presidente da Cáritas de Portalegre, recordando que essa é uma das razões que levaram muitos a deixar o seu país de origem. “Chegam com esperança de encontrar um projeto de vida que lhes dê alguma estabilidade e que lhes permita ajudar as famílias. Portanto, [a procura de] em- prego está sempre implícita”.

Entre as respostas oferecidas pela Cáritas de Portalegre está o “serviço de apoio à empregabilidade”, no âmbito de um protocolo com a Fundação La Caixa, que “permite uma relação muito próxima com as empresas no sentido destas assumirem a sua própria responsabilidade social”, encontrando soluções de emprego “para pessoas com maior vulnerabilidade, sejam migrantes ou residentes, com mais dificuldade de inserção no mercado de trabalho”. Só no ano passado foi encontrado emprego para 23 pessoas, sobretudo nas áreas da agricultura e do comércio, número que Elicídio Bilé considera “muito positivo”, assinalando que 28 empresas da região já aderiram ao projeto, “comunicando as respetivas ofertas de trabalho”.

Entre os apoios disponibilizados aos migrantes inclui-se o ensino da língua portuguesa – “muitos deles não falam português e alguns falam inglês com algumas limitações” – e a regularização dos respetivos casos perante serviços do Estado como as Finanças, Segurança Social ou Saúde, “para terem acesso a cuidados médicos”.

DIFICULDADES NA OBTENÇÃO DE ALIMENTOS

De acordo com o responsável da Cáritas, o aumento dos preços decorrente da inflação está a “afetar de sobremaneira” as comunidades migrantes, existindo uma tendência para “mais pedidos” de ajuda alimentar. “É aí que reside a maior dificuldade porque, quando vamos ao banco alimentar, os alimentos que recebemos são escassos e praticamente só à base de enlatados, ou pouco mais. Portanto, para famílias que têm crianças, é necessário leite, é necessário queijo, são necessários também alguns frescos, como a carne ou o peixe. Isso nós vamos adquirindo, mas com muitas limitações, porque também nós não geramos receita suficiente”.

Os últimos dados estatísticos divulgados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), relativos a 2021, indicam a existência de 23.703 cidadãos estrangeiros residentes nos distritos de Évora, Beja e Portalegre, número que não inclui os imigrantes sem autorização de residência. No caso do distrito de Portalegre, o SEF contabilizou 2881 residentes estrangeiros, mais mulheres do que homens, ao contrário do que sucede nos outros distritos, sendo na sua maioria (687 residentes, 24% do total) de nacionalidade brasileira. Seguem-se as comunidades originárias da Roménia (480 residentes), Espanha (231), Reino Unido (172) e China (129).

INFLAÇÃO AGRAVA PROBLEMAS

A inflação está a deixar muitas famílias em dificuldades. O presidente da Cáritas de Portalegre e Castelo Branco diz que à instituição têm chegado pedidos de ajuda de famílias que “estão em situação de pobreza”, mesmo com algum dos elementos a trabalhar. Somadas as despesas do dia a dia ao “valor da renda de casa, do gás e da eletricidade”, está criado um cenário de “muitas limitações” e nem sempre é fácil pedir ajuda. Elicídio Bilé lembra que a “pobreza envergonhada” não é de hoje, embora “continuem a existir pessoas que se sentem limitadas para se expor e relatar os seus problemas. Mas a necessidade é tanta que acabam por vir”. Entre as respostas dadas pela Cáritas inclui-se ajuda ao pagamento da renda de casa, de medicamentos ou até de deslocações para exames médicos ou tratamentos em hospitais como o de Évora ou em Lisboa. “Há pessoas que têm dificuldade em pagar esse transporte e nós procuramos ajudar, apesar das muitas limitações financeiras com que nos confrontamos”, conclui.

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