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Amicita. História do mais fulgurante grupo cultural de Portalegre

Luís Godinho texto

E se assim por acaso – “tudo é fluído, tudo depende do acaso”, na expressão de Nabokov -, assim por acaso, um grupo de rapazes se tivesse encontrado há 66 anos num café de Portalegre, talvez nem soubessem quem era Nabokov – “Lolita” só tinha 12 anos – e se desse encontro, desse acaso, tivesse nascido o mais fulgurante grupo cultural, também cívico, alguma vez surgido na cidade? Bom, o encontro aconteceu. O grupo existiu. E a memória desses tempos de juventude, “inteiros e limpos” como no poema de Sophia, está agora em livro. Para que a história não se perca.

Amicita foi o nome que lhe deram. Talvez que antes do nome tenha surgido o lema, “amicita omnia vincit”, que em latim não fica mal, mas que em português soa melhor: “a amizade tudo vence”. Amicita, amizade. E depois, lembra António Martinó Coutinho, um dos fundadores, “depois, pela ação conjugada dos seus membros mais conscientes, que sentiam na sua carne – e não na carne dos outros – as aspirações e os interesses coletivos, o grupo singrou e evoluiu”.

Mas, antes, teremos de recuar a 5 de janeiro de 1957 quando no café Facha, ali onde hoje se situa o Hotel José Régio, que também o frequentou, um grupo de rapazes – os cafés ainda “não eram” para senhoras – decidiu, sem pingo de modéstia, fundar uma associação “sem semelhança na História”. Foi assim que o registarem em ata, escrita “em papel de embrulho” cedido pelo proprietário do café: “Resolveu-se a fundação de um Grupo sem semelhança na História”. O advogado Florindo Madeira, recentemente falecido, foi um dos 13 fundadores. António Martinó Coutinho e Fernando J. B. Martinho juntar-se-iam em momento posterior. “Ficou assente primeiro que tudo que o voto seria obrigatório”. O que, por si só, já é todo um programa político. 

“Alicerçado inicialmente numa ideia de amizade, camaradagem, solidariedade, compreensão mútua, o Amicita tinha surgido”, refere António Martinó Coutinho em “Amicita – Grupo Cultural de Portalegre”, uma edição da Colibri agora apresentada, na qual refere que a ideia inicial partiu de Joaquim Fonseca (o primeiro presidente), “mas porque correspondia a aspirações e interesses vivamente sentidos por todos, imediatamente originou a passagem da pura especulação teórica em torno desta ideia à sua atuação concreta”. Se a legalização enquanto associação cultural não se revelou complexa uma vez obtido o “auxílio possível” do então todo-poderoso Governador Civil, Matos Chaves, já a abertura do cineclube, num tempo de obscurantismo ditatorial, bom, isso obrigaria à elaboração e execução de uma estratégia invulgar que, como a seguir se explicará, meteu esperas, jogos de azar e copos de vinhos.

Antes, convém lembrar que, por essa altura, “livros e discos mal chegavam a Portalegre e ainda nem sequer havia televisão”, muito menos biblioteca pública, restando uma peças de revista que “de vez em quando vinham à província”, a música das bandas no coreto do jardim público, “animando uns serões que o cinema deixava vagos” e, claro, os jogos de “laranjinha” e de bilhar nas sociedades recreativas, “cheias de reformados que jogavam à bisca lambida”. Muito pouco para estes jovens, cuja associação se propunha “fomentar o desenvolvimento cultural” e realizar “manifestações culturais”, como conferências, exposições de arte, teatro e cinema, mas também visitas de estudo e organização de “manifestações folclóricas de carácter cultural e recreativo”.

Um dos eventos mais marcantes foi o I Salão de Pintura Moderna de Portalegre, realizado entre março e abril de 1961, na Escola Industrial e Comercial de Portalegre, e que reuniu obras de artistas como Alice Jorge, António Charrua, Júlio Pomar, Rogério Ribeiro e Rolando Sá Nogueira, entre outros, a que se seguiram dois colóquios sobre arte moderna. Exposições de arte infantil e de fotografia, a edição de boletins (num dos quais José Régio publicou um texto intitulado “Apontamentos sobre a Arte Popular e a Arte Moderna”), a realização de colóquios e a publicação dos cadernos “Alfa”, de poesia, dirigidos por Fernando J. B. Martinho, foram outras das muitas iniciativas realizadas, além do cinema, claro.

UM CINECLUBE COM “INSPIRAÇÃO” EM ESTREMOZ

E para o cinema foi fundado o Cineclube de Portalegre, em 1962. No livro, José Bizarro recorda uma deslocação a Estremoz: “Metemo-nos todos num táxi e lá fomos em busca de uma cópia do estatuto do cineclube local e alguns conselhos que os amigos Aníbal Falcato Alves, Joaquim Vermelho, Jacinto Varela, António Matos e outros cujos nomes já não consigo recordar, quiseram ter a generosidade de nos facilitar”.

O encontro, numa oficina de reparação de automóveis situado próximo da casa de Armando Alves, haveria de ser interrompido por três elementos da PSP, desconfiados de que se trataria de uma reunião política, mas os homens lá regressaram a Portalegre com uma cópia dos estatutos.

Registá-los é que foi difícil, uma vez que era necessária a assinatura de 10 personalidades da terra. Deu-se o acaso de terem sabido que o comissário da Mocidade Portuguesa, e vice-Governador Civil, Armando Sampaio, talvez ficasse “mais sensível” à pretensão depois de “uma sessão de batota [no Café Central] em que ele tenha ganho e que de preferência traga um granito na asa”. Feita a espera, cumpridas as premissas, “dissemos-lhe ao que íamos e, ali mesmo, no capot humedecido do seu automóvel, assinou-nos a almejada petição, sem opor qualquer reserva”. Estava criado o cineclube.

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