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Alentejo: Jovens com consumos de tabaco e álcool “assustadores”

Margarida Maneta texto | Gonçalo Figueiredo foto

Metade dos alunos que frequentam entre o 7.º e o 9.º ano de escolaridade, a maioria com idades compreendidas entre os 12 e os 14 anos, já tiveram comportamentos de risco, seja consumo de álcool (o mais frequente), tabaco ou drogas. 

Os dados constam de um relatório elaborado pelo Alenriscos – Observatório dos Consumos no Alentejo, constituído por investigadores da Universidade de Évora e por diversos parceiros, entre os quais a Administração Regional de Saúde do Alentejo, o Centro de Respostas Integradas (CRI) do Alentejo Central e a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares.

Dos 10.150 inquéritos validados, a alunos dos estabelecimentos escolares de toda a região, 4.437 revelaram já ter consumido álcool. E, destes, 829 afirmaram tê-lo feito por mais de 40 vezes. No caso do tabaco, 20% dos alunos desta faixa etária confessa já ter fumado. O consumo de canábis, ainda que residual (8%), não deixa de preocupar as entidades com responsabilidades nesta área.

“Os números vêm confirmar aquilo que têm sido as tendências que temos verificado quer empiricamente, quer cientificamente, aqui na região”, diz Paulo de Jesus, coordenador do CRI do Alentejo Central,  considerando que os números “são assustadores” no que diz respeito aos comportamentos de risco por parte dos jovens. 

E exemplifica com os dados recolhidos em 2019 no âmbito do Dia da Defesa Nacional, segundo os quais “o Alentejo é a região a nível nacional com os piores indicadores, na faixa etária dos 13 aos 18 anos [ou seja, com uma amostra mais abrangente do que a do Observatório], ao nível do álcool, tabaco, videojogos, jogos a dinheiro e canábis”. No caso da canábis, a região está mesmo em contraciclo com o resto do país: “Há uma redução a nível nacional e aqui no Alentejo há um aumento destes consumos”.

“Se cruzarmos isto com o facto de estarmos perante a região mais envelhecida do país, estes números assumem proporções ainda mais assustadoras”, sublinha Paulo de Jesus. “Costumo dizer aos jovens que são poucos e que estão doentes, por via dos riscos que correm em termos das opções que fazem”. 

Os dados recolhidos pelo Observatório, “num ciclo de vida diferenciado, mais recuado”, com alunos maioritariamente na faixa etária dos 12 aos 14 anos, deixam mais motivos de preocupação. “É fácil perceber que grande parte destes jovens inicia a sua experimentação em contexto familiar, o que me deixa profundamente preocupado. A família surge num contexto de grande tolerância em termos da experimentação de álcool. Há uma cultura de grande permissividade no que toca ao consumo de substâncias com enfoque no tabaco, no álcool e ultimamente temos estado a notar também na canábis”.

Por outro lado, acrescenta o coordenador do CRI do Alentejo Central, “confirma-se a feminização do consumo” Ou seja: “Já não há diferença de género no que toca ao consumo de álcool e de tabaco e, nisto, a região está alinhada com a média nacional. A média nacional diz que as raparigas consomem mais que os rapazes e em termos de álcool há quase uma paridade”. Daí que não surpreenda que, aos 18 anos, mais de 90 por cento dos jovens alentejanos já tenha iniciado o consumo de bebidas alcoólicas. Isto é, que o fez antes da idade permitida por lei. “Os nossos jovens, no Alentejo, são os que mais consomem álcool a nível nacional. Se considerarmos os indicadores de álcool e tabaco como porta aberta para outro tipo de consumos está de alguma forma enquadrado aquilo que são os indicadores preocupantes que temos na região”.

PREVENÇÃO É “PROCESSO MATURADO”

Face aos dados recolhidos, Paulo de Jesus não tem dúvida em afirmar que a prevenção é um “processo maturado”, nada compatível com “relógios acelerados”, antes exigindo “um trabalho longo que tem de ser feito a partir da capacitação destes públicos e dos agentes que com eles trabalham”. Uma das preocupações tem de ser a “medição dessa realidade de consumos”, outra passa por sensibilizar para o problema as diversas instituições que têm responsabilidade ao nível da organização social, educativa, cultural e económica da região, envolvendo as escolas e as famílias.

“Estamos há 20 anos a dizer que o álcool, o consumo abusivo e dependente de álcool, é uma toxicodependência igual a qualquer outra substância. Ainda estamos nessa fase”, lamenta o coordenador do CRI, acrescentando que “não é normal” taxas de consumo tão elevadas em jovens desta faixa etária.

Além do mais, prossegue, “os problemas ligados ao álcool têm uma transversalidade que não é visível, mas está bem presente”. E explica: “Se imaginarmos o consumo de álcool e a sua associação, por exemplo, com a violência doméstica… se imaginarmos, por exemplo, os problemas da prevenção rodoviária ou os comportamentos sexuais de risco ou a experimentação de substâncias ilícitas que, muitas vezes, ocorrem sobre o efeito de álcool, percebemos o quão danoso é o consumo abusivo de álcool. E é isto que ainda estamos a dizer à comunidade e que ainda não está a surtir os efeitos que queríamos”. 

PASSAGEM DE CICLO

Desde o ano letivo de 2015/16 que o Alenriscos – Observatório dos Consumos no Alentejo tem vindo a trabalhar com alunos do 7.º ao 9.º ano de escolaridade. Mas, segundo Paulo de Jesus, coordenador do CRI do Alentejo Central, “está para breve a passagem de ciclo”, para incluir os alunos do secundário. O objetivo, a médio/longo prazo, é abranger igualmente os estudantes universitários. “Quando o concretizarmos, estaremos a falar dos principais ciclos de vida onde ocorre grande parte das opções de consumo. Cobertos estes ciclos de vida pelo Observatório, acho que vamos ter informação significativa para poder alinhar as nossas estratégias de prevenção e educação para a saúde aqui na região”, conclui.

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