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aBruxa fez-se mulher. Eis a maior criação artística de Figueira Cid

Ana Luísa Delgado e Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

Ator e encenador, é aBruxa Teatro a principal criação artística de Figueira Cid. A completar 20 anos, fruto de um desafio permanente, de uma aposta no realismo poético e na vontade férrea de não desistir, aBruxa cresceu e tornou-se mulher. 

O Figueira Cid que nos perdoe, mas se foi em setembro que tudo começou, e se o tempo é de recordar os 20 anos que já lá vão, algum dia haveria de chegar em que um texto sobre aBruxa Teatro incluiria uma referência a Vítor Espadinha. Ele aqui está. Não tanto para evocar essa velha máxima da canção nacional, segundo a qual “recordar é viver”, mais para a contrariar pois não, não é assim tão triste viver de ilusões,  e para assinalar que “trazer nos olhos a luz de maio” pode até ser uma interessante forma de resumir o trabalho artístico desse coletivo cultural criado em Évora nesse já longínquo ano da graça de 2002.

Embora, em boa verdade, e como adiante se explica, nem aBruxa nasceu propriamente em 2002, nem o espetáculo inicial foi exatamente o primeiro espetáculo de aBruxa. Contando a história pelo princípio, lembra Figueira Cid que as primeiras ideias para criar uma companhia com as características de aBruxa Teatro lhe surgiram nos idos de 90, quando ainda se encontrava por Lisboa. 

O projeto ficou em stand by e assim continuou depois de o ator ter regressado a Évora, em 1994. Passados uns aninhos, chegados a num novo milénio, eis que conseguiu derrubar um “30 de fevereiro de um ano por inventar” e obter financiamento do, então, Instituto Geral das Artes (antecessor da Direção Geral das Artes) para a montagem de um espetáculo. 

Assim nasceu “Rindo à Bruta”, a partir de um texto de Christopher Durang, com tradução de António Henrique Conde, cenografia e figurinos de Sara Machado, encenação do próprio Figueira Cid e interpretações de Josefina Massango e Francisco Campos. Sucede, como recorda, que esse apoio resultou de uma candidatura como empresário em nome individual, embora a ideia já fosse outra. “Já tinha em mira não atribuir o espetáculo a mim próprio mas à companhia, na perspetiva de a lançar”. 

Peça estreada e aBruxa formalmente constituída enquanto associação cultural. Corria o mês de setembro de 2002 e estava colocada “a primeira pedra de um projeto, de alguma forma inovador: na escolha criteriosa dos textos, de autores, muitas vezes, premiados, na abordagem estética e profissional e, sobretudo, no enorme desafio para a equipa artística. No final, haveria de ficar a beleza das palavras, um realismo poético, tantas vezes com um perfume de absurdo, a ousadia e o risco”.

Para a consolidação do projeto, esses dois “ingredientes” (desafio e realismo poético) terão sido, de facto, fundamentais, mas terá sempre de se somar um outro: “Chegámos a estes 20 anos com muito esforço, disso não há dúvida”, refere Figueira Cid, acrescentando que ao longo destas duas décadas este foi, sobretudo, um projeto “com atores que vinham e iam porque não havia condições para os manter durante mais tempo do que o necessário para aquela produção em concreto”. 

Embora se mantivesse como um “projeto regular, com atividade permanente, com acolhimentos imensos ao longo do ano”, a estrutura, propriamente dita, só surgiu há dois anos: “Uma repescagem num concurso da Direção Geral das Artes permitiu-nos entrar nos apoios sustentados a dois anos. E a partir daí é que tivemos condições para criar uma equipa”.

A “Rindo à Bruta” seguiram-se mais 45 produções, três das quais estão “em circulação”: “O Grito das Árvores”, com texto e encenação de Juliana Fonseca; “E Que Fazer com o Violino”, um texto de Mátei Visniec encenado por Figueira Cid, que também assina “A Cidade dos Anjos”, texto do dramaturgo francês François Cervantes estreado no festival de Avignon.

“Foram 46 produções feitas nesse âmbito de resistência, de ir fazendo, de não desistir. Foi assim que conseguimos chegar a estes 20 anos o que, até para nós, é surpreendente, pois não contávamos aguentar tanto tempo”, diz Figueira Cid, atribuindo “responsabilidades” por este percurso também à obtenção de apoio por parte de algumas entidades, como a Câmara de Évora, “mas sobretudo porque há público que quer ver as nossas produções, nem sempre fáceis, dirigidas e quem gosta muito de teatro”.

“O que fazemos”, prossegue, “é teatro puro e algumas vezes duro, mas acolhemos todo o tipo de teatro, não censuramos, não temos qualquer ponto de vista sobre quem nos venha visitar ou queira estar no nosso espaço. Acolhemos toda a gente, com as condições que temos para oferecer e que a maior das vezes não são nada boas, antes pelo contrário. Já vieram largas centenas de companhias e de atores em nome individual”.

“EM ÉVORA HÁ FILHOS E ENTEADOS”

O aniversário de aBruxa Teatro já foi assinalado com uma exposição, “20 Anos de Muita Merda”, reunindo textos, fotografias, objetos cénicos, figurinos e também a coleção de obras de arte, originais, que ao longo deste percurso foram criadas por mais de três dezenas de artistas para serem a imagem de cada uma das produções da companhia.

Fazer teatro no interior, e em particular no Alentejo, acarreta dificuldades acrescidas. Desde logo pela existência de “pouco” público, numa região extensa e cada vez mais despovoada, o que reduz as hipóteses de financiamento a nível nacional. Depois pelo fato de o teatro “acabar por ser relegado pelos media para segundo ou terceiro plano”. E, finalmente, devido à existência do “fenómeno” que Figueira Cid apelida como “de filhos e enteados”.

Segundo refere, nos últimos anos, em Évora, “avançou-se um pouco face” no que diz respeito aos apoios municipais, “mas não se avançou da forma mais correta e mais equitativa, não apenas no que diz respeito aos apoios financeiros, mas no olhar atento e sensível para com as pessoas das artes”. Desse ponto de vista, garante, “há muito trabalho por fazer”, sobretudo em termos de “equipamentos e de financiamentos que são dados de forma discricionária e sem qualquer critério”.

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