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Abel Neves: “O texto para teatro é um espetáculo virtual”

Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

Avesso a dar entrevistas – “fujo sempre que posso” – e a conversas sobre a sua obra – “sou muito contra a sinopse” -, Abel Neves aceitou apresentar dois dos seus livros no Teatro Garcia de Resende, em Évora, onde, não por acaso, se encontra em cena “Magnético”, um dos dois livros agora apresentados.

História de dois casais que se encontram casualmente, numa bomba de gasolina desativada, e em que razão e sentidos se entrelaçam no amor, com humor, “Magnético”, o livro, dá sequência a uma já longa obra dramatúrgica de Abel Neves, iniciada em 1987 com a publicação de “Amadis” e já por diversas vezes premiada.

“Sempre que o texto fica editado a gente morre. No caso do teatro ficamos à espera que alguém pegue naquilo. No caso da ficção que alguém o leia”, diz o escritor em Évora, perante uma plateia onde não faltam artistas da “casa”. Atores que, sublinha, “são os poetas de antigamente, os aedos [poetas, cantores] da Grécia antiga, que tinham os textos na memória”. 

Definindo o texto para teatro como “uma partitura para espetáculo, no sentido em que o texto para teatro é um espetáculo virtual”, Abel Neves lembra que o livro “não faz teatro nenhum. É um texto. Dali ao teatro é preciso que haja atores e alguém que os organize em cena”. 

Por isso destaca o papel do ator, “que retoma o que eram os poetas da Grécia antiga”, desde logo porque, à semelhança do que sucede na música em que “nos é mais fácil ouvir o disco do que estar a ler a partitura”, o teatro consegue prender a atenção do público: “Não escuto de forma tão atenta como quando me sento numa sala de teatro”.

Em “Seirios Um Cavalo em Pitões”, a outra obra agora apresentada, Abel Neves regressa à aldeia de Pitões das Júnias, onde já tinha centrado outros dos seus romances, como “Cornos da Fonte Fria”. Tendo nascido em Montalegre, é Pitões de Júnias que considera ser a sua “terra” pois, como explicou numa das raras entrevistas, é ali que “tenho céu e abrigo, e gosto que os meus passos não estejam distantes do andar dos rios, das pessoas, ou das asas da perdiz”.

A narrativa começa com a chegada de um homem à aldeia – “Os grifos não se dão conta e dançam no céu uma coreografia com cinzas. O homem arruma a máquina fotográfica, molha os lábios na água morna da garrafa e cospe” -, trata-se de um fotógrafo que ali vai deixar as cinzas do falecido pai. “Nesse encontro dele com a terra”, explica o autor, “acaba por ter um encontro com um cavalo que o remete para o mundo da Grécia antiga numa circunstância enigmática”. 

Sobre este seu livro, pouco mais. “Acho que não estraguei a leitura, mas como me pediram para falar qualquer coisinha…”, diz Abel Neves. Já sobre o reconhecimento público dos autores de textos para teatro dirá mais qualquer coisa: “São completamente desprezados. Não é que estejamos à espera de grandes cerimónias, mas que deem importância ao texto dramático”. Segundo garante, “há muito boa gente a escrever muito boa literatura para teatro, mas parece que tudo para no Almeida Garrett”, ironiza.

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