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“Abandono da Anta Grande do Zambujeiro é inaceitável”

Luís Godinho texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

O vice-presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses, Luís Raposo, diz-se “preocupado” e “escandalizado” com o estado de abandono da Anta Grande do Zambujeiro, em Évora, denunciando “o risco de colapso” do interior deste Monumento Nacional, o maior dólmen da Europa.

Luís Raposo revela que a associação efetuou nos últimos dois anos diversas diligências junto do Ministério da Cultura, tendo chegado a reunir com a ex-secretária de Estado da Cultura, Ângela Ferreira, a quem alertou para o mau estado de conservação deste monumento e para o perigo de vir a colapsar. 

“Foram feitas algumas diligências no sentido de procurar resolver o assunto, mas a verdade é que nada foi feito e a situação é de enorme gravidade, não só em termos nacionais como europeus, porque se trata do maior dólmen da Europa”, acrescenta. “Infelizmente, continua tudo na mesma, fizemos o que pudemos”.

Construída há mais de cinco mil anos, a Anta Grande do Zambujeiro é composta por uma câmara poligonal, formada por sete esteios erguidos cerca de oito metros acima do leito da câmara, e por um corredor com cerca de 12 metros de comprimento por dois de altura. “É de tal forma gigantesca que só foi descoberta muito tardiamente”, lembra o o vice-presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses (AAP), referindo que o facto de se tratar de um monumento de grandes dimensões fez com que tivesse passado despercebido aos arqueólogos alemães Georg e Vera Leisner que, depois da II Guerra Mundial, fizeram o levantamento de centenas de antas no Alentejo, muitas delas, aliás, até já destruídas.

“Eles passaram na zona, mas não reconheceram a anta naquela colina. A mamoa estava toda preservada, debaixo de terra, surgindo como um relevo natural. Nem lhes passou pela cabeça que pudesse ser um monte artificial em cujo interior existia um monumento desta dimensão”, acrescenta Luís Raposo.

Só em meados da década de 60 é que a Anta Grande do Zambujeiro foi identificada e escavada pelo arqueólogo Henrique Leonor de Pina que, ao mesmo tempo que a estudou, “contribuiu para a colocar em risco” de colapso. “O Henrique Leonor de Pina fez a escavação por cima, partiu a pedra de cobertura pelo menos em dois pedaços, que ainda lá estão, e pôde aceder por cima à câmara funerária, escavando de cima para baixo. Foi um método de escavação e um modo de abordar a anta muito próprio. Nenhum arqueólogo, hoje em dia, faria uma coisa dessas”, acrescente o vice-presidente da AAP.

Depois, o arqueólogo, para “melhor perceber” a anta e chegar ao corredor, “escavou pelo lado de for dos esteios, isolando-os da mamoa que os continha, como hoje ainda estão, e isso deixou-os periclitantes”. Segundo Luís Raposo, além do que é visível, os esteios têm “uma boa parte enterrada, que os tem mantido”, mas as permanentes infiltrações de águas “têm vindo a fragilizar” todo o conjunto. “A verdade”, sublinha, “é que tudo aquilo é de uma fragilidade imensa, os esteios, o corredor… já houve até alguns abatimentos. Há projetos sobre o que fazer e como se fazer, mas a verdade é que o tempo passa e nada se faz”.

Uma das razões invocadas para esse atraso foi o facto de se tratar de terreno privado, o que “serviu de desculpa para os serviços do Ministério da Cultura continuarem sem intervir”. No entanto, “já com a Ana Paula Amendoeira à frente da Direção Regional de Cultura conseguiram-se articular boas vontades de todas as partes envolvidas, da Câmara de Évora aos proprietários, para que se faça essa intervenção. Só que não se faz”.

Opositor à integração dos serviços regionais do Ministério da Cultura nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, recentemente decidida pelo Governo, Luís Raposo considera uma “das poucas vantagens” desse processo é o património cultural “passar a estar integrado numa entidade” com maiores recursos financeiros e gestora de programas comunitários. “Esperemos que, ao menos, aja algum benefício desta transferência de competências e que a CCDR do Alentejo acorra à Anta Grande do Zambujeiro pois tem acesso a fundos para isso”, desabafa o vice-presidente da AAP, classificando como “completamente inaceitável” o abandono deste monumento, “que nos deixa desolados e envergonhados, pois aquilo está num estado miserável”.

RELATÓRIO DO LNEC IDENTIFICOU PROBLEMAS DE ESTABILIDADE

Recorde-se que um relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), já com 15 anos, aponta para diversos problemas que afetam o monumento, alertando para a existência de uma “gravíssima situação de estabilidade estrutural, particularmente grave na zona de articulação do corredor com a câmara”.

Entre os problemas detetados inclui-se a “alteração e a degradação dos elementos pétreos constituintes do monumento”, bem como a “erosão muito acentuada dos taludes do remanescente da mamoa, responsabilidade dos fatores climatéricos, mas provocada também pela incursão descontrolada dos visitantes”.

Mais recentemente, em janeiro de 2021, foi publicada uma portaria a fixar a Zona Especial de Proteção da Anta Grande do Zambujeiro, referindo-se que “qualquer intervenção ou alteração do uso do solo, incluindo alterações ao coberto vegetal, deve ser objeto de medidas de salvaguarda de carácter preventivo e, nomeadamente, de acompanhamento arqueológico”.

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