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A ruralidade alentejana na obra de Antunes da Silva

Luís Godinho texto

Nascido em Évora a 31 de julho de 1921, faz agora 100 anos, Antunes da Silva foi um dos autores que de forma mais intensa abordou a ruralidade alentejana, designadamente as lutas dos trabalhadores rurais e as relações de conflito entre proprietários e rendeiros. O seu romance mais divulgado, “Suão”, constitui um retrato fiel da sociedade rural alentejana de meados do século XX.

Autor de uma vasta obra literária, onde se incluem diversos artigos publicados em jornais e revistas, bem como romances, contos e poesia, para além de uma intensa militância contra a ditadura de Salazar, Antunes da Silva desenvolveu um percurso ímpar na vida literária e política portuguesa. Como escreveu António Cândido Franco, professor da Universidade de Évora, “é porventura o escritor que melhor reinventou artisticamente o Alentejo”. António Quadros completa: “devem-se-lhe algumas das mais vibrantes páginas que depois de Fialho de Almeida se escreveram sobre a gesta do homem alentejano”.

Começou desde muito novo a escrever para alguns dos mais conceituados jornais portugueses – no “Comércio do Porto”, por exemplo, foi convidado para substituir José Régio nos artigos de fundo dominicais. A sua primeira obra, o livro de contos “Gaimirra”, foi publicada em 1946.

Editado 14 anos depois e objeto de mais seis reedições, “Suão” será, porventura, a sua obra mais representativa, constituindo um retrato fiel da sociedade rural alentejana, contado do ponto de vista dos mais desfavorecidos, através do percurso de Maldirro Real, um proprietário de terras, de Simplício Varandas, um rendeiro, e da mulher deste, Olímpia das Dores, que um dia fugiu, ao amanhecer, “sem casaco, nem lenço, nem xaile, desprezando as leis da vila”.

Para António Cândido Franco, “a originalidade do romance de Antunes da Silva tem de se procurar no tratamento do espaço, pois trata-se visivelmente de um romance de espaço, e não de ação ou de personagens. Este espaço é evidentemente o Alentejo, que tanto é um Alentejo natural como humanamente social”. Trata-se, acrescenta, de um Alentejo “desconhecido e metafórico, que só existe na linguagem de quem o escreveu, mas muito mais inesperadamente autêntico e duradouro do que o dos estereótipos que vulgarmente sobre ele se dizem”.

Neorrealista na linha de escritores como Manuel da Fonseca, Antunes da Silva encontrou na literatura uma forma de intervenção política, seja defendendo a construção da barragem de Alqueva, dando eco às reivindicações dos trabalhadores rurais por melhores condições de vida, denunciando as precariedades do sistema de saúde ou debruçando-se sobre o problema da emigração, dos muitos alentejanos que, como escreveu em “Uma Pinga na Chuva”, sem poderem regressar de vez dizem que só se sentem “felizes” quando “vão” ao Alentejo.

A par da sua vida literária, pontuada também pela poesia, Antunes da Silva desenvolveu igualmente uma fervorosa luta política. Pertenceu ao MUD Juvenil, foi preso pela PIDE e levado para Caxias. Nunca chegou a ser julgado pelas suas atividades políticas, mas compareceu diversas vezes em tribunal como testemunha de defesa de resistentes antifascistas. Foi candidato pela CDE nas listas da Oposição Democrática pelo distrito de Évora, em 1969, tendo integrado o MDP/CDE depois do 25 de Abril. “Sabia que, de vez em quando, passava uns tempos na prisão. Metia-se na política, como dizia a minha mãe, e ainda-bem-não a PIDE vinha buscá-lo. Levavam-no para Lisboa, onde o interrogavam e brutalizavam, guardando-o depois por uns tempos para ‘castigo’ dos seus ‘crimes contra a segurança do Estado’ e para que lhe passassem as nódoas negras”, escreveu Galopim de Carvalho, um seu primo mais novo.

Em 1991, Antunes da Silva foi distinguido pela Câmara de Évora com a medalha de mérito municipal. O Presidente da República, Mário Soares, condecorou-o no ano seguinte com a comenda da Ordem da Liberdade.

“Suão” é um romance em que as personagens emanam da realidade concreta de uma região tantas vezes oprimida, atravessa pela questão, nessa altura ainda em aberto, da posse da terra e das sempre complexas relações entre ricos e pobres, entre senhorios e rendeiros, e entre estes e os operários agrícolas. Osório Puga, ganhão, bebe uns copos de vinhos e nesse ano de 1960, em que o romance é publicado, assegura que “as terras hão de ser entregues a quem as trabalha”. Trata-se de um Alentejo profundamente agrícola, tipificado na aldeia de Sam Jacinto, onde “as noites cálidas são aproveitadas para examinar o balanço de todas as grandes searas do concelho”.

Pela obra perpassam as condições de vida dos homens de pequenas lavouras, arrendatários de courelas, num tempo em que um rendeiro “pouca força tinha para comprar uma parelha de mulas, que não podia alargar-se em despesas, com medo das rendas, dos adubos, da chuva que a mais caísse e dos estragos do vento suão”. É também uma tocante ode de amor dedicada por Antunes da Silva à região onde nasceu: “Cantam ranchos de camponeses às portas da vila alentejana de Sam Jacinto. As suas vozes sobem às alturas, arrastam-se como um hino, pintadas de solidão. São vozes de vento e de sol a espantar o medo que já não têm”. 

COMEMORAÇÕES DISCRETAS

Embora de forma discreta, sem o relevo que o autor merece e a obra justifica, o centenário do nascimento de Armando Antunes da Silva foi assinalado em Évora, em dois momentos. Um primeiro foi a inauguração na Escola Secundária Gabriel Pereira de uma exposição intitulada “Antunes da Silva. Alentejo Sempre!”,  composta por objetos que remetem para a sua produção literária, caso da sua máquina de escrever, e edições antigas das suas obras em prosa e em verso, documentando também as suas relações profissionais e a sua vida literária. Depois, a Biblioteca Pública foi palco de uma sessão comemorativa, denominada “Memórias Sonoras de Évora”, organizada pelo Centro de Recursos do Património Cultural Imaterial da autarquia.

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