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A partir do adarve, a cidade de Borba como nunca a viu

Luís Godinho texto Gonçalo Figueiredo foto

Há um novo local para nos perdermos de encantos pela cidade de Borba. O adarve foi recuperado e a partir daí é possível olhar a cidade numa outra perspetiva, descobrindo recantos e monumentos. Antes de lá chegar, o visitante é convidado a descobrir a história do concelho, da Idade Média aos nossos dias.

Lida assim, de rajada, adarve parece palavra saída de um livro do Fialho ou de Camilo. Certamente um arabismo, dos milhares que Adalberto Alves estudou. É num desses adarves, o de Borba, junto à Torre do Relógio, que Diana Martins, da Câmara de Borba, me aponta na direção da Igreja Matriz, com as suas 10 capelas. Depois a da Misericórdia. Por fim, lá mais ao longe, o Convento das Servas, mandado construir em 1604 pelo Duque de Bragança.

Restaurado e recentemente aberto a visitas, daqui se consegue avistar a cidade espraiada em todas as direções. Borba como nunca a tínhamos visto. Já agora, por adarve entenda-se o passeio pedonal existente no cimo das muralhas. O tal caminho da ronda que era percorrido dia e noite por quem tinha como missão atentar contra a aproximação de gente estranha, vigiando com particular minúcia o terreno contíguo ao castelo.

Este troço do adarve, entre a Porta de Estremoz e a Torre do Relógio, passando pela antiga Torre da Cadeia, a que haveremos de voltar, esteve abandonado durante séculos. É hoje visitável graças ao restauro concretizado pela Câmara de Borba no âmbito do Plano de Ação de Reabilitação Urbana (PARU). O projeto é da autoria do arquiteto João Charrua. 

A visita, explicam-me num contacto telefónico, tem de ser previamente combinada com quem estiver de serviço no posto de turismo. Nesta tarde de sábado é Diana Martins. É ela que me conduz pelo meio do casario até ao topo da Rua Maria de Borba. O acesso ao adarve faz-se pelo número 2. “Isto era uma casa particular, onde viviam duas irmãs, e não havia possibilidade de as pessoas subirem à muralha. A Câmara comprou o edifício, foi restaurado, e agora pode ser visitado”.

No interior do edifício o espaço é exíguo. Mas antes de chegar ao topo, há tempo para “viajar no tempo” e desvendar um pouco da história de Borba, da Idade Média aos nossos dias. Reza a tradição que o topónimo derivou de um acaso: ainda a terra não tinha nome quando alguém, num lago próximo, pescou um barbo e do barbo a Borba terá sido um saltinho dado por fértil imaginação. A verdade é que “dom barbo”, o “rei das caldetas”, ainda hoje integra o brazão da cidade. Claro que a origem do topónimo também poderá ser outra, até uma herança árabe, talvez por aqui terem levantado uma torre, a que chamavam burbe.

Uma torre certamente mais rudimentar do que esta, que agora nos dá as boas-vindas, e onde os os painéis informativos explicam que o povoamento da vila foi iniciado por volta de 1226, reinava D. Sancho II. A carta de foral foi atribuída por D. Dinis em 1302, separando Borba do concelho de Estremoz, mas com a obrigação de aqui se construir um castelo para reforçar a defesa do reino.

O castelo, de forma quadrangular e com o largo adarve que haveremos de percorrer, foi erguido. No seu interior, o centro urbano integra três ruas orientadas no sentido Norte/Sul, cruzadas por uma outra rua, perpendicular. 

Terra de acolhimento a visitantes, na estrada que ainda hoje é a principal via de comunicação entre Portugal e Espanha, entre Lisboa e Madrid, Borba é terra de acolhimento a viajantes. A partir do século XIV, o aumento da população obriga ao desenvolvimento urbano para fora da cerca amuralhada, havendo notícia da existência, no século XV, de uma judiaria com a respetiva sinagoga.

O Convento das Servas data da primeira metade do século XVII. O Hospital da Misericórdia é fundado em 1630. E em 1662 a Batalha de Montes Claros, travada nas proximidades, consolida a independência nacional. O povoado continua a expandir-se. A Alameda dos Plátanos surge em 1795. O novo edifício dos Paços do Concelho poucos anos depois. 

Do Palacete dos Melos, nome com que foi cunhado o velho Palacete dos Fidalgos Sousa Carvalho e Melo, veio uma tela alusiva aos tocadores de sanfona, da autoria de José de Sousa Carvalho. Pintor, escultor e grande proprietário, membro da elite borbense da segunda metade do século XVIII, José de Sousa Carvalho deixou-nos oito telas com “raríssimas representações musicais e de dança”. 

Antes da escadaria que dá acesso à muralha, um fotografia lembra como era o local, talvez em meados do século passado. No topo superior direito da imagem, no Alto da Praça, lá está o Passo Processional, mandado construir pela Venerável Ordem Terceira em 1755, onde António Duarte Franco, capitão de cavalaria, mandou rezar missas diárias dirigidas aos presos que estavam na Torre da Prisão. A mesma sobre a qual passa a aderna que convida à contemplação e à descoberta dos recantos da cidade de Borba. 

UMA PERSPETIVA DE TOPO

No topo da escada, o olhar fixa-se na Torre do Relógio, mandada construir depois do Terramoto de 1755. Lá está a praça ou o edifício da Santa Casa da Misericórdia, olhados através das ameias, numa (agora) nova perspetiva. “O adarve permite que se veja Borba de outra maneira, por cima”, diz o presidente da Câmara, António Anselmo, segundo o qual “um povo tem de saber respeitar a história e ter memória histórica”. Evocar essa memória foi outro dos propósitos do projeto.

Vereadora com o pelouro do património e da cultura, Sofia Dias enfatiza que é daqui, de um dos pontos mais altos da cidade, que se consegue “ver Borba em toda a sua plenitude”. E sublinha que não são só turistas, portugueses ou estrangeiros, que se deixam “render aos encantos” da cidade. “Têm aqui vindo muitas pessoas da terra que não conheciam este espaço, nunca tinham tido acesso à zona da muralha e agora podem percorrer o adarve e descobrir uma outra perspetiva da cidade”.

Lembrando que a criação de espaços culturais e turísticos é “fundamental” para atrair visitantes e que a economia local “só tem a beneficiar com isso”, Sofia Dias refere que outra das mais-valias deste espaço – cuja exposição permanente foi comissariada por Francisco Faria Paulino, da Fundação Batalha de Aljubarrota – é “contar uma história e fazê-lo sem necessidade de guia”, pois os textos, mapas e fotos deixam um enquadramento da evolução histórica de Borba.

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