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Efeméride: A nossa Casa em Lisboa está a fazer 100 anos

Constituída em 1923 para “combater o derrotismo”, pugnar pelo progresso da região e “estimular o convívio” na diáspora, a Casa do Alentejo está viva e recomenda-se.

Ana Luísa Delgado (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Foi entre uma oficina de alfaiataria e uma farmácia que a “embaixada” do Alentejo em Lisboa começou a ganhar forma, no outono de 1922. Entre os promotores do Grémio Alentejano, como inicialmente se designava, encontrava-se gente como António de Aboim Inglês, engenheiro de minas e professor do Instituto Superior Técnico, Agostinho José Fortes, professor e diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, e Jacinto Fernandes Palma, alfaiate, em cuja oficina no número 17 da Rua da Atalaia se realizaram algumas das reuniões preliminares do grupo fundador. Outras tiveram por palco o número 20 da Rua do Loreto, onde ainda hoje se situa a Farmácia Barreto, à época propriedade de António Carrilho.

O Grémio Alentejano é criado a 10 de junho de 1923, sendo que a primeira reunião da direção data de 16 de julho desse ano. “A nova associação, desejosa de se afirmar, não tardou em anunciar nos estatutos o programa que iria nortear a sua vida futura”, assinala o historiador Rui Rosado Vieira, acrescentando que, no essencial, os objetivos eram “pugnar pelo progresso material, intelectual e moral do Alentejo, influenciando os poderes públicos para que se alcancem tais melhorias”.

O Grémio pretendia ainda “combater o derrotismo dos seus comprovincianos, despertando as energias latentes e insuflando alento”, além de “aproximar os seus naturais sem distinção de credos políticos ou confissões religiosas, estimulando o convívio entre a comunidade alentejana da capital e auxiliando os mais pobres de entre eles”.

No capítulo “Casa do Alentejo – Cultura, Liberdade e Solidariedade”, que escreveu para o livro que assinala o centenário da Casa do Alentejo em Lisboa (edição da Colibri), Rui Rosado Vieira refere que para a concretização de tão ambicioso projeto “iriam ser escolhidos os associados mais prestigiados e dinâmicos, seria aumentado o número de sócios, ampliando o valor das receitas provenientes das cotizações de forma a reunir fundos que permitissem arrendar instalações necessárias à efetivação das programadas atividades do Grémio”.

O problema das instalações não era de menor importância. A primeira sede, ainda que provisória, foi instalada em dependências cedidas por uma associação recreativa, a “Lisboa Club”, na Rua da Atalaia, onde teve lugar a primeira reunião de direção, presidida por José Ramos e Costa. Daí, o Grémio passa para o Palácio Ludovice, na Rua de São Pedro de Alcântara, onde se mantevedurante nove anos. Em agosto de 1926, acrescenta o autor, a agremiação já contava com 489 associados. “Encorajada pelo contínuo crescimento do número de sócios, em março de 1932 a direção do Grémio Alentejano dá início ao processo que irá conduzir à transferência da sede da coletividade, desde o Bairro Alto para o Palácio Alverca, situado na artéria onde atualmente se encontra, então denominada Rua Eugénio dos Santos, n.o 58 e, no presente, Rua das Portas de Santo Antão”.

A mudança é feita nesse ano. “Aconteceu que a referida casa apalaçada, propriedade da família Pais do Amaral, se encontrava arrendada à empresa Monumental Club, firma que explorava o negócio de jogos de azar, atividade que por decisão governamental foi impedida de continuar a exercer. Por tal razão a mencionada empresa passou a estar interessada em subarrendar o edifício onde, até então, exercera aquela atividade”.

Com a instalação no novo espaço, prossegue Rui Rosado Vieira, “encerrava-se o primeiro capítulo da vida atribulada da agremiação alentejana e dava-se início a um outro mais ambicioso e duradoiro – com o feliz corolário representado pela compra do palacete em 1981 – que nos conduzirá aos nossos dias e aos seus 100 anos de vida”, que agora se celebram.

DE ‘CERCLE PRIVÉ’ A ESPAÇO DE INTERAJUDA

Rosa Honrado Calado, vice-presidente da instituição, lembra que o palácio onde a Casa do Alentejo se encontra instalada foi reconvertido, no princípio do século XX (1917-1919), num “club” luxuoso onde o jogo e o dinheiro dos ricos empresários “criaram e guardaram uma vida dourada, completamente desfasada da realidade portuguesa, quando a guerra e a fome” atingiam a maior parte da população.

“Este palácio construído primeiro como solar, no final de seiscentos, pertenceu aos viscondes de Alverca, foi arrendado (com exceção das lojas), em 1917, por um grupo de empresários que após obras radicais assinadas pelo arquiteto Silva Júnior fizeram dele um clube de recreio e de jogo denominado Casino Majestic Club, passando pouco depois a chamar-se Monumental Club e assim permanecendo até 1928”, prossegue.

Rui Rosado Vieira acrescenta que o Monumental era “um clube da fina sociedade, um ‘cercle privé’, onde para se ser sócio é necessário ser apresentado e pagar uma, relativamente avultada, joia e quotas respetivas. Não é sócio quem quer. É só quem o pode ser”. Refere o historiador que essas “longas jogatinas” contavam com a participação “não só de prósperos comerciantes lisboetas, como de abastados lavradores alentejanos, enriquecidos com a venda da cortiça proveniente das suas extensas herdades”. Tratava-se de uma “contradição chocante”, pois aconteciam “exatamente nos mesmos anos em que o desemprego generalizado e a fome levavam grupos de crianças descalças, de porta em porta, em aldeias, vilas e cidades do Alentejo, a pedir pão”.

Como vimos, a sala acabou por encerrar, sendo arrendada em 1932 ao Grémio Alentejano, “coletividade que teve de mudar, nos anos 40, a designação para Casa do Alentejo”. Foi uma imposição do regime de Salazar. Em 1981, um descendente dos viscondes de Alverca vendeu o palácio à associação regionalista.

Os bailes, a promoção do cante alentejano e as conferências foram e são apostas da “embaixada” alentejana em Lisboa. Entre 1932 e 1974 foram realizadas cerca de 150 conferências, nas quais participaram os professores e críticos literários Hernâni Cidade, João Gaspar Simões, Reinaldo dos Santos e Mário Chicó, os escritores Jaime Cortesão, Vieira de Almeida, Eugénio de Castro, António Sérgio, Alexandre Cabral, Leopoldo Nunes, Ramada Curto, Augusto Casimiro, Raul Esteves dos Santos e João Quintanilha, ou os educadores Agostinho Fortes, Manuel Subtil, Aboim Inglês e Joaquim Fiadeiro. Entre muitos outros.

Desde os seus primórdios, referem Rosa Honrado Calado e Fernando Mão de Ferro, coordenadores do livro, a Casa do Alentejo é “uma tentativa de celebração da vida cultural dessa imensa região e, simultaneamente, um espaço de convívio e de entreajuda entre a comunidade alentejana residente em Lisboa”, sendo de “enaltecer” a capacidade de entendimento e persistência “de dirigentes e sócios que, naturalmente, mesmo ante divergências políticas próprias desses contextos de profundas ruturas sociais, quiseram manter vivos os valores culturais e identitários e a Casa comum dos alentejanos, que os preserva”.

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